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Uma boa “Salomé” estreou no teatro de ópera de São Paulo

Tenor inglês, John Neschling e Sinfônica Municipal são os grandes destaques de outra bela montagem de Livia Sabag.

 

Salome, no original, ou Salomé, em português, é uma ópera em ato único de Richard Strauss sobre libreto que o próprio compositor preparou em cima da tradução alemã da escritora Hedwig Lachmann para o drama homônimo escrito em francês por Oscar Wilde. Na verdade, Strauss apenas efetuou alguns cortes na tradução de Lachmann, e, portanto, foi diretamente sobre o texto traduzido da peça de Wilde que a música foi composta, sem adaptações.

 

A obra

A obra-prima do mestre alemão conta a história de Salomé, filha de Herodíades e enteada do tetrarca da Judeia, Herodes Antipas. Durante uma festa no palácio de Herodes – uma corte caracterizada pela decadência moral –, a protagonista sente-se bastante atraída pelo profeta Jochanaan (João Batista), que havia sido encarcerado pelo tetrarca em virtude de suas denúncias contra a corte, em especial o fato de Herodíades ter matado o próprio marido para poder se casar com Herodes. Salomé tenta seduzir o profeta, sem sucesso, enquanto este lança profecias contra a corte e a própria Salomé.

Herodes pede a Salomé que dance para ele, que claramente lança olhares cobiçosos para sua sobrinha e enteada. Tentando convencê-la, Herodes promete, diante de todos, dar à enteada o que ela quiser, ocasião em que a princesa finalmente cede a seus apelos, e executa a famosa dança dos sete véus. Quando a dança termina, ela exige receber em uma bandeja de prata a cabeça de Jochanaan. Herodes reluta, pois teme o profeta, e lhe oferece em troca joias e outras preciosidades. Salomé, no entanto, está irredutível e continua a exigir a cabeça de Jochanaan, incentivada por sua mãe, que se sente particularmente ofendida pelas acusações dele.

Não tendo mais argumentos, Herodes ordena a decapitação do profeta, e chegamos à grande cena em que Salomé, numa espécie de transe mórbido e erótico, e até mesmo necrófilo, monologa como se ainda estivesse falando com Jochanaan – cena esta que culmina no beijo que a princesa dá nos lábios da cabeça sem vida. Horrorizado, Herodes dá a ordem que encerra a ópera.

Quando da estreia, em 1905, muitos teatros se recusaram a montá-la. Não demorou, porém, para ser reconhecida como grande obra-prima. Sua música, de alta inspiração e complexidade, reúne uma série de motivos condutores (leitmotive http://kelseylaurenphoto.com/uncategorized/how-much-celexa-can-you-take/ ). Com harmonia cromática, modulações inusuais e ambiguidade tonal, a partitura de Strauss possui uma força impressionante, e caracteriza brilhantemente os personagens e suas emoções, como desejo, luxúria, repulsão e horror.

 

A produção

Assim como ocorreu com a recente produção do Municipal do Rio, a montagem atualmente em cartaz no Theatro Municipal de São Paulo é de bom nível geral e merece a visita. Assim como no Rio, houve problemas pontuais.

A concepção de Livia Sabag mostra-se consistente e bela visualmente, com todos os artistas, como sempre, muito bem dirigidos. O único ponto negativo deste novo trabalho da jovem e excelente diretora paulistana é a célebre cena da dança dos sete véus. A opção de mostrar nessa passagem os antigos banhos orientais, mas sem dar destaque à protagonista durante o desenvolvimento da dança (esse destaque só ocorre na sua parte final), quebra o sentido dramático da cena.

A função dramática, aqui, centra-se na sedução de Herodes pela protagonista por meio de sua dança. O tetrarca, em sua lascívia, deseja Salomé, que é ao mesmo tempo sua sobrinha e enteada. E esta, para obter o que deseja, ou seja, a cabeça do profeta, aceita dançar para o padrasto. Quando amplia o escopo dessa cena, a diretora desvia ou descentraliza o foco do espectador.

