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Uma louca e tripla jornada por Mozart, Berlioz e Puccini

Em dois dias, analista do www.movimento.com confere As Bodas de Fígaro no Theatro São Pedro; A Danação de Fausto na Sala São Paulo; e Tosca no Theatro Municipal.

 

Prólogo

A viagem do Rio a São Paulo para passar o fim de semana já estava marcada há quase um ano pela estreia de Tosca no Theatro Municipal. A possibilidade de encaixar uma récita de As Bodas de Fígaro Order , em cartaz no mesmo período no Theatro São Pedro, e um concerto da OSESP na Sala São Paulo – este com um Berlioz raríssimo por aqui – se apresentou mais ou menos na mesma época.

A oportunidade era única de aproveitar um mesmo fim de semana na capital brasileira da música clássica e lírica para apreciar três obras de arte de altíssimo nível. E, claro, uma chance como essa não se desperdiça. Depois de chegar a São Paulo na noite de quinta-feira, dia 27, minha jornada tripla teve início na noite seguinte. Passo, portanto, a relatar o resultado desta folle journée particular.


Primeira parte: noite de sexta-feira, 28 de novembro

Le Nozze di Figaro (As Bodas de Fígaro), ópera-bufa em quatro atos de Wolfgang Amadeus Mozart sobre Libreto de Lorenzo da Ponte, com base na comédia La Folle Journée, ou Le Mariage de Figaro, de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, é o título responsável por encerrar a interessante e elogiada temporada lírica 2014 do Theatro São Pedro.

A trama das Bodas trata das peripécias e reviravoltas ocorridas no dia exato do casamento de Figaro e Susanna. O Conde de Almaviva quer fazer valer, por baixo dos panos, o seu direito de senhor, ou seja, o direito de desfrutar da primeira noite das noivas de seu feudo – direito este que, publicamente, ele havia abolido. Figaro, Susanna e a Condessa (a Rosina de O Barbeiro de Sevilha, aqui em versão mais madura) tramam para evitar que os planos do Conde se concretizem, tudo com a ajuda de um adolescente, Cherubino, que está descobrindo o amor e o desejo. No final, como quase sempre ocorre nas comédias, tudo acaba bem.

A diretora Lívia Sabag, uma vez mais, acerta na mosca em sua concepção, ao apostar em uma encenação tradicional e bastante movimentada. Lívia aposta também em uma aproximação maior entre a Condessa e Cherubino e acrescenta, com isso, uma deliciosa pitada de sal à sua visão das Pills Bodas. Sob sua sempre meticulosa direção, todos os cantores/atores atingem excelentes desempenhos cênicos.

Os belos cenários e excelentes cenários de Nicolás Boni ambientarem muito bem as cenas da ópera e se alternam com eficiência ao longo da trama, aproveitando ao máximo a capacidade técnica do teatro. Os belos, adequados e bem executados figurinos de Fábio Namatame e a correta luz de Wagner Pinto complementam com eficiência e qualidade esta belíssima produção.

Na récita do dia 28, o Pills Coral Vozes Paulistanas, preparado por Nibaldo Araneda, teve desempenho correto. A Orquestra do Theatro São Pedro esteve muito bem sobre a regência segura e inspirada de Luiz Fernando Malheiro. Em um país em que muitas orquestras mais antigas e experientes costumam pisar em ovos ao interpretar Mozart, a ORTHESP, ainda que tenha lhe faltado aqui ou ali maior refinamento, deu boa conta do desafio.

Em uma ópera que exige onze solistas, um elenco forte e equilibrado foi mais um dentre os vários pontos altos desta produção do São Pedro. O barítono Eduardo Fujita (Antonio) e a soprano Aymée Wentz (Barbarina) estiveram bem. O tenor Daniel Umbelino foi um impagável Don Curzio, enquanto outro tenor, Giovanni Tristacci, compôs um muito bom Don Basilio. A mezzosoprano Caroline Jadach, também muito bem como Marcellina, demonstrou uma potência vocal que, se bem controlada, poderá render bons frutos no futuro.

