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Uma belíssima Salomé triunfa em Belém

Boas vozes e encenação de alto nível honram a obra-prima de Richard Strauss.


Salome
(no original, ou Salomé, para ficar mais fácil em nossa língua), ópera em ato único de Richard Strauss sobre libreto da escritora Hedwig Lachmann, que por sua vez é praticamente a tradução para o alemão, com pequenos cortes, do poema cênico homônimo escrito em francês por Oscar Wilde, é o terceiro título lírico levado ao palco no XI Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará.

Salomé pede um beijo a Joaõ Batista
A obra-prima do mestre alemão conta a história de Salomé, filha de Herodíades e enteada do tetrarca da Judeia, Herodes Antipas.  Durante uma festa no palácio de Herodes – uma corte caracterizada pela decadência moral –, a protagonista sente-se bastante atraída pelo profeta Jokanaan (João Batista), que havia sido encarcerado pelo tetrarca em virtude de suas denúncias contra a corte, em especial o fato de Herodíades ter matado o próprio marido para poder se casar com Herodes.  Salomé tenta seduzir o profeta, sem sucesso, enquanto este lança profecias contra a corte e a própria Salomé.

Tendo Jokanaan voltado para sua prisão, Salomé nega-se a atender ao pedido de Herodes para que dance para ele, que claramente lança olhares cobiçosos para a enteada.  Tentando convencê-la, Herodes promete diante de todos dar-lhe o que ela quiser, ocasião em que a princesa finalmente cede a seus apelos, e executa a famosa dança dos generic viagra 25 mg review sete véus.  Quando a dança termina, ela cobra a promessa feita pelo padrasto e exige receber em uma bandeja de prata a cabeça de Jokanaan.  Herodes reluta, pois teme o profeta, e lhe oferece em troca joias e outras preciosidades.  Salomé, no entanto, está irredutível, e continua a exigir a cabeça de Jokanaan, incentivada por sua mãe, que se sente particularmente ofendida pelas acusações dele.

Não tendo mais argumentos, Herodes ordena a decapitação de Jokanaan, e chegamos à grande cena em que Salomé, numa espécie de transe mórbido e erótico (e, por que não dizer?, necrófilo), monologa como se ainda estivesse falando com o profeta, culminando no beijo que dá nos lábios da cabeça sem vida.  Horrorizado, Herodes ordena a morte de Salomé.

Quando estreou em 1905, Salomé chocou o mundo, e muitos teatros se recusaram a montar a ópera.  Não demorou, porém, para ser reconhecida como grande obra-prima.  Sua música, de alta inspiração e complexidade, reúne uma série de motivos condutores (Leitmotive).  Com harmonia cromática, modulações inusuais e ambiguidade tonal, a partitura de Strauss possui uma força impressionante, e caracteriza magnificamente os personagens e suas emoções, como desejo, luxúria, repulsão e horror.

Por isso, a decisão de levar Salomé em Belém caracterizou-se como um grande desafio, e o resultado desta empreitada arriscada é bastante satisfatório, com momentos de alto voo artístico.  A começar pela brilhante encenação, na qual claramente se percebe que todos os profissionais envolvidos trabalharam em conjunto, sem vaidades, com o único objetivo de criar um visual belo e atraente, e também muito eficiente para a realização da obra-prima de Strauss.

Salomé segura a cabeça de João Batista
A direção de Mauro Wrona é precisa e, como bem observou o professor Sérgio Casoy, também presente em Belém, toma a partitura como base para as marcações, conseguindo tirar dos cantores/atores atuações cênicas irrepreensíveis.  A principal cena da ópera, o monólogo da protagonista com a cabeça de Jokanaan, está excelente, muito bem preparada e executada, ressaltando a lascívia da personagem na medida exata.

O cenário de Duda Arruk é uma grande e eficiente instalação, bastante funcional, construído com tubos de aço e madeira, muito valorizado pela luz sensível de Caetano Vilela.  Os figurinos corretos e bem executados de Elena Toscano e a coreografia de Ana Unger e Aline Dias completam com idêntica qualidade uma produção cênica de alto nível, digna de excursionar por outros importantes teatros brasileiros e que desponta com uma das melhores, senão a melhor do ano até o momento.

