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Um inebriante “Falstaff” encanta São Paulo

Encenação inteligente e barítono italiano são os grandes destaques da nova produção do Theatro Municipal.

Estreou neste sábado, 12 de abril, no Theatro Municipal de São Paulo a segunda ópera da temporada lírica da casa neste ano: Falstaff, obra-prima em três atos e seis cenas, de Giuseppe Verdi, sobre libreto de Arrigo Boito, com base em obras de William Shakespeare: a comédia As Alegres Comadres de Windsor e o drama histórico Henrique IV.

A última obra escrita para o palco pelo gênio máximo da ópera italiana tem características especiais. Verdi, no ápice da maturidade artística, aos 79 anos, completamente senhor de sua arte, acertou as contas com um trauma do passado.  Antes de Falstaff, o compositor havia escrito apenas uma ópera cômica, Un Giorno di Regno, fracasso de público e crítica na mesma época em que ele, ainda muito jovem, enterrou seus dois filhos e sua primeira esposa: uma fase delicada, na qual ele até considerou a possibilidade de abandonar o teatro lírico.

Depois do estrondoso sucesso de Otello, que estreou mais de 15 anos depois de sua ópera anterior (Aida), Verdi foi outra vez convencido por Arrigo Boito a embarcar em um novo projeto: uma comédia baseada em Shakespeare, dramaturgo por cuja obra o compositor era apaixonado.  Era sua chance de acertar aquela velha dívida que tinha consigo mesmo.

Falstaff não é uma ópera-bufa com as de Rossini ou Donizetti, mas uma comédia lírica.  Do ponto de vista estrutural, a obra fica distante das comédias mais antigas, pois sua linha musical é contínua, sem a divisão em números estanques, típica da ópera italiana.

A música de Verdi atinge um nível tão superlativo que, para muitos analistas, embora Falstaff não seja a ópera mais popular do compositor, ela foi a sua melhor e mais bem acabada obra.  Há passagens brilhantes para as vozes, mas é preciso observar especialmente a maravilhosa escrita orquestral do grande mestre, com ricas harmonias e um colorido que só um gênio seria capaz de conceber.

Quanto ao tema, o humor é, aqui, bastante refinado, e a trama se concentra nas tramoias de um cavaleiro inglês velho e pançudo (John Falstaff) para quem a honra nada significa.  Circundam a trama principal as peripécias dos jovens amantes Nannetta e Fenton, a vingança das comadres, o ciúme doentio de Ford e um final que louva a maior e mais genuína de todas as farsas: este mundo em que vivemos (Tutto nel mondo è burla).

A encenação em cartaz até o próximo dia 24 no Municipal paulistano foi concebida com grande inteligência.  O conceito desenvolvido pelo diretor italiano Davide Livermore conjuga diversos aspectos da cultura inglesa, como, dentre outros, as senhoras distintas da sociedade (as comadres), os senhores com seus guarda-chuvas característicos, os punks da geração mais jovem, além de figurantes trajados como tradicionais guardas de rua.

O cenário único e funcional, do próprio diretor e de Giò Forma, dá a impressão de estender a sala de espetáculos, sugerindo que a boca de cena está, na verdade, no fundo do palco do Municipal.  Em um primeiro momento, este cenário aparenta ser o ponto fraco da produção.  No entanto, com o desenrolar da ação, e graças à não menos que excelente direção de atores/cantores, percebe-se que o cenário não atrapalha a montagem, o que já ajuda bastante.  Durante a fuga final, entende-se melhor por que o cenário foi realizado conforme descrito acima.  Calo-me aqui para não estragar a surpresa.

A propósito, é importante registrar que o trabalho de direção de Livermore é tão meticuloso e perfeccionista, que a impressão que se tem é que cada membro do elenco, seja solista, corista ou figurante, foi orientado individualmente, mas sem que isso pusesse em risco um conjunto orgânico, harmonioso e, claro, engraçado.  O que se vê no palco do Municipal é uma direção primorosa de atores/cantores que, por sua vez, respondem à altura às exigências do encenador.  O mérito de todo este trabalho se torna ainda maior quando comparado com a direção insossa do Trovatore que abriu a temporada em março.

A luz eficiente do próprio diretor, a utilização de projeções na medida exata (sobretudo no último ato) e os extravagantes figurinos de Gianluca Falaschi, bem adequados à comédia e que se destacam pelas cores vivas, completam esta belíssima montagem de uma das obras mestras do repertório internacional.

Na récita de estreia, em 12 de abril, o Coral Lírico, preparado por seu titular, Bruno Facio, esteve muito bem, e demonstrou ótimo desempenho cênico.  Já os professores da Orquestra Sinfônica Municipal Order apresentaram uma de suas melhores performances dos últimos tempos, ainda que um ou outro desencontro tenha sido notado no primeiro ato.  Esta partitura verdiana exige enorme refinamento e, no geral, o conjunto não deixou a desejar, sendo conduzido pela hábil mão de mestre de John Neschling, que regeu servindo à ação dramática.

