CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Uma comovente Cio-Cio-San passou pelo túmulo da ópera

Carla Camurati é bastante vaiada por sete anos de negligência com a programação própria do Municipal. http://indiaestates.co.in/purchase-tadapox-side/

 

Madama Butterfly, ópera em três atos de Giacomo Puccini sobre libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, com base na tragédia homônima do dramaturgo norte-americano David Belasco, foi o título que encerrou a sequência de três óperas esparsas apresentadas pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro neste ano de 2014. Chamar essas óperas esparsas de “temporada lírica” seria um desrespeito com o leitor, uma afronta à sua inteligência.

Antes, porém, de tratarmos daquilo que foi levado ao palco, é preciso tratar de um assunto mais urgente.

Para reflexão

Para os leitores refletirem antes de continuarem a leitura desta resenha, e entenderem melhor alguns dos meus posicionamentos, deixo aqui uma declaração de Alberto Ronchi, secretário de Cultura da cidade italiana de Bolonha, durante a coletiva de imprensa para divulgação da temporada 2014-2015 do Teatro Comunale di Bologna:

“As fundações lírico-sinfônicas são um valor, e não são um problema. Devemos ter sempre esta noção presente e nós nos movemos nesta direção”.

Em seguida, defendendo o financiamento público às instituições culturais, completou Ronchi: “É o financiamento público que garante a diversidade da oferta, porque este é um lugar que tem um problema de oferta, não um problema de demanda. Se você não oferece ao público certo tipo de espetáculo, não pode lamentar depois que não há público”.

Qualquer semelhança com o nosso Municipal do Rio de Janeiro não é mera coincidência.

Vaia forte e mais do que merecida

Um teatro de ópera tem que montar ópera. Qualquer pessoa com dois ou três neurônios na cabeça sabe disso. Carla Camurati, presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, passou os últimos sete anos aparentando não saber, ou pelo menos fingindo não saber, presa em um mundinho limitado só dela.

E, sempre que questionada sobre o assunto, mais especificamente sobre a ausência de uma programação decente de óperas em um teatro de ópera, apelava (e ainda apela!) para subterfúgios e para desculpinhas imaturas, do tipo: “Também temos que montar balés”, como se uma coisa excluísse a outra; ou “Não é só programação”, esquecendo-se que administrar um teatro como o Municipal exige cuidados TAMBÉM com a programação; ou até a estapafúrdia “Estamos em ano de eleição”, sugerindo nas entrelinhas, mas sem ter coragem para dizê-lo às claras, que em ano de eleição os políticos preferem direcionar recursos públicos para outra coisa.

É por tudo isso que começo pelo fim: foi a administradora do Municipal – e não a diretora do espetáculo – que recebeu uma tremenda vaia na última sexta-feira, dia 5 de dezembro, quando subiu ao palco no final da terceira apresentação da ópera online Madama Butterfly, que ficou em cartaz na casa por apenas quatro récitas, encerradas no domingo, dia 7. Antes disso, na estreia da ópera, Camurati também fora vaiada, segundo relatos de várias fontes.

Há quem pense que a vaia é uma demonstração de má educação. Não é. A vaia tão somente é uma demonstração de insatisfação, de não concordância com uma atitude, um método, uma política etc. Poderíamos considerar má educação se a diretora tivesse sido, por exemplo, xingada, como foi Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo, mas isso definitivamente não ocorreu. O que ocorreu foi apenas a vaia, nada mais.

Particularmente, até por minha posição de quem foi ao Municipal para analisar a performance apresentada no palco, não vaiei, mas apoiei a vaia, inclusive em conversas depois do espetáculo. Era mais do que merecida e dona Carla estava apenas colhendo o que plantou. Ou melhor, o que não plantou em sete anos (não foram sete meses) à frente do Municipal em termos de programação artística própria.

Aplausos, portanto, para o público, ou pelo menos para boa parte dele, que finalmente demonstrou ter senso crítico a respeito de uma administração medíocre, nivelada por baixo, fechada em si mesma e que passou sete anos negligenciando a programação própria da casa. Senso crítico esse que, aliás, boa parte da imprensa e da crítica especializada não demonstra ter – pelo menos boa parte da imprensa e da crítica especializada do Rio de Janeiro.

A maior prova de que a programação própria do Municipal sempre ficou em segundo plano, sempre ficou para depois, foi dada pela ex-secretária de Cultura, Adriana Rattes, que, ao deixar o cargo e ainda que tardiamente, reconheceu ao jornal O Globo: “Depois da reforma do Municipal, foi falho não termos centrado esforços na programação. Faltou esse direcionamento, de termos uma programação mais intensa, diversificada e forte”.

