CríticaLateralMusicalRio de Janeiro

Vida louca, vida breve

Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical leva à cena energia irreverente do poeta do rock.  purchase lithium medication

Para o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), alicerce fundamental da civilização ocidental, grande parte das artes baseava-se na imitação. Em sua obra Poética, ele dizia que “a missão do poeta consiste mais em fabricar fábulas do que fazer versos, visto que ele é poeta pela imitação, e porque imita as ações” lisinopril amlodipine combination . Mas não bastava a mimese da realidade: era imprescindível que a arte, para ser grande, fosse capaz de, por encadeamento e verossimilhança dos fatos, suscitar nos homens terror e piedade. O despertar desses sentimentos era, prioritariamente, a função da arte, pois nos despertava comoção e deslumbramento, ajudando-nos a entender a dimensão humana nesta nossa breve existência no mundo.

No espetáculo http://blog.jasonlneff.com/?p=3487 Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical, em cartaz, com bastante sucesso, no Theatro NET Rio, no Rio de Janeiro, a imitação (entendida literalmente) é elemento preponderante da encenação. Com direção de João Fonseca e texto de Aloisio de Abreu, a peça apresenta a trajetória de um dos mais fulgurantes expoentes da cena musical brasileira dos últimos anos: Agenor de Miranda Araújo Neto, conhecido desde sempre (e para sempre) como Cazuza, de seu surgimento na cena artística como vocalista da banda Barão Vermelho à morte precoce decorrente da Aids, em 7 de julho de 1990.

Assim como em seu sucesso anterior (Tim Maia – Vale Tudo, o Musical – leia crítica aqui), o diretor do espetáculo aposta fichas em um protagonista que recria o biografado em trejeitos e intenções: Buy Emílio Dantas (substituído à altura por Osmar Silveira na apresentação noturna de 11 de janeiro). Ambos os atores capturam a essência e a energia do roqueiro com assombrosa verossimilhança. Boas imitações fazem também Fabiano Medeiros (como Ney Matogrosso – ainda que resvale para a caricatura algumas vezes, tem ótimo momento ao recriar performance do cantor), Thiago Machado (Frejat), Dezo Mota (em engraçada participação como Caetano Veloso) e, roubando as cenas, André Dias como o produtor Ezequiel (Zeca) Neves.

Completando o elenco estão: Yasmin Gomlevsky (Bebel Gilberto), Bruno Narchi (Serginho Maciel), Bruno Sigrist (Guto Goffi/dr. Sheldon Wolf), Bruno Fraga (Maurício Barros), purchase atarax medicine Sheila Matos (Tereza/enfermeira), Juliane Bodini (Yara Neiva/médica), Saulo Segreto (Dé Palmeira) e Oscar Fabião (Zeca Camargo).

Só as mães são felizes

É central a relação de Cazuza com os pais – João (Marcelo Várzea) e, em especial, Lucinha Araújo (Susana Ribeiro) –, o que é compreensível, já que o texto baseia-se, em grande parte, no livro Só as Mães são Felizes, escrito pela jornalista Regina Echeverria a partir de depoimento da própria Lucinha. O fato é que, ao colocar em posição central um protagonista calcado na imitação, o tom do espetáculo resvala em um naturalismo exacerbado, o que fica comprometedor quando o texto não traz, em si, nenhuma sofisticação dramática.

À exceção de alguns momentos emocionantes – em sua maioria advindos da força que Cazuza (ainda) emana na cultura brasileira e da potente beleza de algumas das dezenas de canções de sua autoria apresentadas no espetáculo –, o naturalismo acaba levando o espetáculo como um todo a certo tom tatibitate. Mesmo bons atores, como Susana Ribeiro, têm interpretação apática. Pouco sentido dramático fazem ainda o cenário de praticáveis criado por Nello Marrese, a luz de Daniela Sanches e Paulo Nenem (ainda que bonita), as insossas projeções de Order Thiago Stauffer e as coreografias de Alex Neoral. Mesmo que sem personalidade em sua maior parte, os figurinos de Carol Lobato, acompanhados pelo visagismo de Juliana Mendes, contribuem, em algum grau, para a evocação de um período específico de tempo, que vai do final da década de 1970 ao início dos anos 1990.

De mais qualidade é a atuação dos músicos, comandados pelo diretor musical e vocal Daniel Rocha. Com seu apoio, vale a pena ouvir alguns dos maiores clássicos de Cazuza, em carreira-solo ou no Barão Vermelho, como Pro Dia Nascer Feliz, Codinome Beija-flor, Bete Balanço, Ideologia, O Tempo Não Para, Exagerado, Brasil online e Faz Parte do Meu Show, ao lado de composições que o artista nunca chegou a gravar, como Malandragem e Mais Feliz.

A qualidade das músicas, em boas interpretações, e a convincente imitação de alguns personagens, inclusive o biografado, são os destaques de Cheap Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical – mesmo indo de encontro ao que o próprio Cazuza declarou (naturalmente, em outro contexto): “Não quero que me imitem. Não quero ninguém atrás de mim. Tenho muito medo de ser porta-voz de qualquer coisa”. No fim das contas, mesmo com alguns méritos, o espetáculo parece haver esquecido os ensinamentos do mestre grego: “convém que a imitação seja una e total, e que as partes estejam de tal modo entrosadas que baste a supressão ou o deslocamento de uma só para que o conjunto fique modificado ou confundido”