CD/DVDCríticaLateralMúsica de câmara

Tuba solitária

Albert Savino Khattar é o primeiro tubista brasileiro a gravar um CD solo, Tuba Brasilis.

 

Albert Savino Khattar tem um gosto particular. O paulista poderia ter escolhido o exibido violino, ou talvez a sinuosa clarineta, ou ainda o autossuficiente piano – mas não. Sua opção foi pela mastodôntica tuba, instrumento surgido na primeira metade do século 19 e logo incorporado à orquestras e bandas de música, nas quais tem um papel muito importante.

Capa do CD

Foi com sua tuba que o músico gravou o CD Tuba Brasilis, o primeiro álbum solo do instrumento gravado no país. Lançado em 2016, o CD conta também com a participação da pianista Miriam Braga.

“A ideia [da gravação] começou a ter forma concreta durante a realização do mestrado, no qual pude aprofundar a pesquisa do repertório brasileiro para tuba. Naquele momento, além do anseio em realizar este sonho, percebi a necessidade em iniciar o registro deste repertório. Mesmo realizando diversos recitais e concertos anualmente, nada como o registro audiofônico para auxiliar a difusão destas obras”, conta Khattar no encarte.

Integram o repertório doze peças de nove compositores brasileiros como Osvaldo Lacerda, Pixinguinha, Liduino Pitombeira e Francisco Mignone (e um anglo-brasileiro, Peter Koval). Três composições exclusivas de José Ursicino da Silva, o Maestro Duda, integram o álbum – incluindo a obra que abre o disco, Concertino n. 1. Em três movimentos, incorpora ritmos tradicionais pernambucanos, como o maracatu e o frevo, além da valsa, em uma obra de aparência simples, mas regada a balanço e grande doçura.

Rosa, clássico do cancioneiro popular composto por Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, é gravada com arranjo de Antônio Guerra que dá à conhecida melodia certa atmosfera de velado romantismo – como um Cyrano de Bergerac platonicamente apaixonado, fazendo, em surdina, declarações de amor à sua Roxane.

Consta que Osvaldo Lacerda foi o primeiro compositor brasileiro a escrever uma peça para tuba e piano. Em 1978, nasceram Canto e Rondó. A primeira tem caráter soturno, divagador, no qual a melodia corre como uma autorreflexão. Já a segunda é enérgica e vigorosa, cosmopolita e moderna.

Inspirada pela poesia de Fernando Pessoa, Nevoeiro, de Fernando Deddos, tem ondulação acentuada, com uso de respirações rítmicas, e muita energia. O intérprete se desdobra entre as demandas técnicas da partitura e mesmo a declamação da obra ainda atualíssima do português: “Ninguém sabe que coisa quer. / Ninguém conhece que alma tem, / Nem o que é mal nem o que é bem. / (Que ânsia distante perto chora?) / Tudo é incerto e derradeiro. / Tudo é disperso, nada é inteiro. / Ó Brasil [Portugal], hoje és nevoeiro…”

Outra composição de Osvaldo Lacerda integra o repertório: é Seresta, terceiro movimento do Quinteto Concertante para metais, adaptada para tuba pelo próprio compositor. A melodia de belíssimo tema carrega o olhar do ouvinte para longe, embalada pela sensível interpretação de Khattar e Miriam, sentimental e lírica.

Seis pequenos movimentos integram o Divertimento para tuba e piano, de Francisco Mignone. As peças podem até parecer brincadeira (e são bastante bem-humoradas), mas exigem técnica dos intérpretes para dar unidade, harmonia e sentido às frases distintas que correm paralelas com súbitas mudanças de intenção. A Valsa Seresteira, por exemplo, remete às modas de viola dedilhadas sob a luz da lua do sertão. Com apenas 28 segundos de duração, Brejeiro é uma gota de brasilidade.

Do cearense Liduino Pitombeira – colega de Khattar como professor na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro –, a Seresta n. 14 relata a história sofrida do povo nordestino, pautando-se na tradição da cultura armorial. São dois movimentos: Cantiga e Baião. No primeiro, o tubista arranca sentimentos das notas graves de seu instrumento como quem descobre vida onde se vê apenas seca. Já a segunda é entremeada por uma dicção perfeita do piano, marcando as alterações rítmicas.

Renata, de Fernando Morais, é uma belíssima valsa atemporal, na qual os instrumentos bailam em perfeita sincronia, derramando sentimento.

A Fantasia Sul América foi composta por Claudio Santoro em 1893 para o Concurso Jovens Intérpretes da Música Brasileira. Escrita com personalidade e dissonâncias, a obra é um longo solo de tuba (pode ser interpretada também com solista e orquestra). Khattar brilha sozinho, alternando suavidades e malícia.

Leve e divertida, a Polka Profunda, de Peter Koval, foi escrita para Albert Khattar nos idos de 2010. Exige virtuose dos instrumentistas (em particular do solista), mas recompensa com uma melodia alegre e animada, que traz um sorriso aos lábios.

As duas últimas obras do CD são composições de Mestre Duda dedicadas ao tubista. Chorando na tuba, Albert é um choro sincopado e brejeiro, resposta do compositor ao intérprete que vivia “chorando” por peças novas. Por fim, a valsa Ela se chama Paola – para o intérprete, a obra mais especial do CD pois dedica-se à sua esposa.

Ainda no texto do encarte, Khattar afirma que Tuba Brasilis é “o primeiro volume de uma série. São tantas as obras importantes e que precisam de divulgação em um país com escassez de informações a esse respeito, que seria impossível escolher apenas algumas”. Que assim seja. Além de jogar luz sobre o reluzente instrumento, muito conhecido mas ainda pouco familiar, o CD apresenta dois artistas em ótima forma – Khattar na tuba e Miriam ao piano – e ainda dá vida à obras que merecem ser amplificadas. Bom saber que, sozinha ou acompanhada, a tuba é capaz de fazer um barulhão.

Albert Khattar e Miriam Braga

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com