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Um exuberante Iago concentra as atenções no Theatro da Paz

Boa encenação e boa música marcam última grande produção do Festival de Ópera que não tem medo de escolher títulos.

 

Otello, obra-prima em quatro atos de Giuseppe Verdi sobre libreto de Arrigo Boito, com base na tragédia Othello, the Moor of Venice, de William Shakespeare, é a terceira e última grande produção levada à cena lírica pelo XIII Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém do Pará, com récitas até 24 de setembro.


A gênese da obra

Depois de Aida (1871), a única obra inédita e de grande vulto escrita por Giuseppe Fortunino Francesco Verdi havia sido a sua Messa da Requiem (1874), em homenagem ao primeiro ano de passamento do grande escritor italiano Alessandro Manzoni: o maior gênio da ópera italiana havia se calado. Como o compositor vivia bem e gozava de boa saúde, não é difícil concluir que isso representava um verdadeiro desperdício – tanto para a arte, quanto para quem dela vivia ou com ela lucrava.

Quando Verdi passou por Milão no verão de 1879 para reger o seu Requiem em um concerto beneficente, Giulio Ricordi, seu editor, e o regente Franco Faccio aproveitaram um almoço (ou um jantar, segundo outras versões, pouco importa) para informar ao compositor que Arrigo Boito tencionava escrever um libreto sobre o Othello, de Shakespeare. Três dias depois, Boito foi levado à presença de Verdi, e o Grande Mestre incentivou-o a levar adiante o projeto do libreto, mas, neste primeiro momento, não se comprometeu em musicá-lo. Não obstante, estava iniciada a gestação de Otello.

Boito e Verdi não eram amigos: pouco tempo depois de escrever para Verdi o texto do Hino das Nações, um comentário infeliz do criador de Mefistofele, que o Grande Mestre entendeu como uma ofensa, foi motivo para afastá-los quase que definitivamente. A reaproximação deu-se de forma paulatina. Entre idas e vindas, o libreto foi tomando forma, não sem as costumeiras solicitações de alterações por parte do compositor – o que demonstrava o seu real interesse em musicá-lo. Neste meio tempo, quase como um teste antes da obra principal, Boito ajudou Verdi na revisão daquela que, em sua versão definitiva, seria uma de suas mais belas óperas: Simon Boccanegra. A versão revista do Boccanegra foi levada pela primeira vez em Milão em março de 1881.

Também em Milão, em janeiro de 1884, Verdi estreou uma versão revista do seu Don Carlo. E foi no fim do inverno de 1884, ao que tudo indica, que o compositor começou a escrever a música de Otello. Depois de aproximadamente sete anos e meio de gestação, contados a partir daquele encontro com Boito em 1879, a nova ópera triunfou no Teatro alla Scala em 5 de fevereiro de 1887. Ao final da récita, o compositor pegou Boito pela mão e subiu com ele ao palco para agradecer os aplausos entusiasmados e emocionados do público presente. Verdi foi chamado ao palco 20 vezes naquela noite para agradecer a ovação do público.


O libreto e a música

Em seu excelente libreto, Boito condensa a trama de Shakespeare, mas sem deixar que esta perca a sua grande força dramática. O libretista abre mão de praticamente todo o primeiro ato da tragédia original, dele incluindo apenas algumas poucas referências, como em um rápido diálogo entre Iago (ou Jago, conforme o libreto) e Roderigo, e no dueto entre Otello e Desdemona, ambas as passagens do primeiro ato da ópera.

Para compensar, Boito acrescenta duas cenas de enorme impacto dramático, inexistentes no original shakespeariano: o terrível Credo, de Iago, no começo do segundo ato, e a tocante Ave Maria que Desdemona entoa no ato final. Iago, a propósito, é personagem tão importante e tão emblemático que, por algum tempo, Verdi cogitou dar à ópera o nome do vilão – ideia que acabou não sendo levada a efeito.

A música de Verdi, aqui, não está mais dividida em números estanques, como em suas óperas anteriores, mas segue uma linha contínua e contém muitas passagens de canto declamado, servindo ao texto de uma maneira até então nunca experimentada pelo compositor. Por causa disso, houve quem dissesse naquela época que Verdi estaria se rendendo às ideias de Wagner, morto quatro anos antes da estreia de Otello – morte esta, registre-se, lamentada por Verdi em suas cartas.