Com algumas bailarinas dançando ao lado de Salomé, sem que esta seja facilmente reconhecida (todas estão com figurinos idênticos e com suas cabeças veladas), e com outros tantos bailarinos homens em um plano superior em relação àquele em que se encontram as moças, o olhar do espectador é desviado ora para lá, ora para cá. Com isso, ele perde o foco, e a cena, o seu sentido dramático essencial, só reencontrando-o em seus momentos derradeiros. Talvez, se Salomé tivesse destaque durante todo o desenrolar da cena, eu não precisasse pontuar tanto esse pecado.

Exceto por essa cena fundamental, o trabalho de Livia Sabag é mais uma vez impecável. No geral, a produção é muito bonita, pautada pelo bom gosto que marca o trabalho dessa talentosa diretora. E esse único equívoco por mim apontado pode muito bem ser revisto em uma futura remontagem. Se a História nos mostra que os grandes compositores muitas vezes revisaram suas partituras, os melhores encenadores também podem rever um ou outro ponto menos inspirado de seus trabalhos.

O cenário único e funcional de Nicolás Boni lembra a aridez do deserto e se presta bem a ambientar a ação, partindo-se ao meio em dois momentos para mostrar novos ambientes: na cena da dança, revelando uma sala de banhos; e na cena da decapitação do profeta, quando o vemos rapidamente em sua prisão antes do momento fatal.

Os figurinos de buy amitriptyline 50 mg no prescription Veridiana Piovezan adéquam-se perfeitamente à concepção da montagem e a profissional peca apenas ao não dar destaque ao traje da protagonista na cena da dança, talvez por orientação da direção do espetáculo. A iluminação de Wagner Pinto é correta, com alguns bons momentos, como o da grande lua que aos poucos ganha destaque ao fundo do palco.

A coreografia de André Mesquita é bem elaborada e bem executada por integrantes do Cheap Balé da Cidade de São Paulo, tendo como única ressalva a já mencionada falta de destaque à protagonista durante o desenvolvimento da cena da dança dos sete véus. Os mais exigentes em termos de dança poderão reclamar também que cada uma das bailarinas, Salomé inclusa, ostentavam bem menos que sete véus.

Dentre os solistas que atuaram na récita de estreia, em 6 de setembro, não comprometeram Elisabeth Ratzersdorf liponexol cheap Order (Escravo), Jessé Vieira (Capadócio), Paulo Menegon (Segundo Soldado), Sérgio Weintraub (Segundo Nazareno), e ainda quatro dos cinco judeus: Rubens Medina, Eduardo Trindade, Miguel Geraldi e Sérgio Righini Cheap .

Estiveram bem o Pajem de Lidia Schäffer Pills , o Primeiro Judeu de Paulo Queiroz, o Primeiro Nazareno de Carlos Eduardo Marcos e, especialmente, o Primeiro Soldado de Saulo Javan. O tenor francês Stanislas de Barbeyrac começou inseguro, mas logo se firmou e compôs um bom Narraboth.

A mezzosoprano alemã Iris Vermillion esteve muito bem cenicamente como Herodíades, mas sua voz mostrou-se aquém das exigências da partitura de Strauss, e a artista não apresentou projeção adequada. Já o baixo-barítono norte-americano Mark Steven Doss, dono de um belo timbre e de boa projeção, foi sem dúvida um bom Jochanaan, ainda que sem maior brilho. Fiquei com vontade de ouvi-lo outra vez, em alguma outra ópera.

A atuação da soprano alemã Nadja Michael certamente dividirá opiniões. Sua Salomé é dotada de maravilhosos agudos, mas, ao mesmo tempo, sua região média deixa muito a desejar, com emissão por vezes bastante opaca. Para os aficionados por agudos de alto nível, sua performance certamente foi excelente, mas para quem, como eu, prefere apreciar o equilíbrio de emissão em todas as regiões de um registro vocal, a cantora foi irregular. Em sua defesa, registro uma informação que recebi depois da récita de que ela passou a semana com uma forte gripe.

De qualquer forma, o grande destaque vocal desta produção paulistana foi, sem margem de dúvidas, o tenor inglês Peter Bronder. Conhecido do público brasileiro desde que cantou brilhantemente a parte de Mime naquele O Ouro do Reno em forma de concerto do ano passado, Bronder mais uma vez foi brilhante. O artista, que encantou o público com um desempenho cênico impecável e também com seu lindo timbre e sua excelente projeção, enfrentou com bravura as dificuldades e as alternâncias rítmicas da parte de Herodes. Peter Bronder sempre será bem-vindo.

