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Vozes de alto nível na última récida de A Valquíria

Encenação ousada de Heller-Lopes funciona bem e regência de Malheiro incendeia o Municipal de São Paulo.

Der Ring des Nibelungen (O Anel do Nibelungo) é um festival cênico em um prólogo e três jornadas, totalizando então quatro dramas musicais (daí o popular termo Tetralogia), gestado durante 26 anos (1848-1874) pelo compositor alemão Wilhelm Richard Wagner, sobre seu próprio libreto, com base na mitologia nórdica e na Canção dos Nibelungos (Das Nibelungenlied).

O ciclo, considerado por muitos (com razão) a mais ambiciosa composição da história da ópera, com aproximadamente 16 horas de música, é, em maior escala, uma das grandes obras-primas da humanidade.  As relações do homem com Deus (ou deuses), e de ambos com o a riqueza e o poder são alguns dos principais temas da obra.

O Theatro Municipal de São Paulo levou ao palco neste mês de novembro a primeira jornada do ciclo, Die Walküre (A Valquíria), que corresponde ao segundo drama musical da série.  Até o momento, não se sabe se o teatro paulistano tem intenção de completar a Tetralogia nos próximos anos, a exemplo do que ocorreu no Festival Amazonas de Ópera na primeira metade da década passada.  Seria uma ótima pedida para o ano do bicentenário de nascimento de Wagner (2013).

Em A Valquíria, paira no ar a maldição lançada pelo anão Alberich no prólogo do Anel (Das Rheingold – O Ouro do Reno), segundo a qual todo aquele que possui, ou possuiu, o anel forjado com o ouro roubado do rio Reno sucumbirá à infelicidade até que ele seja devolvido às donzelas do rio.

Um amor puro, mas incestuoso e adúltero, leva Siegmund à morte.  Sua Sieglinde, no entanto, carrega no ventre o fruto desse amor.  Os gêmeos que se reencontram são os Wälsungen, ou seja, filhos de Wälse, nada menos que o deus Wotan em forma humana.  Wotan, a contragosto, mas convencido por sua esposa Fricka, deusa do matrimônio, ordena à sua filha predileta, a Valquíria Brünnhilde, que cuide para que Siegmund perca a batalha contra Hunding, marido de Sieglinde.

Desobedecendo a seu pai, Brünnhilde protege Siegmund no duelo, mas no momento derradeiro Wotan intervém, causando a derrota de seu filho.  Inicialmente irado pela desobediência da Valquíria, mas depois pesaroso pela obrigação de cumprir sua própria lei, o deus pune a sua predileta e a coloca em sono profundo, protegida por uma barreira de fogo.  Ao herói destemido que vencer o fogo e despertá-la, ela deverá desposar, como uma simples mortal.

Não é fácil falar numa pequena resenha como esta sobre a imensidão da riqueza musical de todo o ciclo do Anel.  Os incontáveis motivos musicais que Wagner utiliza tão habilmente dominam a Tetralogia.  Em A Valquíria, o compositor alcança momentos sublimes de profundidade musical.  Dentre os principais motivos musicais da ópera, destaco aquele do amor (que aparece pela primeira vez enunciado por um violoncelo solo, acompanhado por outros violoncelos e por contrabaixos, no primeiro ato, enquanto Siegmund bebe a água que lhe foi dada por Sieglinde); o da espada; o da cavalgada das Valquírias (célebre); e o do fogo mágico, que magistralmente encerra a ópera.

A produção assinada por André Heller Lopes cialis for sale black market para o Municipal de São Paulo, por ele classificada como uma Valquíria à brasileira e da qual assisti à última récita nesta sexta-feira, 25 de novembro, funcionou muito bem no palco.  Pôde ser notado um excesso aqui ou ali, como por exemplo o uso exagerado de figurantes ou um interminável beija-mão por parte destes (que representaram os capangas de Hunding), mas no geral a concepção do diretor em nada prejudicou o bom entendimento da obra de Wagner.  A direção dos cantores foi muito bem trabalhada.

Os cenários do próprio diretor e de Renato Theobaldo ambientaram bem a ação.  As referências à sala de ex-votos de Aparecida (um refúgio de Wotan, segundo Heller-Lopes) e à cavalhada deram um interessante tom místico à montagem.  Os figurinos de Marcelo Marques, bem executados, seguiram com correção as intenções da direção.  E um grande destaque da montagem foi a impecável luz de Fabio Retti, que valorizou cada cena, cada momento desta Valquíria.

