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Uma grande cantora passou pelo Rio

Soprano norte-americana Lisette Oropesa fez excelente apresentação no TMRJ.

 

Depois dos tenores, as sopranos. Se a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro”, invertendo a etiqueta, estabeleceu que os homens viriam antes das mulheres (certamente por questões de agenda), valeu muito a pena esperar pela primeira voz feminina que se apresentou no projeto estreado neste ano no Theatro Municipal do Rio Janeiro.

Na tarde do último domingo, 13 de outubro, foi a vez de a soprano lírico-coloratura norte-americana Lisette Oropesa oferecer a sua arte ao público carioca, acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência do israelense Yuval Zorn. O programa oficial do concerto previa apenas seis árias, algumas acompanhadas de recitativo e/ou cabaletta. Se, em termos quantitativos, a parte do programa dedicada à soprano poderia parecer pequena à primeira vista, as peças escolhidas continham uma razoável gama de exigências.

Quando adentrou o palco pela primeira vez, para interpretar a ária Regnava nel silenzio, seguida da cabaletta Quanto rapito in estasi, da ópera Lucia di Lammermoor, de Gaetano Donizetti, Lisette Oropesa exibiu algumas das qualidades que se fariam presentes durante todo o concerto, a começar pela afinação invejável e pela sua inteligência musical. Se não chegou a ser exatamente uma abordagem perfeita, a passagem seguinte, que incluiu a cena Allons!… il le faut pour lui-même… e a ária Adieu, notre petite table, da Manon, de Jules Massenet, deixou transparecer uma intérprete intensa, flamejante e com uma presença que começaria a conquistar o público.

Na sequência que encerrou a primeira parte do concerto, a entrada de Amina na ópera La Sonnanbula, de Vincenzo Bellini, a soprano abordou a cavatina Come per me sereno com extrema delicadeza, para, logo depois, na cabaletta Sovra il sen la man mi posa, exibir uma técnica refinada e irrepreensível.

 

Juliette e Musetta no bis

Quem assistiu recentemente, no próprio Theatro Municipal do Rio de Janeiro, à montagem da ópera Faust, de Charles Gounod, pode ter sentido falta de uma interpretação à altura da ária das joias (Ah! Je ris de me voir), apesar do bom desempenho geral da soprano que interpretou Marguerite nas primeiras récitas da produção (este autor não pôde conferir, na ocasião, a outra intérprete que assumiu a parte nas últimas funções).

Foi exatamente com essa ária do terceiro ato de Faust que Lisette Oropesa retornou ao palco depois do intervalo, interpretando-a com a precisão estilística que faltou durante a referida montagem apresentada no Rio. A próxima ária, Chi il bel sogno di Doretta, de La Rondine, de Giacomo Puccini, embora interpretada pela soprano com os mesmos predicados já mencionados nesta resenha, careceu, pelo menos para o gosto deste autor, de um pouquinho mais de peso. Só um pouquinho.

O melhor da noite ainda estava por vir, e a sequência que encerrou o programa oficial, com a ária Qui la voce e a cabaletta Vien diletto, do segundo ato da ópera I Puritani, de Bellini, recebeu de Oropesa uma interpretação arrebatadora: se a ária foi extremamente musical, a cabaletta foi de arrepiar, com uma demonstração exuberante de agilidade e domínio técnico. Era evidente que estávamos todos diante de uma grande cantora.

Bastante aplaudida ao fim do concerto, a soprano retornaria ao palco para oferecer dois números extras: o primeiro foi a ária Je veux vivre, da ópera Roméo et Juliette, de Gounod, e o segundo, a chamada “Valsa de Musetta” (Quando men vo), da La Bohème, de Puccini. Nessas duas peças, em que cada personagem (Juliette e Musetta) expressa à sua maneira a sua juventude e o seu modo de encarar a vida, Oropesa, mais solta, encantou o público com presença de palco e desenvoltura.

 

Orquestra tem tarde irregular e homenagem

Acompanhando a soprano, a Sinfônica do Theatro Municipal apresentou uma performance razoável, mas alguns dos números sinfônicos oferecidos deixaram o conjunto exposto. A verdadeira joia que é a abertura da ópera Guillaume Tell, de Rossini, resume bem a questão: o solo de violoncelo do primeiro movimento apresentou problemas de acabamento, sobretudo no arremate das frases musicais; e no segundo e no quarto movimentos (este a fanfarra final que anima até velório) os desencontros marcados pelas costumeiras falhas de articulação do grupo se mostraram evidentes. O solo de corne inglês, na terceira seção da peça, desenvolveu-se de forma mais segura.

Da ópera Thaïs, de Massenet, a OSTM interpretou a Méditation (Meditação), que é um interlúdio tocado entre as duas cenas do segundo ato da obra. Aqui, a orquestra apresentou-se um pouco melhor que na peça de Rossini, mas o solo de violino do spalla Carlos Mendes também deixou transparecer problemas de acabamento. Já o prelúdio do terceiro de ato da Carmen, de Bizet, foi mais consistente, com destaque para o belo e musical trabalho do flautista.

A abertura do Faust, de Gounod, pareceu-me mais bem interpretada agora do que nas duas récitas da ópera que conferi em julho. E o Noturno da ópera Côndor, de Carlos Gomes, era a peça sinfônica que vinha recebendo a melhor interpretação de todo o concerto, até o ponto em que os metais (e especialmente as trompas) comprometeram o trabalho do restante da orquestra.

No fim, fiquei com a sensação de que faltou um regente mais experiente para corrigir, ainda nos ensaios, os deslizes do conjunto – sensação essa reforçada pela lembrança da performance dos músicos da OSTM durante o concerto anterior da série (aquele com o tenor Michael Fabiano), que foi bem mais satisfatória.

Vale registrar que, na volta do intervalo, o presidente do Theatro Municipal, Aldo Mussi, e a Chefe da Divisão de Música da casa, Antonella Pareschi, subiram ao palco para prestar uma rápida e justa homenagem ao contrabaixista Ricardo Cândido, que estava tocando naquela tarde e está se aposentando após 39 anos de casa.

 

Conclusão da primeira temporada

Apesar dos apontamentos acima em relação à performance da OSTM, é inevitável concluir que a série “Grandes Vozes no Rio de Janeiro” vem desde o começo em um verdadeiro crescendo: o segundo concerto, de Michael Fabiano, foi muito melhor que o primeiro, de Vittorio Grigolo. E, agora, o de Lisette Oropesa, pelo menos em termos vocais, conseguiu superar aquele de Fabiano.

Resta a dúvida: será que o concerto com a soprano russa Hibla Gerzmava, que encerrará o primeiro ano da série, manterá o citado crescendo e superará (ou pelo menos igualará) a apresentação de Lisette Oropesa? A conferir no dia 15 de novembro.

 

Fotos: Christian Costa/Grandes Vozes.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com