Na estreia de 24 de novembro, sob a condução de seu regente titular, maestro Miguel Campos Neto, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz teve um ótimo desempenho.  Ainda que se pudessem observar alguns senões, o resultado geral da interpretação da terrível partitura de Strauss foi satisfatório, e o conjunto teve papel de grande importância para a realização da obra.

O elenco secundário chamou a atenção por sua eficiência cênica e musical.  Todos estiveram bem: os soldados de Daniel Germano e Andrey Mira; os judeus de Antônio Wilson Azevedo, Rodrigo Valdez, Marcos Carvalho, Márcio Carvalho e Raimundo Nascimento Mira; os nazarenos de Idaías Souto Jr. e Ytanaã Figueiredo; o capadócio de Nilberto Viana e a serva de Jéssica Wisniewski.

Dentre os solistas principais, a mezzosoprano Josy Santos (pajem) demonstrou boa projeção e bom rendimento cênico, assim como o tenor Giovanni Tristacci, que esteve muito bem como o capitão da guarda, Narraboth.  A mezzo Andreia Souza foi uma ótima e colérica Herodíades, com um bonito timbre quente e excelente projeção.

O tenor Paulo Queiroz foi cerebral e bastante surpreendente em uma interpretação digna e convincente de Herodes.  Sua voz esteve sempre bem, e o artista encarou com competência os desafios desta parte.  O barítono Rodrigo Esteves, estreando no papel e decidido a começar a enfrentar algumas partes mais pesadas, também emprestou dignidade ao profeta Jokanaan.  Quando cantava da coxia, nos momentos em que o personagem estava em sua prisão, foi coberto algumas vezes, mas quando esteve no palco, o vozeirão de sempre, muito bem controlado e projetado, deu profundidade às palavras do profeta.

A Salomé da soprano holandesa Annemarie Kremer merece análise particular.  Pelas conversas de bastidores, ficou claro que um dos objetivos da direção do Festival era buscar uma cantora com o phisique du rôle para viver Salomé, ou seja, alguém com a aparência física ideal para interpretar a personagem.  Neste sentido, a bela holandesa funcionou muito bem, com um desempenho cênico excelente, em especial na sensual dança dos sete véus e na cena do monólogo com a cabeça degolada do profeta.

Vocalmente, a soprano oscilou, enfrentando momentos de instabilidade, em especial na sua região média.  Apesar disso, seu desempenho geral foi bom, e quando chegamos ao monólogo com a cabeça de Jokanaan, ela finalmente disse a que veio, soltando a voz numa performance de tirar o fôlego, de alta expressividade dramática.  Annemarie Kremer, portanto, cresceu ao longo da récita e, no final, fez valer muito a pena sua escolha para esta parte terrível, que é o sonho de muitas, mas que poucas conseguem realizar a contento.

Foi uma noite de ópera muito especial em Belém do Pará, em que a energia de Strauss foi sentida, respeitada, valorizada.  E esta Salomé, desde já, candidata-se com merecimento ao posto de melhor produção da temporada brasileira de 2012.  Ficou no ouvido uma vontade de “quero mais”, e já começo a pensar no que Belém está preparando para o especial ano de 2013, com os bicentenários de Verdi e Wagner.  Ouvi falar em O Trovador e O Navio Fantasma.  Aguardemos a confirmação que, se vier, será muito bem-vinda.

Leonardo Marques viajou a Belém a convite da Produção do XI Festival de Ópera do Theatro da Paz

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2 Comments

  1. Prezado Leonardo, não fui a Belém e por isso mesmo invejo-o, no bom sentido. Vi as fotos desta produção de Salomé publicadas aqui e também em outros sites e só posso concordar com você: ela deveria excursionar para que outras pessoas também pudessem vê-la. Tomara que isso aconteça, pois não é sempre que temos a oportunidade de ouvir uma ópera de Strauss.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com