Crítica

Vida e Transfiguração

Em um programa desafiador, Filarmônica de Minas Gerais e Vladimir Feltsman conquistam o Palácio das Artes

Sob a batuta de seu regente titular, Fábio Mechetti, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais apresentou-se em 28 de março, no Palácio das Artes (Belo Horizonte), em mais um concerto de sua temporada 2013. No programa, Stravinsky, Richard Strauss e Tchaikovsky, tendo como solista o pianista russo, naturalizado estadunidense, Vladimir Feltsman.

A noite chuvosa – véspera de Sexta-feira Santa – encontrou o teatro quase lotado, apesar de ter sido anunciado o esgotamento dos ingressos alguns dias antes. Ao início, Mechetti atacou Jogo de Cartas, de Stravinsky. Música de bailado, da década de 30, com o sabor moderno do velho mestre, bom humor quase sarcástico – expressão de um senso de liberdade experimental e capaz de ainda assustar as mais impecáveis senhorinhas da plateia (e como me divirto com isso!).

A inspiração? O jogo de pôquer, muito apreciado pelo compositor, com suas reviravoltas e combinações de jogadas. Na música, isso funciona com uma partitura ágil, dividida pelo famoso tema de abertura. Como em diversas outras obras de Stravinsky, as madeiras são muito exigidas. Nesta leitura, o regente valorizou muito bem o caráter “dançante” da obra, conduzindo suas madeiras a fraseados sensíveis, nunca piegas. Solos de flauta muito bons, e também as intervenções do oboé, clarinetes, além do spalla.

A riqueza de detalhes é imensa e não passou despercebida. Isso sem falar na gozadíssima citação à abertura do Barbeiro de Sevilha, de Rossini, na última “jogada de cartas”. Como seria ainda mais prazeroso ouvir esse bailado mais uma vez! É uma peça rica, para não se perder no repertório. Cairia bem uma execução um pouco mais amadurecida pela orquestra. E porque não executar a coreografia? Há palco, músicos, maestro e corpos de baile na cidade, no Estado, no País. O que nos faltaria mais? Fica a sugestão…

Em seguida, a orquestra interpretou Morte e Transfiguração, poema sinfônico de Richard Strauss, composto em 1888/1889. Eu acho que não se pode morrer (ou melhor, viver) sem escutar o ciclo de poemas sinfônicos de Strauss. Especialmente o Don Quixote, o Uma Vida de Herói e este Morte e Transfiguração são para mim pão e vinho da linguagem estética do romantismo tardio. Obras obrigatórias para quem quer entender a humanidade do ponto de vista histórico-cultural.

Bem, preferências à parte, vamos aos comentários. O compositor Guilherme Nascimento anota, no programa, que em Morte e Transfiguração, o compositor busca expressar “(…) os últimos momentos de vida de um artista, sua batalha para manter-se vivo, suas lembranças e sua chegada ao outro mundo”. E como foi bonita a introdução soturna, com as violas, fagotes e contrafagote e a inclemente pulsação do tímpano. É o sentido da morte, que se apresenta desnudo. Novamente, muito boas as pequenas intervenções do primeiro-violino, flauta, oboé e clarinete, como que expressando a solidão dos estertores. Foi uma interpretação impressionante, maiúscula. Percebe-se nitidamente que a orquestra compreendeu não apenas a música, mas o discurso. Mechetti regeu de forma incendiária uma cortina germânica de cordas, com metais também bastante coesos. Na parte final, a transfiguração, um crescendo arrebatador, até a música sublimar-se numa outra esfera, não-humana, em um pianíssimo cortado somente pelo aplauso da audiência comovida.

Desta inebriante experiência com Strauss/Mechetti, confesso que voltei já meio satisfeito do intervalo para o conhecidíssimo Concerto no. 1, para piano e orquestra op.23, de Tchaikovsky. Ao uníssono das quatro trompas que introduz a obra, no entanto, o interesse se animou. Pode ser uma abordagem ingênua ou reducionista da minha parte, mas eu acho sempre que a maneira como o solista encara aquela série de escalas, no início, me dá um vislumbre de seu estilo pessoal e, principalmente, de como ele assimila este concerto. Vladimir Feltsman as tocou como se estivesse escovando os dentes. Muito objetivo, com natural virtuosismo.  Que pianista gigante! E de uma honestidade artística incomum. Dele, não se ouvem maneirismos, rubatos e tenutos açucarados, enfim, aqueles truques que deixam aquelas senhorinhas, evocadas lá no início desta resenha, derretidas a exclamar seus charmes e fru-frus.

Feltsman é espontâneo, direto. Exato na cor, nos tempos. Posto que domina o teclado sem limite técnico algum, ele deixa a música falar por si. E pronto, basta. Findo o heroico primeiro movimento, as palmas vieram sem pedir licença. Com bom humor, sinalizou com os dedos a uma senhorinha espevitada na primeira fila que “ia ter mais”. No segundo movimento, concentração absoluta, controle da cor, sem espaço para melodismos ultra-românticos. Passional e cerebral não como antítese, mas como a própria tese. Sublime, não fosse a polifonia de tosses que se abateu sobre o Palácio das Artes (assassinar esses malditos coralistas esofágicos é a solução!). No movimento final, o acento russo do solista se mostrou mais explícito, com clareza e fluidez. Ao término, uma ovação. À senhorinha que aplaudiu ao final do allegro non troppo inicial Feltsman sinalizou: “agora sim, acabou!”. Aos aplausos intermitentes, abanou engraçadamente as duas mãos vermelhas e pôs a língua pra fora, implorando por não forçarem um bis. Não precisava. Era o suficiente, Mr. Feltsman. Volte sempre.

No geral, o concerto do dia 28/03 revela, por fim, o trabalho sério e consistente da Filarmônica de Minas Gerais e de seu regente titular no caminho infindável de promover experiências estéticas de alto impacto e comoção.  Mas, de tudo, confesso que saí do teatro pensando não no solista, nem na orquestra, nem no regente. Pensei em Tchaikovsky. Como uma alma tão dolorida cialis fast delivery in 3 days conseguiu expressar sua dimensão interior com um senso melódico tão puro? É a vida! A vida imprevisível, como um jogo de cartas. Razão e emoção. Morte e vida. Vida e transfiguração…

 

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