O baixo Sávio Sperandio cumpriu com a qualidade de sempre a tarefa de viver Don Bartolo, e interpretou uma perfeita La vendetta. O barítono Homero Velho foi um corretíssimo e desenvolto Conde de Almaviva, e soube aproveitar bem as cenas e os números de conjunto dos quais participou. A soprano Rosana Lamosa viveu uma belíssima Condessa, cantando com sentimento suas árias: Porgi amor e Dove sono i bei momenti.

E, nesta montagem de ótimos destaques, chegamos aos principais dentre eles. A mezzosoprano Luísa Francesconi foi um perfeito Cherubino, vocal e cenicamente, que conquistou o público em todas as suas intervenções e, especialmente, em suas árias: Non so più cosa son, cosa faccio e Voi che sapete. A soprano Carla Cottini mostrou-se uma revelação como a noiva de Figaro. Dona de uma voz leve e pautada em boa técnica, viveu uma deliciosa e encantadora Susanna, participando bem dos números de conjunto e cantando lindamente sua ária do último ato, Deh vieni, non tardar. A conferir, futuramente, a qualidade de sua projeção em um teatro que possua uma acústica menos amigável que a do São Pedro.

E, para fechar com chave de ouro, o barítono Rodrigo Esteves foi um Figaro impecável e desenvolto, verdadeiramente brilhante, tanto vocal quanto cenicamente. Seria redundante elencar aqui todas as qualidades do artista, por mim já observadas em tantas outras ocasiões. Basta dizer que, depois cantar com extrema perfeição árias como Non più andrai e Aprite un po’ quegl’occhi, além dos vários números de conjunto, Esteves foi, com justiça, ovacionado pelo público que lotou a casa da Barra Funda.

Concluo a primeira parte desta jornada tripla constatando que o Theatro São Pedro, apesar de ser apenas o segundo teatro de ópera de São Paulo, dá verdadeira aula de programação a teatros líricos de cidades como Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. A temporada 2015 do São Pedro, a primeira concebida por Luiz Fernando Malheiro, já foi divulgada (confira aqui Purchase allopurinol generic brand ) e tem assinaturas à venda: um exemplo para teatrinhos de aluguel, como o Municipal do Rio. Bodas no Monastério, por exemplo, já está na minha agenda para 2015.

 

Segunda parte: tarde de sábado, 29 de novembro

La Damnation de Faust (A Danação de Fausto), lenda dramática em quatro partes e epílogo de Hector Berlioz, sobre libreto do próprio compositor e de Almire Gandonnière, com base na primeira parte do poema trágico Faust, de Johann Wolfgang von Goethe (tema já abordado nesta temporada em Belém, com a ópera Mefistofele, de Boito), foi a obra escolhida para encerrar neste ano as séries Cedro, Araucária e Mogno da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Berlioz, gênio francês incompreendido e que só foi valorizado muitos anos depois de sua morte, havia escrito na juventude (1828/29) uma obra chamada Oito Cenas de Fausto. Anos mais tarde (entre 1845/46), quando escreveu A Danação de Fausto, o compositor reaproveitou toda a obra anterior e a complementou escrevendo uma nova introdução, material transicional e um novo encerramento, além de rever a orquestração.

A visão definitiva de Berlioz sob o mito de Fausto é uma obra-prima, na qual o compositor, bem a seu modo, toma consideráveis liberdades em relação ao original, inclusive mandando o protagonista para o inferno – o que não ocorre em Goethe. A música é riquíssima, com o uso inteligente de leitmotive e uma orquestração refinada, e, certamente, exige maior esforço do ouvinte para ser devidamente apreciada.