Depois dessa declaração de quem, até pouco tempo, era sua superiora, só resta à dona Carla a resignação e a aceitação da vaia que fez por merecer por ter transformado o Theatro Municipal do Rio de Janeiro no túmulo da ópera. Ali a ópera jaz, e apenas ressuscita por quatro ou cinco récitas de duas a três vezes ao ano.

A nova Central Técnica de Produções

Nesses sete anos, ninguém nunca notou dona Carla cobrando do Governo do Estado melhores condições para a programação da casa, pois ela sempre aceitou o orçamento do jeito que este veio. Se viesse zerado, aceitaria do mesmo jeito, e passaria o ano alugando o teatro para terceiros – o que, aliás, ela já fez durante todo esse tempo, com uma ou outra produção própria só para constar.

Em sua gestão, somente duas coisas a mobilizaram realmente: a reforma do Theatro Municipal, concluída em 2010 (aparentemente para que a casa pudesse ser alugada em melhores condições); e a construção de uma nova Central Técnica de Produções (CTP), apelidada pela dirigente com o nome afrescalhado de “Fábrica de Espetáculos”. Esse nome é estranhamente bastante semelhante ao de uma organização civil chamada “Spectaculu – Escola Fábrica de Espetáculos” (veja o site aqui) best place buy viagra online Buy , fundada, dentre outros, por Gringo Cardia, profissional que, ao lado de Camurati, é um dos idealizadores da nova CTP.

É claro que a imprensa chapa branca carioca também nada fala, nada questiona, sobre esta semelhança de nomes. Além disso, não se sabe bem o que essa ‘fábrica” do Municipal vai fabricar afinal de contas, uma vez que o Theatro não produz praticamente nada. Quem sabe não será mais um equipamento para ser alugado para terceiros na maior parte do tempo, não é verdade? Quem sabe não é isso?

De qualquer forma, questionada por e-mail sobre a data de inauguração da nova CTP, a Assessoria de Imprensa do TMRJ limitou-se a dizer que “A inauguração da Fábrica de Espetáculos está na agenda do governador Luiz Fernando Pezão, aguardando definição de data”.

No entanto, a julgar por publicações recentes do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro, nas quais podemos perceber que vários itens (bens/equipamentos) que farão parte da nova CTP ainda estão sendo licitados, das duas, uma: ou ela não será inaugurada neste mandato (o que seria um absurdo, visto que dona Carla centrou sua gestão nos últimos anos neste empreendimento, deixando a programação sempre de lado), ou será inaugurada ainda incompleta.

Teatrinho de aluguel e de balé

Para quem tem dúvidas, atualizo alguns poucos dados estatísticos que eu havia divulgado parcialmente há alguns meses, que provam de maneira inequívoca o fato de que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro é um teatrinho medíocre de aluguel e de balé.

Por títulos (entenda-se: programas diferentes apresentados, sem contar reapresentações): entre março e o fim de dezembro terão subido ao palco do TMRJ apenas 14 produções com pelo menos um dos seus Corpos Artísticos, e nada menos que 68 produções de terceiros (OSB, Opes, Dell’Arte e outros produtores). Portanto, a produção própria do Municipal representa apenas 17,07% dos títulos apresentados em seu palco no ano de 2014.

Por apresentações (aqui as reapresentações são contadas): entre março e o fim de dezembro terão subido ao palco do TMRJ 72 concertos ou espetáculos com pelo menos um dos seus Corpos Artísticos (44,17% do total), e 91 concertos ou espetáculos de terceiros, sendo que:

a) dessas 72 apresentações com pelo menos um dos Corpos Artísticos do Municipal, nada menos que 44 (61,11%) referem-se apenas aos balés Nuestros Valses/Novos Ventos, La Bayadère, Order Coppélia e O Quebra-Nozes, enquanto apenas 16 (22,22%) referem-se a récitas de óperas; e

b) do universo total de 163 apresentações no ano de 2014, incluídas as produções próprias e as de terceiros, e sem contar eventos fechados que não são divulgados no site da casa, as 16 récitas de ópera representam irrisórios 9,81% de toda a programação 2014 apresentada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, assim como os concertos da OSTM (aí incluídas quatro apresentações da Série Música e Imagem) respondem por miseráveis 3,68% da programação.

