Balé/DançaCríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Uma tragédia meia boca

Em La Tragédie de Carmen, Theatro Municipal do Rio de Janeiro oferece mais um espetáculo irregular.

 

Após um início de temporada artística marcado pela excelência de Jenůfa – a única produção que restou dentre as agendadas pela gestão anterior da casa – o Theatro Municipal do Rio de Janeiro passou a apresentar uma série de produções marcadas pelo improviso e pela irregularidade, como Norma e Carmina Burana. Agora, comLa Tragédie de Carmen, não é diferente, e a instituição segue em frente sem um rumo artístico definido.

Salta aos olhos que, até o presente momento, o diretor artístico da casa, André Heller-Lopes, não tenha conseguido dar ao Municipal esse referido rumo artístico. Em boa parte, por conta da grave crise financeira do falido governo estadual do Rio. Mas será só por isso? Não creio, mas, devido à abrangência do assunto, preferirei abordá-lo em momento oportuno e em artigo específico.

 

Premissas

La Tragédie de Carmen, em cartaz no Municipal até o dia 19 de agosto, tem o seu valor. Trata-se de uma releitura da célebre ópera de Georges Bizet, realizada por Peter Brook em parceria com Jean Claude Carrière e Marius Constant. Aqui, a trama se concentra nos quatro personagens principais da obra de Bizet; a ordem das cenas é por vezes alterada, sem prejuízo da dramaturgia; bailarinos secundam certas passagens que ficariam vazias ou sem sentido sem a sua participação (muitas vezes em substituição ao coro original); e cenas presentes na novela original de Prosper Mérimée são resgatadas. A orquestra é reduzida a uma formação de câmara. O tempo de duração é de menos da metade da ópera original.

Trata-se, pois, de um espetáculo híbrido e de pequeno porte. Chamá-lo de “ópera”, porém, é uma grande forçação de barra, na qual se permitem cair somente os jornalistas despreparados que escrevem sobre cultura no Rio de Janeiro. Ópera é a de Bizet. A releitura de Brook e parceiros é bem mais próxima do teatro de prosa que da ópera em si, ainda que conte com uma orquestra e com cantores líricos.

Exatamente pela presença de orquestra e cantores, a diferença é sutil, e por isso imperceptível para jornalistas despreparados. Tanto que Brook precisou alterar o título da obra, não sendo aceitável que mantivesse o título de Bizet, mesmo ele se aproveitando praticamente o tempo todo da criação do compositor francês. Como ópera, não funciona tão bem. Como teatro de prosa ou espetáculo híbrido, é uma releitura de respeito.

Exatamente por seu citado pequeno porte, é um espetáculo que poderia ser levado com mais facilidade a lugares em que tanto o teatro de prosa, quanto a ópera comumente não chegam – democratizando o acesso à cultura. Como espetáculo para o Theatro Municipal, fica muito aquém do que se espera ver no mais nobre palco do Rio de Janeiro. Parece uma espécie de “cala boca”, como se seus diretores nos dissessem:“olhem, não reclamem, pois estamos fazendo alguma coisa”, mesmo que seja qualquer coisa.

Apesar disso, o maior absurdo veio da imprensa cultural despreparada e chapa branca. Quando um jornalista que entendemos como sério afirma com ares de grande connoisseur que Carmen (a original de Bizet) “é um espetáculo problemático”, ou que é uma ópera “visceral, mas também gordurosa (…)”, este profissional demonstra não ter a menor ideia sobre o que está escrevendo.

 

Realização irregular

A concepção da dupla de jovens diretores (estreantes na casa) Julianna Santos e Menelick de Carvalho oscila entre altos e baixos, e nos momentos menos inspirados deixa transparecer certa carência de personalidade. A direção dos quatro solistas é bastante tradicional, quando a própria estética da releitura de Brook, Carrière e Constant sugeriria mais ousadia.

Não há cenário, apenas alguns adereços de cena; e os figurinos, como já ocorrera em Carmina Burana, são reaproveitados de outras produções. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros é correta, e as projeções de vídeos de Angélica de Carvalho ajudam a preencher o vazio cênico. A coreografia de Marcelo Misailidis também oscila entre momentos mais e menos inspirados, dentre os quais se destaca o belo pas de deux dos primeiros bailarinos da casa, Claudia Mota e Filipe Moreira.

A direção musical do espetáculo é dividida entre Priscila Bomfim e Jésus Figueiredo. Na segunda récita, em 10 de agosto, coube a Jésus reger a orquestra arregimentada para a ocasião, entre membros da Sinfônica do Municipal e convidados. Apesar de pequenos deslizes, o conjunto no geral apresentou-se bem.

Como o toureiro Escamillo, o barítono Leonardo Neiva ofereceu uma performance correta, obtendo razoável rendimento da canção do toureador. A soprano Tatiana Nogueira (aluna da Academia de Ópera Bidu Sayão) esteve bem como Micaela, e cantou com segurança sua ária, Je dis que rien ne m’épouvante. E o tenor Matheus Pompeu demonstrou possuir uma voz que, se ainda não dá conta totalmente da parte de Dom José, possui muitos predicados, como um belíssimo timbre, um rico fraseado e uma ótima projeção. O artista se ampara em boa técnica, e deve apenas evitar saltar os degraus da lírica, como ao aceitar cantar o que ainda não está na hora, como este Dom José, por exemplo. Fiquei com vontade de ouvi-lo cantando partes que lhe sejam mais adequadas no momento.

Foi bom ver a mezzosoprano Carolina Faria interpretar uma protagonista: ela tem presença e carisma. Pareceu presa, porém, pela direção do espetáculo: poderia ter se soltado mais. Vocalmente, a parte de Carmen não lhe é a mais adequada, e à sua facilidade para emitir belíssimos graves somou-se uma perceptível dificuldade nos agudos.

Pelo que foi acima exposto, não é preciso muito esforço para concluir que esta foi uma Carmen meia boca. Como parece não ter condições de montar, pelo menos no momento, produções decentes de ópera e balé, o Theatro Municipal apresenta espetáculos no melhor estilo “engana trouxa”, como foi Carmina Burana, e como é esta Tragédie de Carmen – tudo agendado de última hora, tudo na base do improviso. De positivo, a manutenção de ingressos mais em conta, decisão que pelo menos atrai público para a casa em tempos de crise.

 

Provocações para refletir

Duas pequenas provocações para a reflexão dos leitores. A primeira: já passou da hora de uma mulher reger uma produção completa de ópera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas eu, pelo menos, não considero que a presente produção quebre este tabu. A pianista e maestrina Priscila Bomfim já marcou seu nome na história do Municipal ao ser a primeira mulher a reger uma ópera na casa, ainda que em forma de concerto e com cortes (em maio de 2016, ela conduziu Serse, de Händel, em espetáculo com alunos da Academia de Ópera Bidu Sayão).

Considerar esta La Tragédie de Carmen a primeira produção completa de ópera regida por uma mulher no Municipal é outra grande forçação de barra, além de um desrespeito com a maestrina. Por sua ligação com a casa, a própria Priscila merece a honraria de ser a primeira, mas para isso, deveriam lhe oferecer a oportunidade em uma ópera de verdade, com uma orquestra completa, coro e encenação decente.

A segunda provocação: em uma época de vacas magras, será que é mesmo necessário que uma produção meia boca conte com três elencos? Pelo número de récitas, vá lá que até tivesse dois, mas três? E com alguns cantores mal escalados? Outros mais do que repetidos somente nesta temporada? Este problema também será abordado no artigo específico citado no segundo parágrafo desta resenha e que será publicado em breve.

 

Foto: Júlia Rónai

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com