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Uma Sala renasce no coração da cidade

Na manhã de 2 de dezembro – um dia depois da comemoração de seus 54 anos e 14 dias antes do aniversário de sua reabertura em 2005 –, a Sala Cecília Meireles (SCM), no bairro carioca da Lapa, começou a reflorescer. Na ocasião, foi divulgada a temporada 2020 do espaço, que integra a estrutura da Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj). O anúncio foi feito por José Roberto Gifford, presidente da Funarj, e João Guilherme Ripper, novamente diretor da Sala, espaço que geriu por 11 anos, até 2015.

João Guilherme Ripper e José Roberto Gifford (foto: Vitor Jorge)

O encontro começou com uma apresentação de Gifford, que falou de planos para que a Funarj “volte a ser o que era” no ano que vem – quando comemora 40 anos de criação. Entre as iniciativas está colocar “as pessoas certas nos lugares certos”, disse, referindo-se a Ripper.

Com a palavra, o diretor da Sala começou a apresentar a programação para 2020, que terá como eixo principal a homenagem aos 250 anos de nascimento de Ludwig van Beethoven (1770-1827), alemão cuja genialidade musical será celebrada mundo afora ao longo do ano. Sua obra estará presente na SCM em diversos ciclos do Festival Beethoven 250: as integrais das sonatas para piano (nove dias em maio), para violino e piano (24 a 26 de setembro) e para violoncelo e piano (2 e 3 de outubro); dos trios com piano (20 e 21 de agosto); e dos últimos quartetos de cordas (6, 7 e 8 de agosto). Em oito dias de setembro, uma inusitada série de concertos no ciclo Beethoven visita Villa-Lobos.

Vera Astrachan (foto de Lucila Wroblewsky)

Um variado time de artistas brasileiros (ou atuantes no Brasil) foi escalado para a empreitada beethoveniana: os pianistas Vera Astrachan, Aleyson Scopel, Juliana Steinbach, Sergio Monteiro, Leonardo Hilsdorf, Eduardo Monteiro, Lilian Barreto, Erika Ribeiro, Christina Margotto e Jean Louis Steuerman; os violinistas Emmanuelle Baldini, Priscila Rato e Gabriela Queiroz; o violoncelista norte-americano Jad Barahal (ex-Osesp); o Quarteto Carlos Gomes e os Trios Aquarius e Porto Alegre. Completam o elenco músicos da Orquestra Petrobras Sinfônica.

“A montagem da programação do ciclo de sonatas de piano foi meu primeiro desafio”, contou Ripper. “Eu montei o repertório e depois convidamos os pianistas. Aí foi preciso ver quem tinha agenda e a obra. Foi complicado.”

Rock in Rio

Antonio Meneses (foto de Satoko Kuroda)

Festivais serão a tônica da programação do próximo ano na Sala. Além do dedicado a Beethoven, haverá ainda o Festival Viva Bach!, no qual a orquestra Johann Sebastian Rio interpretará os Concertos de Brandenburgo (9 a 11 de outubro) e o violoncelista Antonio Meneses tocará as Suítes para violoncelo solo, precedidas de prelúdios encomendados a compositores brasileiros (16 e 17 de outubro).

Obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750) também comporão o repertório dos festivais Bach à la Française (25 de outubro), com participação do Centre de Musique Baroque de Versailles e da Orquestra Barroca da UniRio; e Baroque in Rio (28 a 30 de outubro), iniciativa da cravista Rosana Lanzelotte que reunirá os franceses Olivier Baumont (cravo) e Julien Chavin (violino barroco), o holandês Jacques Ogg (cravo) e o brasileiro Marcelo Fagerlande (cravo) para interpretar também Lully, Couperin e Rameau.