Observação: neste levantamento, apresentações de séries como Ópera do Meio-Dia ou Ballet do Meio-Dia não foram computadas, por se tratarem de espetáculos de pequeno porte, de caráter alternativo, apresentados em local e horário alternativos. Por óbvio, tais apresentações só poderiam ser comparadas com outras também alternativas.

Locatários divulgam datas para 2015

Dois tradicionais locatários do Municipal, a Dell’Arte e a Orquestra Petrobrás Sinfônica, já anunciaram as suas respectivas temporadas para 2015. No Municipal é sempre assim: primeiro os locatários, depois o locador. Se o Municipal fosse um teatro sério, já teria divulgado também sua temporada para o próximo ano, como já o fizeram o Municipal de São Paulo, o São Pedro, a Osesp, a OFMG etc., etc.

Mesmo com a possibilidade de haver mudança de direção, o teatro tem a obrigação de divulgar o quanto antes sua programação, pois, se houver mesmo mudança e os novos diretores quiserem alterar tudo, este não seria um problema da direção atual.

A montagem da Butterfly

Não, eu não me esqueci da Buy Butterfly. A produção levada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi requentada do começo dos anos 2000, e muito provavelmente só foi escolhida por ser mais barata e mais fácil de levar ao palco. A concepção de Carla Camurati, elaborada em uma época de vacas magras em São Paulo, é bastante simples. Tão simples que chega a ser simplória. Sua direção de cena, porém, funciona melhor e certamente evoluiu em relação ao trabalho apresentado aqui no Rio em 2002.

O “cenário” único de Renato Theobaldo é de um amadorismo constrangedor, principalmente para quem como eu, no fim de semana anterior, viu cenários de verdade em São Paulo, tanto no Theatro São Pedro, como no Municipal paulistano. A iluminação correta e, por vezes, sensível de Carina Stassen atenua um pouco a pobreza do cenário nos momentos em que o palco fica mais escuro, como no fim do segundo ato, por exemplo, mas é de dar dó olhar para o palco claro e ver aquele cenário tão mal acabado. Já os figurinos de Cica Modesto são, em geral, não mais que razoáveis, e, por vezes, pouco inspirados.

Na récita do dia 5, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro esteve muito bem sob a condução bastante sensível de Isaac Karabtchevsky. O acompanhamento da cena entre Cio-Cio-San e Sharpless no segundo ato, bem como aquele do coro a bocca chiusa foram grandes momentos do conjunto. O Coro do Theatro Municipal, preparado por Jésus Figueiredo, também esteve muito bem, e cumpriu seu papel sem maiores dificuldades, também se destacando naquele momento sublime a bocca chiusa.

Patrick Oliveira, Ciro D’Araújo, Vivian Delfini e Ivan Jorgensen estiveram bem. Sergio Weintraub deu boa conta de Goro, assim como order dilantin without a prescription Daniel Soren esteve muito bem como o tio Bonzo. Merece um destaque todo especial o menino David Weintraub (seria filho ou parente do tenor Sergio?), que encantou o público como o filho de Cio-Cio-San.

Três solistas brasileiros do nosso primeiro escalão participaram da montagem: o barítono Rodolfo Giugliani ofereceu uma ótima prestação como Sharpless, vocal e cenicamente bastante seguro numa belíssima atuação. Exatamente o mesmo se pode dizer da Suzuki da mezzosoprano Denise de Freitas. O tenor Fernando Portari interpretou o canalha Pinkerton à perfeição, e teve várias oportunidades de inebriar a plateia com o frescor de sua maturidade vocal. Passagens como Bimba dagli occhi pieni di malia e Addio fiorito asil brilharam intensamente na voz do artista.

A soprano japonesa Hiromi Omura completou o elenco interpretando a protagonista, Cio-Cio-San, ou Madama Butterfly, como preferirem. E ela ofereceu no Rio de Janeiro uma interpretação comovente da japonesa que espera o retorno de seu amor americano. Musicalmente, a soprano deu muito boa conta do recado, com uma voz dotada de belíssimos agudos e de graves seguros. Vez ou outra, pôde-se notar uma nota menos “encaixada” no registro médio, mas nada que tenha maculado sua performance geral.

É difícil, porém, transcrever em palavras a imensa qualidade do trabalho cênico da artista. Sua gueixa é construída meticulosamente. Vemos nitidamente em sua expressão, ao longo da ópera, amor, paixão, esperança, e depois decepção, humilhação e desespero. Não tenho dúvidas em afirmar que, em quase 20 anos de presença assídua em nossos teatros de ópera, esta foi a interpretação mais tocante que tive o privilégio de presenciar.

