CríticaLateralMúsica contemporânea

Vida inteligente no Planeta Música

Festival Villa-Lobos promove recital com os mais inteligentes da nossa música 

Ligue o rádio, sintonize em uma estação de FM que toque música brasileira. Sim, haverá Chico, Caetano, Calcanhotto e Bethânia. Mas o ouvinte também se deparará com Shimbalaiê, Prepara e Ai, delícia, assim você me mata. Ouvidos mais sensíveis – quiçá acostumados à excelência da música clássica – hão de se perguntar: será o fim da canção?

Um concerto com esse nome lotou ontem (17) o Espaço Tom Jobim, no Rio de Janeiro, como parte da série Música sem Fronteiras do awccanadianpharmacy review Festival Villa-Lobos. No palco, três das mais inteligentes cabeças da nossa música (entendida de modo bastante amplo, sem classificações): Arthur Nestrovski (compositor, violonista, crítico literário e musical, e diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), Luiz Tatit (cantor, compositor e professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) e José (Zé) Miguel Wisnik (músico, compositor, ensaísta e professor de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo). Acompanhados por uma banda afiadíssima (Celso Sim, voz; Gabriel Levy, teclado, piano e sanfona; Jonas Tatit, violão; Marcio Arantes, baixo elétrico, contrabaixo e guitarra; e Sergio Reze, bateria), apresentaram recital com canções formadas por retalhos de referências de toda sorte, muitíssimo bem cosidas com o fio da inteligência e delicadamente bordadas com a linha da sensibilidade. 

Um gás em Beeethoven

Um dos pontos altos surgiu a partir da afirmativa do cantor Tom Zé que a música que melhor representa São Paulo é a bagatela para piano Pour Elise (Für Elise, em lá menor, WoO 59), de Ludwig van Beethoven – não porque os paulistas amem mais que os outros a popular criação do compositor alemão, mas porque ela é o tema insistente do caminhão de uma companhia de gás. A melodia clássica tornou-se popular com a canção Para Elisa, melodia de Wisnik e letra de Tatit. Refinamento e sofisticação se aliam para uma canção que contém lirismo e referências intelectuais, sem, contudo, resvalar em hermetismo ou academicismo. “O meu esforço é para que elas [as composições] não fiquem metalinguagem. Música tem que ser linguagem. As canções não dependem dessas citações para funcionar”, sentenciou Tatit em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo (7/4/2010).

Beethoven ganhou também acompanhamento de uma sanfona e os quatro acordes iniciais da Quinta Sinfonia (em dó menor, Op. 67) transformaram-se, pela mente serelepe de Tatit, na divertida Baião de Quatro Toques. A letra injeta singeleza ao aspecto trágico da sinfonia: “Quando bater no coração / Quatro pancadas e depois um bis / Pode escrever não falha, não / É a tentação de ser muito feliz”. Desde os tempos do grupo Rumo, Tatit promove diálogos entre forma e conteúdo, isto é: a música fala da música, a poesia fala de poesia.

A prática encontra terreno fértil também em Wisnik e Nestrovski, como fica explícito em canções como Os Ilhéus (parceria do primeiro com o poeta Antonio Cicero) e Roda (melodia do segundo com letra do poeta Eucanaã Ferraz). Na elegante Retrato de uma Senhora, Nestrovski flana pelo universo da escritora Lygia Fagundes Telles. Já em Capitu, Tatit deliciosamente bolina com o universo de Machado de Assis e seu eterno romance Dom Casmurro, esbanjando humor e brilhantismo em versos como “Capitu / A ressaca dos mares / A sereia do sul / Captando os olhares / Nosso totem tabu / A mulher em milhares / Capitu”.

Robert(o) Carlos Schumann

Os três artistas navegam por vastos mares de referências – poesia, rap, música clássica, MPB, literatura –, fazendo citações textuais e melódicas, ou mesmo ligeiras evocações, levando o público a um prazer estético similar, talvez, ao de uma criança diante de um cômodo cheio de brinquedos. Êxtase sensorial e exercício intelectual são provocados sem empáfia – pelo contrário, com inteligência generosa, que compartilha e agrega.

O ápice da sofisticação intelectual desabrocha em uma criação de Nestrovski, na qual se apropria de um lied de Robert Schumann, Ich grolle nicht (letra do poeta Heinrich Heine, conhecido como “o último dos românticos”), integrante do ciclo Dichterliebe. Na canção Pra que Chorar?, o brasileiro retorce a melodia, sem, contudo, descaracterizá-la, e transforma a letra romântica (“Eu não guardo nenhum rancor, mesmo quando o coração está partido”, em tradução livre) em uma canção de amor tipicamente brasileira, que poderia ter sido composta por Roberto Carlos: “Pra que chorar / Pra que sofrer demais / Foi só um amor perdido / Foi só um amor a mais / Pra que sofrer / Pra que chorar”. Não satisfeito com o quebra-cabeça de referências, vai além: acrescenta a peça fundamental, aquela que faz a lágrima transbordar do olho marejado: cita Carinhoso, de João de Barro e Pixinguinha, na melodia e na letra: “Meu coração / Bate infeliz demais”. Nem a Escola da Vida, criada pelo filósofo Alain de Botton em Londres com o objetivo de discutir e solucionar problemas corriqueiros do dia-a-dia à luz de nomes como Sêneca e Thoreau, seria mais eficaz. “Fazer música ajuda em tudo. A música ensina a gente a viver”, afirmou Nestrovski em entrevista ao jornal Zero Hora (12/10/2009).

Se, ao final, mesmo diante de tantas criações brilhantes, restar a alguém ainda a dúvida sobre o ocaso da canção, resta a resposta de Tatit (Folha de S. Paulo, 7/4/2010): “Não existe a menor possibilidade de a canção acabar. O que modifica são os meios de divulgação, a maneira de compor, o jeito de lidar com a canção. Mas, enquanto houver alguém falando, a canção sai. Não daria nem para ninar uma criança se a canção acabasse”. Num suspiro aliviado, a gente se vira de lado, e dorme à solta, com um sorriso no rosto, embalado por ecos de doce melodia.

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6 Comments

  1. Ótima dica, Fausto! Obrigado por compartilhá-la conosco. E obrigado pela visita ao Movimento.com. Até a próxima!

  2. Cara Cristiane, fico muito feliz que tenha gostado do texto. Meu objetivo era trazer aos leitores a alegria de assistir a um espetáculo tão bem elaborado. Esperamos contar sempre com suas visitas no Movimento.com! Obrigado!

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com