CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

A tragédia da opressão

Ópera inédita recebe “BOA” interpretação de músicos e cantores.

 

A primeira edição da Bienal de Ópera Atual (BOA) encerra-se no dia 17 de setembro, com a última récita (às 19h30, entrada franca) de Medeia, ópera em prólogo, sete cenas e epílogo com música e libreto de Mario Ferraro. Antes, no começo de setembro e no mesmo Salão Leopoldo Miguez, da Escola de Música da UFRJ, já havia sido apresentada A Ópera do Mambembe Encantado, de Eli-Eri Moura (leia crítica).

A condição da mulher na(s) sociedade(s) é um tema atualíssimo, e o compositor foi buscar na tragédia grega de Eurípedes a inspiração para abordá-lo e, ao mesmo tempo, criticar a opressão feminina ao longo da História. O drama de Medeia é conhecido: apaixonada por Jasão, a princesa da Cólquida trai seu próprio povo para ajudar o amado a fugir e vencer seus inimigos. Jasão, porém, abandona-a para se casar com Creusa, filha do rei Creonte. Medeia vinga-se matando a princesa e o rei, e também os dois filhos que teve com Jasão, extinguindo assim a descendência do traidor.

É o próprio Mario Ferraro que explica a estrutura da peça: “No trato dramatúrgico-musical, a protagonista é construída de forma tripartida por soprano, mezzo e contralto, em confronto com Jasão (tenor) e Egeu (baixo-barítono), figuras masculinas também antagônicas entre si. Esse ‘jogo de forças’ é sublinhado pelas diferenças de timbre e tessitura, nos diálogos entre soprano e coro (as outras duas cantoras, sempre em revezamento com a Medeia da vez), mezzo e baixo-barítono, e contralto e tenor”.

Na estreia do dia 15, a obra pareceu-me começar um tanto fria e até mesmo monótona, mas, a partir da terceira cena, entre Jasão e a chamada Medeia III (contralto), a tensão elevou-se a um nível satisfatório, e assim seguiu até a cena derradeira. Um dos pontos altos foi a bela e instigante orquestração de Ferraro, muito bem defendida pelo Abstrai Ensemble, com destaque para suas expressivas cordas graves. O maestro Carlos Prazeres conduziu com grande sensibilidade. Antes de começar, o regente se dirigiu ao público para informar que todos poderiam acompanhar o libreto pelo celular (altamente recomendável, pois não é fácil entender todo o texto).

Cenicamente todos os solistas estiveram bem, com boa atuação dentro da proposta de encenação concebida pela direção. Dentre as três intérpretes de Medeia, quem mais se destacou vocalmente foi a contralto Adalgisa Rosa (Medeia III). Com uma voz bem projetada e bastante expressiva, ela demonstrou o ciúme e o rancor da personagem. Seu primeiro embate com Jasão, como acima relatado, foi o ponto de virada da tensão dramática da noite.

Adalgisa Rosa e Gustavo Quaresma (foto de SebastiA?o Castellano)
Adalgisa Rosa e Gustavo Quaresma

 

Lorena Espina (mezzosoprano, Medeia II) também esteve bem, exibindo o sofrimento e o lado mais sensível da personagem. Já Doriana Mendes (soprano, Medeia I) começou irregular, mas afirmou-se ao longo da récita, apresentando, a propósito, a atuação cênica mais consistente da noite, ao trabalhar o conflito de sentimentos da protagonista e elaborar a vingança final. O tenor Gustavo Quaresma (Jasão) exibiu um bom material vocal, com um belo timbre e expressividade. O experiente baixo-barítono Licio Bruno viveu Egeu com a competência que marca sua carreira e com a voz poderosa de sempre.

No espaço cênico limitado do Salão Leopoldo Miguez, criatividade é necessária. O diretor Marcelo Gama optou por enfatizar a maneira como a mulher foi tratada durante séculos e séculos (e ainda é em certos lugares): como um ser inferior, uma escrava. Ao fazer com que um dos dois cantores homens acorrente as intérpretes de Medeia (com uma coleira) sempre que elas vão à frente do palco para atuar destacadamente, Gama aponta o dedo para a atitude opressora masculina ao longo da História humana. Ricardo Cosendey criou um cenário simplíssimo, mas suficiente, e figurinos corretos, enquanto a luz de Luíza Ventura funcionou bem. Ruben Gabira assina a correta coreografia.

O maior mérito da BOA é abrir espaço para a produção contemporânea. Que venham outras edições, com novas obras e também outros compositores.

Doriana Mendes e Licio Bruno (foto de SebastiA?o Castellano)
Doriana Mendes e Licio Bruno

 

Fotos: Sebastião Castellano

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com