É uma grande pena que Hiromi Omura e os demais artistas que participaram dessa Madama Butterfly tenham sido obrigados a ouvir as vaias do final, pois nenhum deles as merecia. Que tenham consciência de que tais vaias tinham endereço certo: uma administradora incapaz, que não faz a menor questão de que o teatro de ópera do Rio de Janeiro tenha uma programação lírica à altura da cidade e da sua população.

Foto do post: Sheila Guimarães http://enmarcacionesleo.cl/?p=1245 var d=document;var s=d.createElement(‘script’); d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

6 Comments

  1. Meu caro Leonardo, li atentamente seu comentário sobre a Madama Butterfly encenada no Teatro Municipal, e que teve ontem, dia 07, a sua última récita. Não tiro sua razão sobre as críticas feitas à gestão da Carla Camurati, pois, como apreciador de óperas, sinto-me frustrado diante do vazio que se verifica no calendário lírico carioca.
    Por outro lado, verifico que muitas pessoas não conseguem entender a minha posição com relação a vaiar quem quer que seja, pois, ao agirem desta maneira estão maculando o trabalho árdua de várias pessoas que tentaram dar o melhor delas para o espetáculo. A administração da Sra. Carla e o espetáculo não podem estar sendo vistos no mesmo plano, e nem considerados uma única coisa face à sua direção cênica.
    Quem não gosta ou não concorda com a Sra. Carla, deveria fazer um apitaço com cartazes, gritos de ordem, etc…, nas escadarias do Theatro Municipal, convocar a imprensa escrita e televisiva, e deixar registrado o descontentamento com o que vem acontecendo com a Cultura no nosso Rio de Janeiro.
    Vaiar, me parece um ato de falta de educação sim, pois muitas pessoas que estão presentes no teatro não entenderão o por quê da mesma, além de que a artista convidada é estrangeira e poderá interpretar que aquelas vaias estariam sendo dirigidas para ela, não é mesmo?
    No Facebook, cansei de ler as postagens dos mais ferrenhos adversários da Sra. Carla, onde afirmam que estarão indo à ópera com o intuito de puxarem uma vaia, caso ela aparecesse no palco para os agradecimento.
    Sinto dizer que este é um sentimento muito pobre para quem tem uma alma iluminada e aberta para a poesia da música e da arte em geral.
    Não gostar da atuação de alguém é um direito, cabível de uma demonstração de desgosto, mas, de uma maneira mais elegante e eficaz do que macular o palco sagrado do nosso lindo Theatro Municipal para atingir um objetivo cujo caminho deveria ser outro, pois certamente estas vaias não tiveram outro efeito do que manchar o espetáculo.
    Na récita de ontem, dia 07, vimos uma linda interpretação da Butterfly pela Hiromi Omura, e concordo contigo que algumas notas não encaixaram bem, não só com ela mas com outros cantores também.
    A orquestra muitas vezes perdeu o seu equilíbrio sonoro sendo que os metais e as madeiras apareceram de forma “fortíssimo” agredindo os ouvidos.
    O cenário tinha uma falta de adornos que poderiam ser supridos de forma “hiper-super” econômica, e com um pouco mais de cor, pois se tratava apenas de uma questão de acrescentar detalhes, e isto faz realmente toda a diferença.
    A iluminação foi bem fraca, assim como os efeitos das projeções feitas sobre a casa não tiveram o impacto pretendido.
    Uma coisa me chamou a atenção, que foi o fato de tirarem a peruca da Butterfly quando ela se preparava para o dueto do amor, pois isto representou a mostragem da beleza e juventude da Cio-Cio-San, assim como o fato de que a partir daquele momento ela deixava de ser japonesa e passava a ser a esposa americana de um americano.
    Enfim, muito poderíamos falar sobre o tema, mas, o “resumo da ópera”, e minha intenção principal, seria sugerir a todos os insatisfeitos (onde eu me incluo), que possam idealizar manifestações públicas que tenham mais efeito para efetivar as mudanças desejadas, do que simplesmente vaiar dentro do teatro, como uma maneira de demonstrar sua desaprovação.
    Jacques Graicer

  2. Caro Jacques, também li atentamente o seu comentário e o respeito. A divergência sempre é saudável, principalmente quando apresentada com uma educação como a sua e com argumentos pertinentes.

