Crítica

Um quarteto cheio de si

MozART Group faz mistura insólita e divertida de clássico, pop, show de humor e performance.

Quatro poloneses de fraque e lustrosos instrumentos – Filip Jaslar (primeiro violino), Michal Sikorski (segundo violino), Pawel Kowaluk (viola) e Bolek Blaszczyk (violoncelo) – adentraram o palco do novo Teatro Bradesco, no shopping Village Mall, no Rio de Janeiro, na noite de 10 de julho. Certa sisudez formal acompanha os primeiros acordes de Eine kleine Nachtmusik, de Mozart. Em alguns minutos, a seriedade é substituída por fartas doses de bom humor e inteligência: bastam alguns chapéus para as notas mozartianas transformarem-se em um tema country norte-americano, uma alegre canção io-li-lei à moda suíça; uma melodia judaica do Leste Europeu e uma música com ares flamencos. Foi mais uma apresentação regada a música e humor do MozART Group.

Existente desde 1995, o grupo é composto por instrumentistas formados em academias de música de Varsóvia e Lodz, na Polônia e vem colecionando prêmios e aplausos em shows realizados em mais de 40 países. O espetáculo parece ser fruto de livre associação musical: um tema puxa o outro, seja pela identidade sonora, seja pela ideia a ele atrelada. Só esse conceito pode justificar a fusão de Danúbio Azul, de Johann Strauss II, com Rock Around the Clock, gravado por Bill Halley e Seus Cometas em 1954. Ou a criação de um bloco de músicas britânicas, no qual estão (I Can’t Get No) Satisfaction (Rolling Stones, 1965), Crocodile Rock (Elton John, 1972), um tema do musical O Fantasma da Ópera (de Andrew Lloyd Weber, 1986), o tema de James Bond (composto por Monty Norman e arranjado por John Barry para o filme O Satânico Dr. No, de 1963) com o trocadilho “Haydn, meu nome é Haydn” puxando um trecho do Concerto para Trompete e Orquestra do compositor austríaco. É de misturar Miami com Copacabana e chiclete com banana, como dizia Jackson do Pandeiro na canção de 1959. Tururururururi bop-bebop-bebop!


Heart of the ocean

Utilizando técnicas de circo e mímica, o grupo, em muitos momentos, parece Didi, Dedé, Mussum e Zacarias das cordas. A canção I Got Rhythm (George e Ira Gershwin, 1930) surge em pizzicato, ao qual se intercalam estalar de dedos e palmas, de modo cada vez mais feérico e virtuoso. O quicar de uma bolinha em uma raquete de pingue-pongue conduz o ritmo de uma melodia de Scott Joplin, ao qual segundo violino, viola e violoncelo ingressam como em uma brincadeira de meninos que acaba se transformando em La Habanera (da ópera Carmen, de Bizet, 1875). Surpreendente e arrebatador.

Um dos pontos altos da noite exprime essa mistura de citações, piadas e talento musical. O violoncelo começa imitando o barulho do mar. Soma-se o segundo violino, reproduzindo o som de gaivotas. Uma garrafinha de água soprada remete ao apito de um navio. Logo, o primeiro violino começa a melodia de My Heart Will Go On, que embalou o filme Titanic (1997). O público cai na gargalhada quando junta as peças e decifra o enigma proposto. Mas a explosão de risadas vem quando os músicos, com seus corpos, reproduzem a proa do navio e a figura de Leonardo DiCaprio de braços abertos.

A última peça da noite foi uma surpreendente versão de Für Elise (Beethoven, c. 1810) em ritmo de… heavy metal, com direito a urros e dedos enfurecidos nas cordas. No bis, uma moça da plateia foi chamada ao palco para “aprender” a tocar violino: com a colaboração do primeiro violinista e do grupo, a jovem entoou Samba de Uma Nota Só (Tom Jobim) – a graça era exatamente pela canção conter uma longa série de notas tocadas em um mesmo tom, ideal para o novato fazer uma posição só no instrumento. Uma divertida surpresa que encerrou uma noite cheia de sorrisos.

Essa parece ser a essência e a graça do MozART Group: quebra-cabeças musicais recheados de humor. A graça é adivinhar a música, a referência, o jogo. E se deliciar com a inteligência e o talento musical dos artistas.

O MozART Group apresenta-se também em Belo Horizonte, no dia 11 de julho, às 20h30 (Grande Teatro Sesc Palladium, Rua Rio buy proscar online de Janeiro, 1.046. Ingressos a R$ 80), e no 13º Festival de Inverno de Petrópolis, no dia 13, às 15h, no Palácio de Cristal (Rua Alfredo Pachá, s/n, Centro), com entrada gratuita. Garantia de bons momentos.

 

 

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1 Comment

  1. Mozart queria impressionar os parisienses, e a Sinfonia “Paris” começa de maneira bombástica, com quatro acordes em forte na orquestra inteira seguidos de semi-colcheias rapidamente ascendentes nas cordas, flautas e fagotes, dando uma sensação de fogo-de-artifício. O primeiro movimento da sinfonia transcorre num clima festivo, com os “fogos de artifício” explodindo aqui e ali. O segundo movimento, Andante 6/8, é uma dança francesa, delicada e elegante, lembrando um quadro de Fragonard . O terceiro e último movimento, Allegro, começa com uma tremedeira cheia de expectativa só nos violinos, que explode num tutti (acorde de ré), como o estourar de uma rolha de champanhe, e a festa começa.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com