CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

VitA?ria da arte

Em montagem irregular, porA�m com mais altos que baixos, o grande mA�rito de Orfeu e EurA�dice A� ter, de fato, subido ao palco.

 

Orfeo ed Euridice (Orfeu e EurA�dice), A?pera em trA?s atos e cinco cenas de Christoph Willibald Gluck sobre libreto de Ranieri de’ Calzabigi, com base em conhecidas narrativas das mitologias grega e romana, A� o terceiro tA�tulo da temporada lA�rica oficial do Theatro Municipal do Rio de Janeiro neste ano, sendo o segundo encenado.

Estreada em Viena, em 1762, esta A?pera marcou uma das grandes revoluA�A�es do gA?nero, ao estabelecer uma ruptura com o modelo consolidado no perA�odo Barroco. Enquanto este era marcado por demonstraA�A�es exacerbadas de virtuosismo vocal e grande ornamentaA�A?o musical (o que, nA?o raro, deixava o drama de lado para dar prioridade absoluta A� mA?sica, por meio de belas, e muitas vezes longas, A?rias), a chamada “reforma” de Gluck propA�e um equilA�brio bem prA?ximo do ideal entre mA?sica, poesia e drama, eliminando os excessos e apostando no desenvolvimento contA�nuo da aA�A?o cA?nica.

Depois da primeira versA?o vienense, Gluck revisou sua partitura para a estreia em Paris, em 1774. Ainda viriam outras versA�es, dentre as quais aquela organizada por Berlioz (1859) e a da Casa Ricordi (1889), e atA� hoje essas versA�es costumam dialogar nas montagens levadas aos palcos do mundo. A que estA? em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro A� basicamente a versA?o de Viena, com os acrA�scimos do trio do terceiro ato e da DanA�a dos EspA�ritos Felizes (que inclui um sublime solo de flauta, no segundo ato), passagens que o compositor acrescentou A� obra em Paris (1774).

A produA�A?o em cartaz na CinelA?ndia atA� o dia 12 de julho A� a primeira exclusiva da casa, sem parceria com outros teatros, desde o inA�cio da gestA?o deA�JoA?o Guilherme Ripper. A� exatamente assim, unindo produA�A�es prA?prias com outras em parceria ou trazidas prontas de teatros parceiros, que casas de A?pera sA�rias montam a sua programaA�A?o. Esta produA�A?o, que teve um pequenino adiamento de quatro dias para sua estreia, corria risco de adiamento maior, diante do estado de semifalA?ncia do Governo Estadual, que mal consegue pagar os salA?rios de seu funcionalismo.

Diante desta situaA�A?o, a direA�A?o do Municipal (que soube entender o posicionamento de seus subordinados) e os artistas e funcionA?rios da casa (que sempre se mostraram dispostos a retornar ao trabalho tA?o logo seus salA?rios fossem pagos) tiveram o mA�rito de manter um diA?logo constante, em busca de um entendimento que fosse bom para todos, inclusive o pA?blico, razA?o de ser do Theatro Municipal. Este diA?logo proporcionou que o problema fosse resolvido da melhor maneira possA�vel, sobretudo quando consideramos que, se esse episA?dio tivesse acontecido hA? exatos dois anos, A� de se supor que a produA�A?o teria sido sumariamente cancelada, conforme atitudes comuns, naquela A�poca, A� entA?o diretora da casa, que nA?o merece sequer citada aqui.

O fato, portanto, de Orfeu e EurA�dice estar em cartaz A� uma vitA?ria conjunta, de artistas, funcionA?rios, direA�A?o e tambA�m do pA?blico. Uma vitA?ria da arte.

 

A produA�A?o

A montagem concebida por Caetano Vilela para o Municipal carioca tem momentos de grande inspiraA�A?o, e outros nem tanto, mas que no geral resultam em um espetA?culo fluente e de grande interesse. O encenador propA�e um Orfeu humanizado, e nA?o um semideus. Em sua visA?o, o protagonista A� um guerreiro que usa sua lira como um “instrumento de guerra” para vencer os obstA?culos que se apresentam em sua descida aos infernos para resgatar a amada (leia aqui o resumo da aA�A?o).

Vilela consegue criar um ambiente bastante satisfatA?rio para a aA�A?o, auxiliado pelo belo, A?timo e funcional cenA?rio de Duda Arruk (arquiteta e cenA?grafa paulistana, celebrada por seus trabalhos no Festival de A�pera do Theatro da Paz, em BelA�m), que por sua vez A� ainda mais valorizado pela luz criada pelo prA?prio diretor, ora sensA�vel, ora vibrante.

AlA�m de uma boa direA�A?o de atores, outro ponto alto do trabalho de Vilela foi a ideia de levar a flautista Sofia Ceccato para o palco. A musicista, responsA?vel pelo cA�lebre solo de flauta durante a DanA�a dos EspA�ritos Felizes, que abre a segunda parte do segundo ato, apresenta-se como uma personagem da aA�A?o, tocando seu instrumento e, o que A� realmente surpreendente para alguA�m que nA?o estA? habituada a atuar, movimentando-se com talento e desenvoltura.

