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Vai para o trono ou não vai?

Musical sobre Chacrinha, em cartaz no RJ, é explosão de alegria, talento e criatividade.

 

Em meio à grande leva de musicais que vem ocupando os teatros brasileiros – muitos biográficos, alguns de alta qualidade –, uma produção se destaca por fugir do padrão “mera cronologia entremeada por canções” (ainda que esse esquema possa vir a ser lindamente apresentado): é Chacrinha – O Musical, em cartaz no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Um prólogo com hits pops bregas e inesquecíveis (Sidney Magal, Lady Zu, Odair José, Joanna) esquenta a plateia para o que vai vir – mérito da ótima direção musical/arranjos de Buy Delia Fischer, que colabora sobremaneira para manter o ritmo e a alegria durante todo o espetáculo.

A dramaturgia, de Pedro Bial online e Rodrigo Nogueira (autor das ótimas peças Play e Ponto de Fuga), apoia-se em dois atos bastante distintos. A primeira parte do espetáculo se passa no interior de Pernambuco, onde o jovem Abelardo Barbosa viveu sua juventude. Interpretado com garra e viço por Leo Bahia (ator que estourou no incensado musical The Book of Mormon online , montado por alunos da UniRio), o moço confronta-se todo o tempo com uma figura mítica, inspirada no universo cordelístico (representada por Stepan Nercessian), que o inspira a seguir rumo ao sucesso.

O texto é divertido e poético, em forma de quadras de cordel. A direção de arte de Gringo Cardia aposta, nesse primeiro ato, nas referências à xilogravura. A cenografia, do mesmo artista, traz um grande sol ao fundo, com telão com sombras e projeções de grande beleza plástica. Os bonitos figurinos, de Claudia Kopke, vêm em grande variedade de tons terrosos e muito bem executados, e em harmonia com o visagismo de Martin Macias. O desenho de luz de Cheap Paulo Cesar Medeiros, mais uma vez, é irretocável.

Com um ritmo ágil e entremeado por dezenas de canções (são 60 em todo o espetáculo – de Orlando Silva e Carmen Miranda a Rosanah e Roberto Carlos), o primeiro ato tem ainda bonitas coreografias de Alonso Barros, que ajudam a contar a trajetória desse comunicador único na nossa história.

Eu vim para confundir Cheap

Os dois Chacrinhas
Stepan Nercessian e Leo Bahia

O segundo ato é um verdadeiro caleidoscópio multicor e tem foco narrativo principalmente no programa televisivo Cassino do Chacrinha, transmitido nos anos 1980 pela Rede Globo. Mesmo diante da profusão feérica de cores e luzes, chacretes rebolativas com meia arrastão, jurados excêntricos (a Elke Maravilha de Mariana Gallindo é ótima), cantores (Renan Mattos dá um show como Sidney Magal), enormes bananas infláveis, bacalhaus cenográficos, a cena é totalmente dominada pela figura magnética de Stepan Nercessian, em quem o Velho Guerreiro parece estar encarnado.

Em uma caracterização cheia de minúcias, o ator recria o apresentador à perfeição, da voz anasalada ao andar arrastado. O espetáculo acerta ao apresentar as pinceladas biográficas – a conturbada relação com o todo-poderoso da emissora, Boni (Saulo Rodrigues cialis black market price 274 Pills ); a história familiar (incluindo a morte do filho Leleco, vivido por Chris Penna); suas crises de consciência quase bipolares (criador versus criatura) e seus confrontos com o fantasma de sua juventude (interpretado por Bahia).

Para completar essa festa, a delirante plateia participa do alto do próprio palco, como se estivesse na audiência do Cassino. E, para aumentar ainda mais a irreverência, o público, eufórico, pode fotografar com seus celulares (sem flash) e postar nas redes sociais, usando #chacrinhaomusical. Uma grande celebração dionisíaca, com a plateia em grande alegria, bem ao estilo do biografado.

Roda e avisa

Orquestrando essa grande barafunda e dando-lhe forma está um diretor estreante na ribalta, ainda que dono de vasta carreira cinematográfica: Andrucha Waddington (dos longas-metragens Eu Tu Eles prilosec cvs generic , Casa de Areia e Os Penetras, entre outros). Ele consegue harmonizar com fluidez e energia os universos tão distintos apresentados em cena – o interior pernambucano e o programa de TV, a consciência do personagem e o caos da discoteca, o homem Abelardo e o apresentador Chacrinha –, permitindo ao público acompanhar tanto a festa colorida como os dramas de consciência do biografado (que inúmeras vezes se sentia menosprezado pela intelligentsia nacional e chegava a duvidar de seu talento).

O resultado é um espetáculo que fica gravado na memória por sua alegria, pela beleza de sua direção de arte, pela entrega de seus protagonistas (em especial, um inacreditável Nercessian), por uma direção harmoniosa e, principalmente, pela emoção de constatar que o Velho Guerreiro, até hoje, 26 anos depois de sua morte, continua balançando a pança, comandando a massa e dando as ordens no terreiro. Seu Chacrinha, aquele abraço!

Fotos do post: Robert Schwenck/divulgação

 

SERVIÇO:

Chacrinha – O Musical

Direção de Andrucha Waddington. Com Stepan Nercessian, Leo Bahia e outros.

Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, s/n, Centro – Rio de Janeiro)

 

Até 1º de março de 2015

 

Quintas e domingos às 19h, sextas às 20h, sábados às 16h e às 20h.

 

Ingressos: quinta e sexta – R$ 50 (balcão simples), R$ 80 (balcão nobre) e R$ 100 (plateia). Sábados e domingos: R$ 50 (balcão simples), R$ 100 (balcão nobre) e R$ 120 (plateia).

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com