E, em meio a cinco solistas principais estrangeiros, é com prazer que encerro a análise desta produção elogiando nossos músicos brasileiros. Para mim, o principal destaque musical desta Salomé, maior até do que a maravilhosa performance do tenor inglês, foi o não menos que excelente desempenho dos professores da Orquestra Sinfônica Municipal (OSM).

Conduzidos pela conhecida mão de mestre de John Neschling, os músicos da OSM demonstraram, durante praticamente toda a ópera, precisão técnica para enfrentar a rica e complexa escrita orquestral do mestre alemão, atingindo um alto grau de coesão sonora. Deslizes em dois ou três solos restaram insignificantes em meio a uma noite realmente memorável para o conjunto. Neschling, por sua vez, empregou dinâmicas precisas e com alto senso teatral. Em aproximadamente um ano e meio de trabalho, o regente tem a orquestra nas mãos.

Uma curiosidade pra lá de interessante, independentemente do resultado da performance, é que temos atualmente em São Paulo três dos quatro solistas principais que cantaram Salomé no Teatro alla Scala, de Milão, em 2007: Nadja Michael, Peter Bronder e Iris Vermillion. No Brasil, só mesmo John Neschling conseguiria tal proeza.

 

Comparação inevitável: Salomé no RJ e em SP

De forma proposital, os títulos das resenhas críticas que escrevi sobre as duas montagens de Salomé no Rio de Janeiro e em São Paulo são quase iguais. A diferença está apenas no foco e na prioridade que cada uma das casas dá às suas respectivas programações: o Municipal de São Paulo, o primo rico, é um teatro de ópera; enquanto o Municipal do Rio, o primo pobre, é um teatrinho de balé, de filmes e de aluguel.
Com duas produções diferentes da mesma ópera tão próximas – mais próximas até do que as duas montagens de Carmen no primeiro semestre –, a comparação é inevitável. Além da comparação óbvia já exposta nos títulos, exponho a seguir minhas percepções.

Cenicamente, a Salomé paulistana é mais eficiente no todo, mesmo levando-se em conta o senão apontado a respeito da dança dos sete véus. Por outro lado, a produção carioca merece menção honrosa, pois, se considerarmos os parcos recursos que o Municipal do Rio colocou à disposição da equipe de criação, concluiremos que o trabalho foi, para dizer o mínimo, bastante criativo.

Vocalmente, dá empate. O tenor francês que interpreta Narraboth em São Paulo é superior ao colega brasileiro que cantou no Rio, assim como o excelente tenor inglês que vive Herodes na produção paulistana ganha fácil do bom tenor irlandês que cantou no teatro carioca.
Por outro lado, as duas intérpretes de Salomé que ouvi no Rio (Eliane Coelho Purchase e Cristina Baggio) foram melhores que Nadja Michael, por apresentarem ambas maior equilíbrio de emissão em todas as regiões da tessitura da personagem. Os desempenhos dos dois baixos-barítonos que encarnaram Jochanaan estiveram próximos, mas Lício Bruno, que cantou no Rio, foi mais consistente vocalmente. E as duas Herodíades, que poderiam desempatar esta comparação vocal entre os solistas principais, não saíram de um empate técnico, ambas com bons desempenhos cênicos, mas deixando a desejar no quesito adequação vocal às exigências da partitura.

Entre as orquestras, deu São Paulo na cabeça, claro. Afinal, a orquestra paulistana toca ópera quase que o tempo todo e, quando não está envolvida em alguma produção, está tocando importantes peças do repertório de concerto. Já o conjunto carioca raramente se aventura pelo terreno lírico (não por sua culpa, registre-se), limitando-se a passar quase o ano todo tocando música de balé ou música incidental de filmes. Ópera só de vez em quando – e olhe lá! Importantes peças de concerto? Nem pensar. Desse jeito, haveria alguma possibilidade de a OSTM ganhar da OSM na interpretação de uma partitura complicada como essa de Strauss? Evidente que não.