No concerto do dia 29, a OSESP, exceto por um ou outro escorregão nas trompas, ofereceu uma excelente e tocante performance sob a precisa condução de Richard Armstrong. Momentos como a célebre Marcha Húngara ou o acompanhamento dos dois grandes solos de Marguerite parecem ter sido burilados à perfeição pelo regente e pelos músicos. Os solistas do conjunto estiveram em geral muito bem, mas quem conquistou os meus ouvidos foi a violista solista – um primor!

Os quatro conjuntos corais que participaram do concerto também estiveram muito bem, e contribuíram para o ótimo resultado final: Coro da OSESP, preparado por Naomi Munakata; Coro Acadêmico da OSESP (Marcos Thadeu Order ); Coro Juvenil da OSESP (Paulo Celso Moura); e Coro Infantil da OSESP (Teruo Yoshida).

O baixo-barítono Francisco Meira não comprometeu, enquanto o barítono dinamarquês Morten Frank Larsen deu boa conta da parte de Méphistophélès, a mais interessante e sofisticada da partitura. Muito boa foi sua interpretação da canção Une puce gentille. A mezzosoprano inglesa Jane Irwin interpretou uma sensível Marguerite, e encantou o público com seus dois solos: Autrefois un roi de Thulé e D’amour l’ardente flamme, demonstrando, sobretudo, riqueza de fraseado.

A grande atração da tarde, porém, foi o tenor norte-americano Michael Spyres, que foi um excelente Faust. Durante todo o concerto, Spyres esteve impecável, demonstrando técnica segura, ótima projeção e um belo timbre. Soube valorizar passagens como o monólogo que abre a segunda parte, Sans regrets j’ai quitté; sua ária da terceira parte, Merci, doux crépuscule!; o lindo dueto com Marguerite, Ange adore dont la celeste image, também da terceira parte; e a invocação à natureza, Nature immense, da quarta parte.

Bastante satisfeito diante da bela interpretação que acabara de testemunhar de uma obra raríssima em terras brasileiras, o relógio marcava 19:20h quando saí da Sala São Paulo. Tempo suficiente para chegar ao Municipal.

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Terceira parte: noite do mesmo sábado

Cena de Tosca no Municipal SP
Cena de Tosca no Municipal SP

cipro from usa next day air Tosca, ópera em três atos de Giacomo Puccini sobre libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, com base no drama homônimo de Victorien Sardou, foi o título escolhido por John Neschling para encerrar a temporada lírica 2014 do Theatro Municipal de São Paulo. O resumo da trama pode ser consultado aqui.

Esta obra-prima de Puccini é muito eficiente dramaticamente, embora seja perceptível uma queda na intensidade do drama na passagem do segundo ato para o terceiro – uma redução até certo ponto natural, pois seria muito difícil manter tão elevada a tensão depois de um ato de ópera soberbo como o segundo, com torturas física e psicológica, demonstração de crueldade extrema, desejos lascivos, preferências políticas etc… etc…

A música de Puccini é magistral, e o mestre já abre a ópera com os acordes do violento tema de Scarpia. As melodias características do compositor, o precioso colorido orquestral, o solo de clarinete precedendo a grande ária do tenor no último ato, tudo contribui para a eternidade desta que é, atualmente, a quinta ópera mais representada do planeta.

A equipe de criação responsável por esta Tosca, toda ela italiana, é a mesma que, em 2013, abriu a temporada lírica oficial do Municipal paulistano com Aida – para mim, a grande produção do ano em todo o país. Desta vez, porém, a encenação de Marco Gandini não será unanimidade. Ao optar por transportar a ação para a década de 70 do século XX, ele pouco ou nada acrescenta à obra. O espectador que ouve falar mais de uma vez em Napoleão, por exemplo, precisa de grande esforço para abstrair tal informação.

Já o trabalho de direção de Gandini é, em geral, de muito bom nível, especialmente aquele desenvolvido com o vilão. Mas há, aqui também, uma exceção: o diretor exagera na caracterização um tanto caricata da protagonista. Para isso, é auxiliado pelos figurinos extravagantes que ela usa no terceiro e, especialmente, no primeiro ato. Exceto pelos figurinos de Floria Tosca, Simona Morresi executa um trabalho de qualidade, mas que se perde junto com a concepção de Gandini.