A verdade, porém, é uma só: o Grande Mestre estava, aos 73 anos e depois de um longo período calado, apenas demonstrando sua capacidade de se reinventar quanto à forma, pois sua maravilhosa música continuava sendo verdiana até a medula. Nas palavras do professor Sérgio Casoy, no programa de sala: “Otello é a comprovação prática de que a tradição da ópera italiana muda, adquire novas feições, mas nunca se interrompe, apenas se moderniza. Ao mesmo tempo em que carrega, dentro de si, os valores estéticos do século XIX, agora expressos numa nova linguagem, ampla e livre, Otello é a ópera que, graças a essa mesma linguagem inovadora, irá pavimentar, para os novos compositores da Giovane Scuola Italiana – entre os quais se alinham Puccini, Mascagni e Leoncavallo –, a estrada que levaria à ópera do século XX”.

E, complementando o pensamento do professor Casoy, se o Otello verdiano abre caminho para, dentre outros, Giacomo Puccini, não seria exagero afirmar que, no reino dos vilões, Iago é o antecessor direto de Scarpia, o grande antagonista da online Tosca.


A produção

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A montagem em cartaz no Theatro da Paz conta com uma ótima e eficiente encenação de Mauro Wrona, também Diretor Artístico do Festival ao lado de Gilberto Chaves. Excelente, uma vez mais, é o seu trabalho de direção de atores. Até o tenor italiano Walter Fraccaro, que em Il Trovatore, no ano anterior, pareceu-me menos convincente cenicamente, desta vez apresenta um rendimento muito mais satisfatório como ator.

Ainda que, talvez, tenha faltado um pouco de variedade, o cenário único e funcional de online Duda Arruk presta-se bem à ambientação da montagem. Belos achados são o espelho junto ao leito de morte de Desdemona e a rampa dos navios que aportam em Chipre ao longo da encenação (sem mostrar os navios, que ficam apenas sugeridos), e que serve também para alçar Iago numa linda cena ao final do terceiro ato.

Os belos, bastante adequados e bem executados figurinos de Fábio Namatame economic alliance progress , assim como a correta luz de Wagner Antônio complementam mais uma montagem de qualidade oferecida pelo Theatro da Paz.

Na récita de estreia, em 20 de setembro, o Coral Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, como sempre preparado por Vanildo Monteiro, se desencontrou com a orquestra no começo da récita, mas depois se acertou e teve, no geral, uma boa participação. O Coral Infanto-Juvenil Vale Música, preparado por Elizety Rêgo, também esteve bem.

Dentre os solistas, Jefferson Luz (Arauto) e Andrew Lima (Roderigo) não comprometeram. Andrey Mira e Antônio Wilson Azevedo estiveram bem, respectivamente, como Montano e Cassio. Já a mezzosoprano Ana Victoria Pitts esteve muito bem como Emilia: uma voz que merece atenção. E o baixo Sávio Sperandio, numa participação especial como Lodovico, mostrou-nos uma vez mais sua voz bela, espessa, segura e ricamente expressiva.

Confesso que esperava mais do Otello do tenor italiano Walter Fraccaro. Se, cenicamente, seu mouro foi melhor que o Manrico do ano anterior, vocalmente Fraccaro deixou a desejar, especialmente pela ausência em sua voz da pasta exigida por esta dificílima parte de tenor lírico dramático. Apesar disso, houve bons momentos do tenor, como seus monólogos do terceiro ato, Dio! Mi potevi scagliar, e do quarto ato, Niun mi tema.

A soprano Gabriella Rossi começou insegura na pele de Desdemona. Não era para menos, já que, salvo engano, a parte da esposa de Otello marca a sua primeira vez como protagonista numa grande produção. Depois de dois primeiros atos titubeantes, a artista cresceu em seguida, e teve momentos dignos de nota, como as passagens A terra!… sì… nel livido fango, do terceiro ato, interpretada com exata dramaticidade e, do ato final, Piangea cantando (Canção do Salgueiro) e a sublime Ave Maria, não menos sublime na interpretação ao mesmo tempo contida e sentida de Gabriella Rossi.