Por outro lado, um momento menos inspirado A� a opA�A?o do diretor para a cena final, que, embora faA�a sentido quando ele explica, nA?o se comunica com o pA?blico de forma direta A� primeira vista: um carnaval estilizado, com o casal protagonista banhado em ouro, fazendo menA�A?o a um sA�mbolo do Rio de Janeiro, por meioA�da lembranA�a do filme Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus, vencedor de importantes prA?mios internacionais e, por sua vez, baseado na peA�a Orfeu da ConceiA�A?o, de Vinicius de Moraes. Proposta interessante, mas talvez carente de clareza em sua realizaA�A?o, e certamente sem qualquer ligaA�A?o com o restante do espetA?culo.

Outro ponto irregular sA?o os figurinos de CA?ssio Brasil, de melhor concepA�A?o para os humanos, mas um tanto exagerados para as criaturas do outro plano, como o deus Amor e as FA?rias infernais. E um ponto definitivamente descartA?vel A� a coreografia de TA?nia Nardini, em sua maior parte bastante simplA?ria.

Na rA�cita de estreia, em 7 de julho, a Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal apresentou-se bem sob a correta e segura regA?ncia de canadanonprescription pharmacy Abel Rocha. O Coro do Theatro Municipal, preparado por JA�sus Figueiredo, tambA�m esteve bem, desde a introduA�A?o do primeiro ato, Ah! Se intorno a quest’urna funesta Purchase , atA� a cena final, Trionfi Amore, passando pela cA�lebre passagem das fA?rias no segundo ato, Purchase Chi mai dell’Erebo.

Em uma A?pera que exige apenas trA?s solistas, todas mulheres, a expectativa era grande em torno das intA�rpretes dos personagens-tA�tulo: uma de nossas maiores e mais completas cantoras em atividade, a mezzosoprano Denise de Freitas Purchase (Orfeu); e uma das mais talentosas promessas da nova geraA�A?o, a soprano Lina Mendes (EurA�dice).

Denise de Freitas como Orfeu
Denise de Freitas como Orfeu

 

Quem jA? viu Denise dominar um palco (inclusive hA? poucos meses, roubando a cena como a antagonista da Adriana Lecouvreur, do Theatro SA?o Pedro, em SA?o Paulo), conhece todo o seu potencial, mas a artista nA?o estava em uma noite inspirada. O comeA�o foi pior, com uma voz opaca, sem o brilho e a luminosidade de sempre. Ao longo da noite, a artista melhorou, chegando ao ponto mais alto de sua performance no terceiro ato, na verdadeira joia que A� a A?ria Che farA? senza Euridice?. Ainda assim, porA�m, nA?o era a Denise de sempre.

Um profissional ligado ao Municipal deu a pista do que pode ter ocorrido:A�“Com o adiamento da A?pera por conta da paralisaA�A?o de artistas e funcionA?rios do Municipal, foram trA?s dias seguidos de ensaio (segunda, terA�a e quarta), com estreia na quinta. A� muito cansativo para a voz” Cheap . Faz sentido, sobretudo considerando-se que a mezzosoprano canta praticamente a A?pera inteira. O descanso desta sexta-feira em que escrevo poderA?, tomara, oferecer a esta grande artista rA�citas mais gratificantes.

JA? Lina, que canta apenas no terceiro ato e, obviamente, teve uma carga vocal de ensaios menos estafantes, confirmou tudo o que se dela esperava: uma atuaA�A?o irrepreensA�vel, exibindo uma voz que evolui a cada dia, sonora, musical, bem projetada, dotada de tA�cnica refinada. A soprano aproveitou ao mA?ximo sua grande A?ria, Che fiero momento!, cantada A� perfeiA�A?o.

Lina Mendes como EurA�dice
Lina Mendes como EurA�dice

 

Completando o elenco, a tambA�m jovem Luisa Suarez interpretou Amor com A?tima desenvoltura cA?nica e uma voz leve e baseada em boa tA�cnica, que passeou muito bem pelo Municipal. Sua A?ria do primeiro ato, Gli sguardi trattieni, foi muito bem aproveitada.

No geral, apesar de alguns senA�es acima registrados, Orfeu e EurA�dice A� um espetA?culo de qualidade, e dA? sequA?ncia a uma temporada atA� aqui bastante satisfatA?ria.

Se o governo do estado nA?o atrapalhar (tomara que nA?o), a prA?xima A?pera a ser levada ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro A� Mozart e Salieri, de Nikolai Rimsky-Korsakov, a partir de 28 de setembro, em programa duplo com o balA� Sheherazade, que tem mA?sica do mesmo mestre russo. Antes, em 19 e 21 de agosto, Savitri, de Gustav Holst, serA? levada em forma de concerto com solistas da Academia de A�pera Bidu SayA?o.

 

order moduretic bula Fotos: JA?lia RA?nai

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Leia a crA�tica de Fabiano GonA�alves

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com