O mesmo entendimento vale para os belíssimos cenários de Ítalo Grassi, que, além de muito bonitos, são engenhosos, mas não é só estética e engenhosidade que estão em avaliação aqui. A arte e a capacidade deste excelente cenógrafo acabam ficando em segundo plano, ofuscadas pela concepção um tanto equivocada do diretor. A luz de Virginio Levrio também não foge à regra e, pelo menos na noite de estreia, ainda enfrentou dois momentos de mudança brusca e estranha, no primeiro e no segundo atos.

Não foi à toa que, ao final do espetáculo, a equipe de criação foi vaiada por parte do público quando subiu ao palco. No mínimo, um sinal de que uma parcela do público paulistano está ficando mais exigente.

Se, cenicamente, esta Tosca certamente dividirá opiniões, musicalmente o nível foi elevado. Na estreia do dia 29, a Orquestra Sinfônica Municipal, uma vez mais, esteve muito bem sob a inspirada regência do suíço Oleg Caetani. O conjunto, que já teve grandes momentos nesta temporada, desta vez tinha uma prova de fogo no início do terceiro ato e passou no teste, com correção e sem sobressaltos. O regente recebeu o carinho dos músicos quando subiu ao palco para agradecer os aplausos.

O Coro Lírico Municipal de São Paulo (Bruno Facio) e o Coral da Gente (Silmara Drezza) deram muito boa conta do seu grande momento, o Te Deum que encerra o primeiro ato. Marivone Caetano (Pastor), Sérgio Righini (Carcereiro), Guilherme Rosa (Sciarrone) e Luca Casalin (Spoleta) estiveram bem em suas respectivas partes. O baixo italiano Massimiliano Catellani foi um convincente Angelotti, com voz muito bem projetada. Outro baixo, Saulo Javan viveu com a competência de sempre seu já conhecido Sacristão.

O barítono Roberto Frontali compôs um ótimo e cruel Scarpia, de voz firme e decidida. Nos dois primeiros atos, dominou o palco. O tenor argentino Marcelo Alvarez, que havia cantado no aniversário de 100 anos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ao ar livre e com amplificação, confirmou a fama de grande tenor, exibindo belo timbre, excelente projeção, equilíbrio de emissão em todas as regiões de seu registro e agudos generosos. Pena que parte do público aplaudiu suas duas árias (Recondita Armonia e E lucevan le stelle) antes da hora – na primeira delas, a propósito, o artista ainda estava cantando… No mínimo, um sinal de que uma parcela do público paulistano precisa segurar a ansiedade e esperar a hora certa de aplaudir.

Por fim, a soprano espanhola Ainhoa Arteta, em que pese ter sido muito mal instruída pela direção, apresentou um desempenho vocal bastante eficiente e equilibrado. Sua Vissi d’arte não chegou a me empolgar, mas, no geral, sua voz correu muito bem pelas exigências da partitura. Teremos nova chance de ouvi-la em 2015, no Eugene Onegin.

Com esta Tosca em cartaz até o dia 13 de dezembro, o Theatro Municipal de São Paulo conclui sua ótima temporada lírica 2014. A temporada 2015 da casa promete ser ainda melhor, e já se apresenta como a mais bem elaborada por John Neschling em sua gestão à frente do principal teatro de ópera do país.

 

Epílogo

Tarde de domingo, dia 30. Voando de volta para o Rio, lembro que é dia de estreia de Madama Butterfly naquele certo teatrinho de aluguel… Bem, o teatrinho que espere!

Foto do post (de Décio Figueiredo): Carla Cottini e Rodrigo Esteves

Foto menor (de Desiree Furoni): Roberto Frontali e Ainhoa Arteta no segundo ato (o único ato em que a soprano vestiu um figurino aceitável)