Portanto, São Paulo ganhou na comparação de Salomé, como já havia ganhado na comparação da Carmen. Que novidade!, deve estar pensando o leitor.

 

Foto do post: em primeiro plano, Iris Vermillion, Peter Bronder e Nadja Michael (foto de Desirée Furoni)} else {}

3 Comments

  1. Prezado Leonardo, tenho uma dúvida totalmente leiga (e bem sincera). Montar balés é mais fácil do que montar óperas? As partituras líricas são mais difíceis de serem executadas?

    Quanto à montagem paulistana, infelizmente não consegui ir, pois o TMSP adiou a montagem do dia 16/09/14 em virtude das manifestações que agitaram o centro de São Paulo naquele dia. Aliás, fiquei bem revoltado, pois o adiamento foi informado em cima da hora, sendo que a confusão se deu bem cedo, e justificado como “preocupação com o público”. Acho até justa tal preocupação, mas incoerente, pois boa parte desse público, como eu, teve que ir até as portas do Municipal para saber do adiamento. Menos mal que passei adiante o meu ingresso para minha família. Mas fica a minha bronca, de qualquer forma.

    Pela descrição de sua crítica e pelo que meus familiares me contaram, acho que teria gostado mesmo mais da produção carioca, principalmente pelos dois pontos levantados: a Cristina Baggio (infelizmente, não vi a Eliane Coelho) e a dança dos sete véus. Particularmente, adorei a dança no Rio. Achei que valorizou muito a protagonista e me ajudou a mergulhar mais na estória.

  2. Olá Mario, desculpe-me pela demora na resposta, mas só hoje, 28/09, vi seu comentário.

    Imagino bem a sua frustração com essa ocorrência do adiamento de uma das récitas da Salomé em São Paulo – justamente aquela a que você assistiria. Certa vez, em uma viagem à Itália, fui informado poucas horas antes que uma récita de Aida em Turim, para a qual eu havia comprado ingressos com meses de antecedência pela internet, fora cancelada por uma greve da orquestra! Eles devolveram o dinheiro, que não pagou a minha frustração…

    As performances das duas Salomés do Rio (Eliane e Cristina) me agradaram mais, por mais consistentes vocalmente, que a de Nadja Michael em São Paulo. Porém, é possível que a atuação de Michael tenha crescido com o decorrer das récitas, considerando o problema de saúde que ela teve às vésperas da estreia.

    Quanto à dança dos sete véus, a produção do Rio teve o mérito de centrar a dança na protagonista, o que não ocorreu em São Paulo. Por outro lado, no geral, a coreografia apresentada em São Paulo era bem mais elaborada que aquela do Rio, ainda que, pensando bem, se formos considerar apenas os movimentos específicos de Salomé, as duas coreografias se igualem em simplicidade.

    E, por fim, respondendo sua pergunta, é difícil dizer se montar balés é mais fácil que montar óperas, pois se tratam de artes diferentes, com suas respectivas especificidades. Só quem atua nesses dois tipos de espetáculos (como músicos e regentes, por exemplo) poderia dizer se um é mais fácil que o outro, e é bem provável que haja divergência de opiniões entre os profissionais envolvidos. Por outro lado, é notório que balés custam bem mais barato que óperas. E, estritamente quanto aos custos, sim, montar balé é mais fácil que montar ópera.

    Já quanto à qualidade da música, em geral a música de ópera é mais complexa, difícil e rica que a música de balé. Há exceções, é claro, principalmente quando pensamos em Tchaikovsky, para ficar só em um exemplo. Além disso, a ópera tem uma dinâmica muito própria, e, quando uma orquestra não está habituada a ela, pode ficar exposta, principalmente em partituras do nível deste Strauss.

  3. Prezado Leonardo, eu que agradeço a sua costumeira atenção aos meus comentários (agora fui eu que demorei a responder, pois estava viajando a serviço). Queria especialmente agradecer ao seu testemunho sobre a ópera que você perdeu. Realmente foi muito frustrante para mim o adiamento da récita da Salomé, mas faz parte. Imprevistos ocorrem.
    E foi muito esclarecedora sua explanação sobre o ballet e a ópera. Como sempre digo, sempre aprendo muito com vocês aqui do movimento.com.
    Grande abraço e até a Butterfly carioca!

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com