Sonia Rubinsky (foto de Isabela Senatore)

A Belle Époque carioca – época na qual surgiu o prédio da Sala, em 1896, ainda como Grande Hotel – também será tema de festival em agosto. A ideia é celebrar a efeméride de dois grandes compositores brasileiros: o centenário de Alberto Nepomuceno (1864-1920) e os 170 anos de Leopoldo Miguez (1850-1902), ambos professores e diretores da Escola de Música da UFRJ. Obras dos dois compositores, bem como de seus contemporâneos Henrique Oswald (1852-1931) e Ernesto Nazareth (1863-1934), ganharão vida por artistas como as pianistas Clélia Iruzun e Maria Teresa Madeira, e o Quarteto de Cordas da UFF. O ponto alto das homenagens ocorrerá nas sextas-feiras 4 e 11 de dezembro: Sonia Rubinsky interpretará a integral da obra para piano de Nepomuceno, e o concerto deverá ser lançado em CD pelo selo Naxus.

Fernando Portari

As vozes serão o centro do Festival Cantares, que levará ao palco, em julho, canções, chansons e lieder interpretados por artistas como os barítonos Inacio de Nonno, Alfonso Mujica e Homero Velho, a soprano Carla Cottini e os tenores José Hue e Fernando Portari – que celebrará suas três décadas de carreira com o concerto Trinta canções brasileiras, em 24 de julho. Já o Festival Sala Contemporânea, em junho, apresentará música de compositores da atualidade –, incluindo a estreia de uma obra encomendada à espanhola Zulema de la Cruz –, com um repertório mais amplo do que a Bienal de Música Contemporânea Brasileira.

Para Ripper, a proposta de festivais tem como objetivo criar eventos que dialoguem entre si e, ao mesmo tempo, promovam a frequência do público na SCM em vários dias: “Nossa ideia é ter um tipo de Rock in Rio na Cecília Meireles, trazendo as pessoas dois, três dias seguidos à nossa Sala.”

Fidelização do público

Para o gestor, a temporada de 2019 foi eclética, com variados estilos, mas isso não foi bom para a Sala. “Por isso pensamos em festivais, ciclos”, afirmou. Outra iniciativa para atrair e fidelizar o público é alterar o horário do início dos concertos para as 19h nos dias de semana e sábados no ano que vem (este ano, as atrações começaram às 20h) – tanto para conquistar quem sai do expediente no Centro da cidade, como para aqueles que não querem sair da Sala por volta das 22h. Aos domingos, as programações começam às 17h.

Além disso, o Espaço Guiomar Novaes, anexo à Sala, receberá os artistas para um bate-papo com o público 1h antes do concerto e a venda de assinaturas para o Festival Beethoven 250, prevista para começar no início do ano.

André Cardoso

Programações educativas também serão agendadas para trazer mais público à Sala e, mais amplamente, falar de música. Em 24, 25 e 26 de agosto, o maestro André Cardoso coordenará um curso aberto A música brasileira da Belle Époque carioca, no Espaço Guiomar Novaes, simultaneamente ao festival homônimo. A reforma da Sala Cecília Meireles (2010-2014) será tema de um simpósio na segunda quinzena de julho, por ocasião do 27º Congresso Mundial de Arquitetos, que tornará o Rio de Janeiro a capital mundial da Arquitetura em 2020.

Terá início também no próximo ano um projeto arrojado: o Programa de Formação de Gestores de Salas de Concerto. “Sempre senti falta de uma iniciativa voltada à transmissão de conhecimentos”, disse Ripper. Durante quatro meses, estudantes da Escola de Música Villa-Lobos, Escola de Música da UFRJ e Instituto Villa-Lobos da UniRio se debruçarão sobre temas como organização de repertório, editais de financiamento, estratégias de comunicação e gestão financeira para elaborar projetos musicais, que serão levados ao palco na SCM nos dois semestres do ano.

A Sala Cecília Meireles reabrirá suas portas para o público – novo ou velho – em 5 de março, Dia Nacional da Música Clássica e dia do nascimento de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Na data, a Orquestra Sinfônica da UFRJ tocará obras de Alberto Nepomuceno e de Ernani Aguiar, compositor brasileiro que celebrará seus 70 anos em 2020.

As expectativas são altas – para o ano que vem e os que se seguem. O projeto de renascimento parece ser de longo prazo. “Para 2021, esperamos poder criar uma temporada mais robusta, também com óperas de câmara e mais música contemporânea”, sonha Ripper. Que o centenário prédio veja, mais uma vez, os sonhos transformarem-se em música.

A programação completa de 2020 está disponível no site da Sala Cecília Meireles.

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com