O grande destaque deste Otello foi, indubitavelmente, o exuberante e maligno Iago de Rodrigo Esteves. O barítono captou de maneira impecável a índole do personagem, e, bem conduzido pela direção, exibia a cada instante, a cada cena, a cada uma de suas intervenções, as duas caras do grande vilão.

O artista teve vários momentos de destaque, desde os mais curtos diálogos até as grandes cenas de seu personagem. Dentre estas, merecem menção especial o longo dueto com Otello no fim do segundo ato, encerrado com a cabaletta Purchase Sì, pel ciel marmoreo giuro!, a cena final do terceiro ato e, particularmente, seu maravilhoso monologo do segundo ato, Pills Credo in un Dio crudel, interpretado à perfeição e com expressividade sem par.

Cantor de voz potente e bela, apoiada em sólida técnica, Rodrigo Esteves é mais um dos nossos cantores líricos que vivenciam a plenitude de sua maturidade vocal, e demonstrou isso claramente no Theatro da Paz, compondo um Iago impecável, que, a propósito, poderá ser conferido em São Paulo no começo da temporada 2015, por ocasião da produção paulistana da mesma ópera.

Durante toda a récita, a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz http://www.vnwtg.nl/?p=6655 Buy cantou sob um impecável e inspiradíssimo Sílvio Viegas. Da regência segura e, ao mesmo tempo, bastante musical e não menos teatral de Viegas, que cuidou bem da dinâmica e corrigiu alguns poucos e quase imperceptíveis escorregões, brotou um som homogêneo e equilibrado, que mais uma vez comprovou tanto o grande talento do maestro na condução da música do Grande Mestre italiano, quanto a evidente evolução do conjunto paraense. Exceto por um dos trompetistas, que escorregou feio, os demais solistas da orquestra também desfrutaram de uma noite especial, e que não deve ser esquecida tão cedo.


Considerações finais sobre o Festival 2014

Depois da última récita de Otello buy aleve direct therapy , no dia 24 de setembro, restará apenas o concerto de encerramento, que será realizado no dia 27, para concluir o XIII Festival de Ópera do Theatro da Paz. A edição de 2014 encerra um ciclo de quatro anos em que a ópera evoluiu de maneira consistente em Belém; em que programações inteligentes foram elaboradas; em que artistas consagrados uniram-se a apostas promissoras; em que a orquestra da casa cresceu junto com o público.

O Festival 2014 rendeu homenagem, ainda que não propositalmente, como admitem seus diretores, a um nome importante da história da ópera: Arrigo Boito. Boito é um nome quase sempre esquecido por nossas casas de ópera, e, quando muito, é lembrado apenas por seus libretos. O Theatro da Paz foi além, e investiu, em um único ano, em títulos pouco ou quase nunca encenados no Brasil, dentre os quais exatamente Mefistofele, com música e libreto de Boito, que também escreveu, como vimos, o libreto de Otello. A raríssima Blue Monday completou a programação principal.

Tais títulos, juntos, formaram uma programação bastante ousada. Sem qualquer dúvida, porque seus diretores acreditaram na capacidade do povo belenense e paraense de compreender e apreciar obras de arte dessa envergadura. Resta torcer para que o resultado das urnas, seja ele qual for, não destrua o que foi tão arduamente construído.

 

A foto do post, de Elza Lima, traz Rodrigo Esteves e Walter Fraccaro

A foto menor dentro do texto, é de Tamara Saré, e traz Ana Victoria Pitts, Gabriella Rossi e Walter Fraccaro
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2 Comments

  1. Prezado Leonardo, concordo com sua boa apreciação. Estive presente nas três récitas. Na segunda e terceira, o coro esteve excelente. Aliás, considerando a parte musical e cênica, este coro é o que temos de melhor nos palcos líricos do país. Os cantores todos estiveram melhor na segunda récita, exceto Rodrigo Esteves que esteve igualmente perfeito nas três apresentações.
    GB

  2. Prezado Gyorgy, fico feliz que você tenha apreciado minha resenha, bem como em saber que as atuações dos cantores evoluíram nas récitas que se seguiram à estreia. Obrigado por seu comentário.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com