As comadres
As comadres

Dentre as comadres, somente a Alice Ford da soprano Virginia Tola deixou a desejar, com voz irregular.  A mezzosoprano Denise de Freitas foi uma Meg Page de graves sonoros, espevitada e engraçadíssima; enquanto outra mezzo, Cheap Elisabetta Fiorillo, foi uma impagável Quickly, que também roubou a cena com seus belíssimos graves (Reverenza!; Povera donna!).

Estiveram bem Saverio Fiore Cheap (Dr. Caius), Stefano Consolini Buy (Bardolfo) e Diógenes Randes (Pistola).  O Fenton do tenor Marco Frusoni cresceu ao longo da récita, enquanto a Nannetta da soprano Rosana Lamosa, que esteve muito bem cenicamente, foi apenas correta, atingindo seu melhor momento na cena das fadas.

 

Rodrigo Esteves
Rodrigo Esteves

Muito bom foi o Ford do barítono Rodrigo Esteves, especialmente no segundo ato, quando o personagem tem grandes passagens, como a cena entre ele (disfarçado de um certo Sr. Fontana) e o protagonista: momento em que o artista não ficou atrás da estrela internacional.  Também desse ato é o belíssimo monólogo (È sogno o realtà) em que Ford expressa seu ciúme, seu medo de estar sendo traído e seu desejo de vingança.  Esteves interpretou-o maravilhosamente, sendo aplaudido em cena aberta.

Está tudo muito bem, mas não existe Falstaff sem um protagonista à altura.  E Neschling foi buscar logo um dos mais elogiados intérpretes deste personagem emblemático.  O barítono italiano Ambrogio Maestri mostrou em São Paulo porque é um dos grandes Falstaffs da atualidade.

Dono de uma voz poderosa, um verdadeiro trovão que vai do grave ao agudo com a mesma eficiência, o artista conquistou o público logo em suas primeiras intervenções, também ganhando aplausos em cena aberta.  Ainda no primeiro ato, deslumbrou-nos com o magnífico monólogo da honra.  Depois, no segundo ato, mais cenas maravilhosas, especialmente aquelas com Quickly e Ford; e, para completar, um grandíssimo terceiro ato, reunindo um novo encontro com Quickly e toda a cena final, que culmina na célebre e derradeira fuga, o sublime adeus de Verdi ao teatro lírico.

Maestri dominou a ópera, o palco, as ações; mostrou-se um ator de alto gabarito e de enorme presença (em todos os sentidos), capaz de representar em alguns momentos somente com os olhos.  Um artista na acepção mais completa da palavra, enfim.

Apesar de um ou dois senões acima relatados, foi uma grande noite de ópera em São Paulo, um Falstaff tão inebriante que teve até bis no final.  Em ópera, o bis deve ser raro, muito raro, e mesmo assim, quando aparece, geralmente é depois de uma ária.  Em São Paulo tivemos um bis inusitado: depois dos calorosos aplausos finais e de algumas pessoas já terem se retirado da plateia, John Neschling decidiu dar um bis.

Não posso afirmar com certeza, mas tudo pareceu improvisado.  O maestro ordenou que a orquestra se recolocasse a postos, avisou aos cantores, e atacou, do palco, a repetição da fuga final.  Esta primeira tentativa não deu certo, mas Neschling não se fez de rogado, e reiniciou a fuga da capo.  Desta vez, sim, o bis seguiu sem sobressaltos até o final, com Neschling regendo do palco em meio aos solistas e ao coro, e Ambrogio Maestri conduzindo a plateia.

Os mais sisudos poderão torcer o nariz e, para não perder o hábito, criticar o maestro.  Se fosse uma ópera trágica, obviamente essa atitude teria sido um erro.  Mas em uma comédia, e ainda mais em Falstaff cialis phone , o congraçamento desse bis inusitado e a interação com a parte da plateia que não arredou o pé do Municipal mostraram-se uma apoteose da música do maior compositor de óperas da história.  Tudo isso com “Viva Verdi” projetado no fundo do palco.

Va, vecchio John, per la tua via! – muita atenção, pois não falo de Falstaff…

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5 Comments

  1. Obrigado, Leonardo Marques! Suas críticas sempre muito ponderadas e imparciais, nos trazem uma visão extremamente detalhada. Sua escrita tem sempre muita propriedade. Bravo!

  2. Va, vecchio Jonh Neschling, pela tua via! Se esse for o enigma, concordo! O maestro tem feito uma excelente administração no TMSP, embora eu ainda esteja um pouco “brigado” com ele por causa do Ouro do Reno no ano passado.
    Linda produção mesmo! Mas confesso que na récita de 24/04, o barítono Rodrigo Esteves me impressionou mais que o Maestri (que também foi, como de praxe, excelente)! Levei algum tempo para reconhecê-lo no Falstaff de ontem, até que me recordei que ele fora o elogiadíssimo Holandês Voador de Wagner. Um grande orgulho para o Brasil! Abraços a todos do sítio movimento.com

  3. Sim, Mario, a referência, claro, era sobre o Neschling. E o Rodrigo Esteves é, sem dúvida, um dos nossos cantores mais completos. Ele será o Escamillo da Carmen que o Municipal-SP apresentará a partir de 29/05, e também o Iago do Otello que será levado em Belém em setembro próximo. Obrigado por seu comentário.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com