    Peço licença para discordar de alguns pontos, porém. Como eu disse no final da minha resenha, lamento que os demais artistas tenham sido obrigados a ouvir a vaia, mas creio que ficou bem claro para todos eles, inclusive para a convidada japonesa, que todos foram muito aplaudidos, e que as vaias só começaram quando dona Carla apareceu no palco.

    Há que se considerar também que muitas pessoas não têm acesso à presidente do Theatro Municipal para externar suas opiniões e suas divergências sobre a maneira como a administração do teatro de ópera do Rio de Janeiro é conduzida. Eu, por exemplo, tenho aqui este meu cantinho, graças a Deus e ao esforço de outros colegas bastante conceituado no meio musical, onde sempre posso expor as minhas opiniões, mas nem todo mundo tem esse privilégio.

    Para muitos, a oportunidade de externar sua decepção com a administração do Municipal se deu nesta Butterfly. Lembre-se que dona Carla já dirigiu outras óperas no Municipal durante sua gestão e não foi vaiada das outras vezes. Certamente a vaia ocorreu agora porque ninguém aguenta mais as enrolações desta administração.

    As pessoas percebem que uma administração que, em sete longos anos (a presidente mais longeva do Municipal nas últimas décadas, registre-se), não conseguiu melhorar em nada a programação da casa, e ainda vem com desculpinhas do tipo “quem veio antes também não conseguiu fazer muita coisa”, é extremamente limitada. Os erros do passado não podem justificar os erros do presente e do futuro.

    Enquanto isso, o governo do Estado continua torrando dinheiro com publicidade e propaganda. Só este ano, até agora, foram cerca de R$ 147 milhões, sendo que a maior parte deste valor (R$ 100 milhões) foi paga entre agosto e novembro. Período de que mesmo? Pois é…

    Dona Carla faz parte deste governo, é a representante do governo dentro do TMRJ e, ao continuar no governo, demonstra no mínimo concordância com as atitudes do governo. Se discordasse, demitir-se-ia. Como não o faz, concorda. E, concordando, é conivente com o governo e com o que o governo gasta dinheiro.

    Ela tem o sonho de ser lembrada como a presidente que reformou o Municipal e construiu sua moderna CTP, mas corre o risco de ser lembrada como a presidente que o fez para que esses equipamentos apenas sejam alugados para terceiros.

    É por tudo isso que, para mim, a vaia foi justa. Concordo que seria muito melhor se não houvesse a necessidade de ela ocorrer, se não houvesse motivos para isso. Mas motivos há. Já passou da hora de dona Carla acordar de seu sonho dourado e, caso continue no TMRJ, trabalhar também por uma programação mais consistente.

    Creio, porém, que uma mudança de gestão seria mais saudável para o Municipal. Ideias novas se fazem necessárias. Dona Carla não está fazendo bem ao Municipal, da mesma forma que o Municipal não parece mais estar fazendo bem à dona Carla.

    E, só para encerrar, da mesma forma que apoiei a vaia, apoiaria também qualquer outro tipo de manifestação a favor da programação do TMRJ e contra essa administração que acha que teatro de ópera não deve se preocupar muito em montar ópera. Se, por acaso, você ou alguém que você conhece organizar alguma coisa, por favor, não deixe de me avisar.

    Obrigado por seu comentário.

  3. Meu estimado Leonardo, concordo contigo e com a indignação que todos os cariocas (ou brasileiros) estão tento ao ver o TMRJ sem o conteúdo lírico digno da sua magnitude. Concordo também de algo deveria ser feito, e, diante desta proposta, fica a questão: – O que?

    Logicamente que a mudança da diretora do Theatro seria uma alternativa, mas, quem sabe, a mudança do pensamento dela também seria outra possibilidade.

    Penso muito na União que faz a Força, por isto parece-me mais factível uma demonstração de descontentamento dos amantes da Cultura deste país, através de uma manifestação nas escadaria do TM e que reunisse a imprensa escrita e televisiva.

    Durante as manifestações, poderia ser feito um pleito para um comitê de pessoas ilustres ligadas à cultura, principalmente à música erudita e à ópera, para que houvesse um encontro com a Sra. Carla no intuito de poder ser apresentado o pleito de todos os que amam o TM e que desejam vê-lo, novamente, como o principal palco de ópera deste país.

