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Tudo em “vorta” é só beleza

Musical Gonzagão – A Lenda presta nobilíssima homenagem ao Rei do Baião.

Exu é um pequeno município no sertão pernambucano que entrou no mapa graças a um filho ilustre. Foi ali, em 1912, que nasceu Luiz Gonzaga do Nascimento, menino que, com sua arte e sua sanfona, transformou-se no Rei do Baião, apresentando ao resto do Brasil o xote, o xaxado e o baião. No lastro do centenário do nascimento desse artista de alta estirpe, foi montado o espetáculo Gonzagão – A Lenda, que volta ao cartaz no Rio de Janeiro (no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes) apenas até 26/1/2014, depois de circular por um ano pelo país e arrebatar vários prêmios – melhor música no Prêmio Shell de Teatro 2012, melhor produção no 7º Prêmio APTR e, no Prêmio Fita 2013, melhor espetáculo (júri popular), melhor direção e melhor figurino.

Láureas merecidíssimas: Gonzagão – A Lenda irradia alta voltagem cênica e dramática. À frente da montagem, o também pernambucano diretor João Falcão demonstra pleno domínio das possibilidades das tarefas que executa. No texto, fugindo do didatismo, costura apenas o essencial da trajetória do músico, apresentando, por meio do recurso de uma companhia de teatro que encena a vida do personagem, elementos fundamentais recriados com economia e precisão suficientes para a fluida condução da trama.

É na direção que Falcão sublinha seu talento. O espetáculo é conduzido com vigor, mantendo elevada a tensão dramática, sem que o público consiga desgrudar os olhos da cena, em uma sucessão de belíssimos momentos – para os quais é inestimável a contribuição de profissionais de alto quilate, como Sergio Marimba (o simples e elegante cenário e os adereços que trazem o Nordeste à cena com grande beleza), Kika Lopes (lindos e funcionais figurinos), Uirandê Holanda (visagismo) e Renato Machado (uma arrebatadora iluminação).

O roteiro musical, também de Falcão, traz, em excelentes arranjos e direção musical de Alexandre Elias, o suprassumo das composições de Gonzagão, muito bem integradas ao percurso dramático do espetáculo. Estão lá as preciosidades Cintura Fina, Qui Nem Jiló, Xote das Meninas e, como não poderia deixar de ser, a célebre Asa Branca (escrita com Humberto Teixeira). Para interpretá-las, quatro ótimos músicos acompanham os atores em cena: o sanfoneiro Rafael Meninão, o percussionista Rick de La Torre, o violoncelista Daniel Silva e o rabequeiro e violeiro Beto Lemos – que arranca aplausos em cena aberta com sua arrepiante interpretação de Assum Preto .

Mais que atores

Um dos dilemas de levar ao palco biografias musicais é: como encontrar atores capazes de cantar bem e eliminar, com o encanto da voz, as terríveis comparações entre intérprete e personagem. Alguns conseguem – como a Judy Garland criada por Claudia Netto na peça sobre a artista norte-americana (leia crítica aqui). Em Gonzagão – A Lenda, basta a primeira emissão vocal para a constatação: são bem mais que atores.

Impecável é adjetivo que bem descreve o trabalho dos atores Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros. Todos, em maior ou menor grau, surpreendem física e vocalmente, mas merecem loas especiais Adrén Alves (que rouba a cena como a mãe do artista) e Fábio Enriquez (como Luiz menino). Para a exuberância em cena, devem ter contribuído sobremaneira a direção de movimento de Duda Maia e a preparação vocal de Carol Futuro.

Dois “novatos”, no entanto, seduzem os holofotes. Narrando boa parte da história, Marcelo Mimoso traz a música no sangue: esse taxista e filho de sanfoneiro canta (e encanta) a maioria das músicas da peça. Já Larissa Luz não se destaca apenas por ser a única mulher do elenco. A ex-cantora do grupo baiano Ara Ketu estreia no teatro como os amores de Gonzaga: Nazarena (o primeiro grande amor) e Odaléa (a mãe de Gonzaguinha), chamadas de Rosinha e Morena. Além da voz educada, de timbre particular, Larissa encanta com graça e brejeirice (tendo sido indicada ao prêmio de melhor atriz no Fita 2013).

Ao olhar para o palco, é só beleza que vemos em vorta nessa merecida homenagem a um rei nordestino que saiu de casa “malero, bochudo, cabeça-de-papagaio, zambeta, feeei pa peste!” e anos mais tarde, “gordo que parece um major”, transformou, com seu fole, os ensinamentos de seu pai Januário em um gênero musical inscrito como patrimônio nacional. Êta cabra arretado, esse Gonzagão!

 

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com