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Um sonho de liberdade

No fim dos anos 1960, um grupo de cabeludos se reuniu em torno da música. Não se trata de Woodstock, festival antológico que reuniu, durante três dias em uma fazenda na cidade de Bethel, no estado de Nova York, uma multidão de jovens paz-e-amor. Esta história começa em Salvador da Bahia em 1969, quando o agrônomo e poeta Luiz Dias Galvão, por sugestão de Tom Zé, vai atrás do músico Antônio Carlos Moraes Pires, já conhecido como Moraes Moreira. Ali começou a surgir o grupo Novos Baianos, que se consolidou e eternizou com a chegada de Paulo Roberto Figueiredo de Oliveira, mais conhecido por Paulinho Boca de Cantor, ex-crooner da Orquestra Avanço; Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, chamada Baby Consuelo (e, posteriormente, Baby do Brasil), a única não-baiana da turma; e Pedro Anibal de Oliveira Gomes, nome de batismo de Pepeu Gomes. Esse é o ponto de partida do espetáculo Novos Baianos, que estreou em São Paulo em novembro de 2019 e chegou ao Rio de Janeiro em 31 de janeiro de 2020 para uma temporada até 16 de fevereiro.

O texto do ator Lucio Mauro Filho costura, com bastante fluidez, a trajetória desse icônico grupo musical – cujo segundo álbum Acabou Chorare (1972) foi eleito pela revista Rolling Stone como o melhor disco da história da música brasileira em outubro de 2007. Ainda que, muitas vezes, se construa sobre um fiapo de dramaturgia, o espetáculo flui bem, entrelaçando diversos fatos históricos e um sem-número das obras do cancioneiro do conjunto ao longo do primeiro ato – até um segundo ato morno e um fim mal elaborado e abrupto.

A direção do ator Otavio Müller deixa a cena se construir de forma simples e mágica diante dos olhos da plateia, com artifícios cenográficos singelos e sem esconder os bastidores (da mesma forma que fez genialmente em Josephine Baker, a Vênus Negra, com texto de Walter Daguerre). Indispensáveis para isso são as contribuições do coletivo artístico carioca Opavivará!, que assina direção de arte, cenografia e figurino. Com pouquíssimos elementos cênicos, a cenografia evoca a rebeldia juvenil (o robô gigante do espetáculo O Desembarque dos Bichos Depois do Dilúvio Universal, apresentado pelos Novos Baianos em 1969 no Teatro Vila Velha), a multicolorida Salvador (os carrinhos de bebida iluminados) e a informalidade do apartamento do grupo (com cômodos delimitados por lençóis em varais). Os figurinos, por sua vez, ajudam a construir a identidade do grupo e a caracterizar uma época, com saias rodadas e quase psicodélicas da era hippie, e os shorts e camisas de times de futebol. A iluminação de Monique Gardenberg e Adriana Ortiz é efusiva e remete à atmosfera de um show de forma sedutora.

É no elenco, entretanto, que se revela o maior acerto deste musical. A trama é conduzida por um Galvão narrador, que conversa com o público, interpretado com candura e graça por Ravel Andrade. Seu primeiro parceiro de cena é o Moraes Moreira de Felipe El, cheio de malemolência. Em seguida, se junta à dupla Gustavo Pereira como Paulinho Boca de Cantor, responsável por alguns dos momentos mais divertidos do espetáculo. Quando chega Baby é uma lufada de brisa marinha: Barbara Ferr incorpora uma semelhança de aparência e posturas que parece que vemos a cantora quando jovem. O grupo principal se completa com o Pepeu Gomes de Filipe Pascual, um fera na guitarra – aliás, é importante mencionar que todos os jovens atores cantam, tocam e dançam com muito talento, sob a direção musical de Pedro Baby (filho de Baby e Pepeu) e Davi Moraes (filho de Moraes Moreira).

João Moreira (Dadi), Mariana Jascalevich (Marilinha), Julia Mestre (Marilhona), Miguel Freitas (Jorginho), Beiço (Chacrinha), Clara Buarque (Leilinha), João Vitor Nascimento (Gato Félix), Miguel Freitas (Jorginho Gomes) e Luan Lima (João Araújo) completam o elenco de jovens cheio de graça, viço e competência. Crédito também da preparação corporal de Johayne Hidelfonso e Gisele Bastos.

Com todos esses elementos e talentos reunidos, Novos Baianos se apresenta como uma peça-show leve, colorida, encantadora. Ainda que romantize um período em que nem tudo foram flores, traz o espírito paz e amor da época, no qual o amor era lindo, a Bahia era linda, a música era linda. Hoje, quando alguns zumbis daquela época de chumbo querem voltar à vida, o espetáculo nos traz um doce perfume de uma época na qual se sonhava com a liberdade.

 

Foto: André Wanderley

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com