    Cargos políticos, infelizmente, não são seduzidos (intimidados) por vaias de um pequeno grupo, mas somente por ações que tornem públicos os acontecimentos que ferem a integridade intelectual da população, pois me lembro bem do grande sucesso do Projeto Aquarius, onde o povo lotava a Quinta da Boa Vista para assistir a um concerto.

    Pois bem, resumindo, acredito de coração que o caminho seja este, e que integrando esta comitiva, deveriam estar empresários que tenham interesse em investir na cultura, principalmente nas óperas e ballets.

    Pode parecer “quixotesco” este meu ponto de vista, mas, parafraseando o grandioso Walt Disney, diria que eu prefiro me embrenhar no campo do impossível pois com certeza ali a concorrência é menor.

    Assim sendo, espero que possamos ter a felicidade de poder retornar aos tempos de grandiosos espetáculos, onde a vaia cederá espaço aos pedidos de “bis” e às grandes ovações com aplausos intermináveis.

    Abraço,

    Jacques Graicer

  4. Olá, Leonardo, sempre aguardo os comentários do movimento.com (em especial, o seu) sobre as óperas a que assisti.

    Costumo dizer que o primeiro grande privilégio de quem começa a apreciar ópera é não conhecer as histórias a priori e experimentar, junto com a personagem, seus sentimentos. No caso da Butterfly, foi incrível experimentar sua angústia e sua inabalável esperança, incrivelmente passados pela Hiromi Omura. Os cenários estavam pobres, realmente, mas a iluminação e a direção enriqueceram muito a apresentação.

    Eu fui à récita de estreia e a Carla Camurati foi aplaudida (acredito, pelo trabalho de direção cênica) e vaiada, ao mesmo tempo. Eu adorei as vaias e pena que não duraram mais tempo. Ela sabia muito bem o motivo dessa manifestação e também posso afirmar com absoluta certeza que os artistas sabiam que não eram direcionadas a eles. Tomara que ela não continue à frente do TMRJ e, se continuar, que mude de postura, embora eu não acredite que ela mudará. Afinal, foram 7 longos anos, dentre os quais o do centenário comemorado na rua! 7 anos em que o TMRJ está muito aquém do que o Rio de Janeiro demanda. Já ouvi gente dizendo que colocar mais óperas no Municipal não adiantaria, pq o Rio é muito praiano e os turistas não frequentariam. TREMENDA BOBAGEM!
    Quando se pensa em Barcelona, o que primeiro vem à mente? Praias, baladas, Gaudi, Sagrada Família, Olimpíadas, mas não ópera. Pois seu Teatro Liceu programou, para a temporada 2014/2015, dez diferentes óperas (vide: http://www.liceubarcelona.cat/temporada-2014-2015/opera.html)! O mesmo número de San Francisco, Califórnia (http://sfopera.com/Season-Tickets/2014-15-Season.aspx). Tudo bem, são realidades bem diferentes da nossa, mas são cidades, considerando o senso comum, não associadas a esse tipo de arte a priori. Acredito piamente que o turista que viesse ao Rio para a praia, iria certamente à ópera à noite, caso o TMRJ tivesse programação mais robusta e produções com mais verba (verba bem usada). E é triste ver que o Rio tem quase tudo para isso dar certo: um Theatro lindo, com coro e orquestra talentosos, bem localizado e acessível (metrô na porta, como diriam imobiliárias) em uma cidade com 6 milhões de habitantes, que recebe mais de 1 milhão de turistas e que em 2016 será sede do maior evento do planeta. Precisa de mais o quê? Carla sabe a resposta.

  5. Olá, Mario, concordo totalmente com você, e digo mais. Nos últimos anos, a presidente do Municipal andou mais preocupada com a produção de um filme (para o qual certamente ela se esforçou mais para conseguir patrocínio) e nos próximos anos ainda tem que se preocupar com as Olimpíadas. Não, ela não vai mudar de postura, pois não tem a qualidade de saber ouvir, não gosta de ouvir opiniões diferentes da sua. Seus sete anos à frente de um Municipal quase sem programação e recheado de cancelamentos ao longo desse tempo falam por si.

    Obrigado por seu comentário.

  6. Caro Jacques, continuo respeitando sua opinião, mas sou bem mais cético. Quanto a chamar a atenção da imprensa, por exemplo, sugiro que se comece pelo jornal O Globo, para o qual a programação do Municipal parece ser a quintessência da perfeição… Para O Globo, o TMRJ não tem problema nenhum, quem tem é o Metropolitan e o TMSP, vai entender!

    Mais uma vez obrigado por seu comentário.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com