Irregular nesta produção foi apenas o grupo de Valquírias formado pelas sopranos Mônica Martins (Gerhilde), Maíra Lautert (Ortlinde), Veruschka Mainhard (Helmwige) e Elayne Casehr (Rossweisse) e pelas mezzosopranos Keila de Moraes (Waltraute), Laura Aimbiré (Schwertleite), Lídia Schäffer (Siegrune) e Adriana Clis (Grimgerde) – o que tirou um pouco do brilho da famosa cena da cavalgada das Valquírias.

Desta vez, o Municipal de São Paulo caprichou na escolha dos solistas principais, afastando o fantasma de Rigoletto, quando as três vozes estrangeiras do primeiro elenco eram de qualidade bastante duvidosa.  E não poderia ser diferente, pois, sem vozes qualificadas e capazes de prender o ouvido da plateia, uma ópera wagneriana acaba se tornando muito cansativa, dispersando a atenção dos ouvintes.

A soprano escocesa Lee Bisset foi uma correta e sensível Sieglinde, e foi também a única que, em alguns poucos momentos, foi coberta pela orquestra.  Ainda assim, representou muito bem e foi uma verdadeira explosão de sentimentos.

Bisset teve ao seu lado, o Siegmund exemplar de Martin Mühle.  Até então, minhas poucas experiências com a voz do tenor gaúcho não foram das mais animadoras.  Desta vez, ele conquistou meu ouvido desde as primeiras notas com uma afinação precisa, um volume e uma projeção surpreendentes, e enorme capacidade expressiva.  Inesquecível seu monólogo do primeiro ato.  Neste Wagner, Mühle navegou por águas acolhedoras e, talvez, tenha encontrado o seu definitivo reconhecimento.

O baixo norte-americano Gregory Reinhart fez um Hunding um tanto afetado, seguindo opção da direção, sem perder a severidade que lhe é peculiar.  Dono de uma voz soberba, que sabe controlar muito bem, foi um sofisticado contraponto aos gêmeos Wälsungen.  A mezzosoprano Denise de Freitas foi uma colérica, insinuante e decidida Fricka, que enfrentou com bravura e intensidade o embate com Wotan no segundo ato.  É bastante estimulante a sensação de observar brasileiros como Mühle e Freitas cantando no mesmo alto nível de cantores estrangeiros realmente capacitados.

O barítono alemão Stefan Heidemann viveu o deus Wotan em sua enorme gama de sentimentos: da alegria do encontro com sua filha predileta no começo do segundo ato à tristeza pela punição inexorável que sua lei impôs à desobediência da Valquíria, passando por irritação, consternação, angústia, ira e sofrimento.  O Wotan de Heidemann, muito bem construído, especialmente nas fragilidades do deus, com uma voz rica e expressiva a seu favor, teve seus melhores momentos no monólogo do segundo ato e em toda a cena final.

Antes da récita, anunciou-se que a soprano norte-americana Janice Baird cantaria acometida por uma gripe.  Se, gripada, ela deu o show que deu, como teria sido se estivesse com a saúde em perfeitas condições?  Dona de uma voz robusta, de grande projeção, a artista foi uma Brünnhilde muito segura e convincente.  Seus melhores momentos foram a cena com Siegmund no segundo ato e a cena final com Wotan.

A julgar pelos comentários que li sobre as primeiras récitas, a Orquestra Sinfônica Municipal evoluiu durante o período da montagem.  Se perfeita não esteve, apresentou, no entanto, perceptível comprometimento e seriedade no trabalho, alcançando grandes momentos ao longo da récita.

O maestro Luiz Fernando Malheiro a tudo e a todos conduziu com grande refinamento artístico, realizando um brilhante trabalho de interpretação e fornecendo o seguro alicerce para o brilho vocal dos solistas.  Malheiro nos ofereceu uma performance notável e uma aula de regência operística, como lhe é peculiar.  O público reconheceu: ele e os músicos da OSM foram ovacionados quando o maestro voltou para o segundo ato e, especialmente, quando voltou para o ato final.

A experiência desta Valquíria em São Paulo foi extremamente estimulante.  Qualquer um que a tenha apreciado certamente ficou com vontade de ouvir o ciclo completo do Anel.  Teremos Siegfried ou O Ouro do Reno no ano que vem?  Como eu disse no começo deste texto, ainda não se sabe.  Cabe à administração do Theatro Municipal de São Paulo e, em especial, ao seu Diretor Artístico, maestro Abel Rocha, decidirem se o principal teatro de ópera paulistano continuará voando alto em termos de repertório, ou se contentará com o bom e velho feijão com arroz.