CríticaLateralÓpera

Vinte e seis minutos de ópera

A 23ª edição do Festival Amazonas de Ópera (FAO) estava prevista para ocorrer em maio do ano passado, mas, em virtude da pandemia de Covid-19, foi adiada mais de uma vez até ser efetivamente marcada para este junho, com programação totalmente alterada em relação à original.

Diante das dificuldades para realizar o festival de forma presencial – ainda mais em Manaus, uma das cidades brasileiras proporcionalmente mais afetadas pela pandemia –, a direção do FAO optou por um formato virtual (com transmissões via YouTube e Facebook) e pela encomenda de novas obras a compositores brasileiros.

Assim, no último domingo, a edição deste ano do tradicional festival amazonense foi aberta com a estreia de Três Minutos de Sol, ópera inédita de Leonardo Martinelli sobre libreto de João Luiz Sampaio, com base em um argumento proposto pelo compositor e que foi claramente inspirado na situação que o mundo enfrenta atualmente:

Três personagens solteiras, isoladas fisicamente, vivem um triângulo amoroso. A mulher, Laura, o homem, Marcos, e Duda (personagem criada propositadamente com o intuito de provocar certa dubiedade entre heterossexualidade e homossexualidade, podendo ser interpretada por um contratenor ou por uma contralto) comunicam-se apenas através de mensagens trocadas por aplicativo – sem dispensar o sexting, evidentemente.

Simetricamente dividida em três cenas, que se subdividem em três números musicais cada uma, a ópera aborda muito bem em seus vinte e seis minutos e poucos segundos de duração (contado aqui apenas o tempo de música) os conflitos que podem surgir em uma relação nas condições acima mencionadas – relação essa que, é evidente, não tem como dar certo.

Nesse sentido (de conflito dramático), essa segunda ópera de Martinelli alcança maior eficiência que a sua incursão anterior no gênero (O Peru de Natal, apresentada no Theatro São Pedro-SP no fim de 2019), exatamente porque agora o libreto, mesmo sendo mais curto, explora de maneira consistente as possibilidades dramáticas do tema proposto, dentre as quais destaca-se o momento em que um dos personagens, Marcos, sentindo-se solitário e entediado, deixa-se levar pelo próprio egoísmo e busca contato exclusivo com Laura, sem a participação de Duda.

Desde o começo, a música de Martinelli parece já antever o desfecho da trama. Com uma distribuição orquestral reduzida e adequada aos tempos pandêmicos atuais (flauta, que se alterna com flauta contralto em sol; clarinete em si bemol, que se alterna com clarinete baixo também em si bemol; fagote; trompa em fá; piano; violino; viola; e violoncelo), o compositor desenvolve uma teia musical que não apenas acompanha o desenvolvimento do drama, mas que também, notadamente, parece conduzir esse drama até a solução inevitável.

Coube à diretora Julianna Santos a tarefa de amarrar as partes dessa encenação fragmentada, que, pelo menos nessa versão virtual, encontra-se mais próxima do cinema que do teatro – o que não quer dizer que a obra não possa ser levada ao palco: pode sim, e, eu diria, sem a menor dificuldade.

O principal triunfo da encenadora foi, exatamente, ter conseguido unir de maneira coesa os fragmentos da obra (gravada pelos cantores, separadamente, no começo de maio em São Paulo, enquanto a orquestra já havia gravado ainda em 2020 a sua parte em Manaus), dando-lhe uma unidade dramática crível que prende a atenção do espectador. Giorgia Massetani foi responsável pela cenografia, e Laura Françoso, pelos figurinos. Fábio Retti e Kuka Batista cuidaram da iluminação.

Particularmente, não me sinto confortável para emitir comentários mais específicos sobre performances vocais e instrumentais por meio de vídeo. Afinal, as gravações podem ter se repetido algumas vezes, correções podem ter sido providenciadas, etc. Por isso, limito ao mínimo necessário os comentários sobre as performances dos artistas.

Os solistas se mostram totalmente integrados ao sentido de unidade dado pela direção. A soprano Lina Mendes (Laura), o contratenor Sàvio Faschét (Duda) e o barítono Vitor Mascarenhas (Marcos) cumprem suas partes com grande correção, especialmente em suas atuações cênicas, enquanto os representes da Amazonas Filarmônica, regidos por Otávio Simões, honram a partitura do compositor.

Depois de ter visto, com prazer, duas óperas de Leonardo Martinelli (O Peru de Natal e Três Minutos de Sol), é inevitável ter grande curiosidade para conhecer aquela que é a sua obra mais ambiciosa no gênero: Navalha na Carne, baseada na célebre peça teatral de Plínio Marcos. Apesar de já totalmente composta, a ópera não teve ainda a oportunidade de subir ao palco: o Instituto Odeon, que até pouco tempo administrava o Theatro Municipal de São Paulo, havia encomendado a obra “de boca”, e enrolou para fechar o contrato com o compositor. Quando o acerto formal finalmente foi celebrado, a ópera foi programada para 2020, mas veio a pandemia e estragou os planos. Quero crer que seja apenas uma questão de tempo.

O leitor que ainda não assistiu a Três Minutos de Sol, encontra o vídeo da ópera aqui.

 

Julianna Santos e smartphones em dose dupla

Aproveito essa pequena resenha para também comentar brevemente outra ópera dirigida por Julianna Santos e disponível em vídeo: a comédia The Telephone (O Telefone), de Gian Carlo Menotti. Gravada na Frontaria Azulejada, em Santos, no fim de abril, com direção musical de Luís Gustavo Petri e a participação do pianista Flávio Lago, a produção é um primor.

Com cenários e figurinos de Giorgia Massetani e iluminação de Kuka Batista, também aqui pode-se encontrar um trabalho meticuloso da encenadora, tanto em relação à direção de atores, quanto na concepção do espetáculo.

Julianna Santos mescla figurinos que remetem a algumas décadas atrás com a atualização do “telefone” do título para um moderno smartphone – esse pequeno demônio dos tempos atuais que tem seus benefícios e malefícios, que pode aproximar ou afastar as pessoas na mesma medida, dependendo do uso que se faz dele. Não deve ser por acaso que smartphones são quase “personagens” protagonistas não apenas na ópera de Martinelli, como também na versão da encenadora para a obra de Menotti.

A soprano Raquel Paulin (Lucy) e o barítono Johnny França (Ben) oferecem interpretações cênicas irrepreensíveis. Uma vez mais, limito-me a não adentrar muito na questão da performance vocal, por se tratar de versão gravada, mas tudo corre muito bem, e ambas as vozes se mostram seguras e adequadas às suas respectivas partes.

Esse é mais um vídeo imperdível, que pode ser conferido aqui.

 

Na foto do post, a soprano Lina Mendes.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com