CríticaÓpera

“Tosca” no Rio de Janeiro com artistas superlativos

Sondra Radvanovsky e Juan Pons conquistam o Rio, enquanto Lício Bruno se destaca na segunda récita.

Amor, desejo, ciúme, perseguição política, tortura, assassinato, pena de morte (por fuzilamento) e suicídio.  Não, não é receita de novela, nem mesmo a última edição de um jornal.  Esses são os ingredientes de Tosca, terceiro título da atual temporada lírica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e um dos marcos do verismo italiano.

Ópera em três atos de Giacomo Puccini, sobre libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, com base no drama de Victorien Sardou, Tosca é marcada ainda por célebres passagens musicais e por um dos atos (o segundo) mais fortes de toda a história da ópera.

A trama narra o amor entre a cantora lírica Floria Tosca e o pintor Mario Cavaradossi, este um entusiasta de ideias libertárias que ajuda o republicano Cesare Angelotti a se esconder depois de sua fuga da prisão do Castel Sant’Angelo.  O Barão Scarpia, um homem extremamente sádico, na qualidade de chefe da polícia de Roma investiga a fuga de Angelotti e suspeita firmemente da cumplicidade de Cavaradossi.  Querendo descobrir o paradeiro do pintor, Scarpia desperta ciúme em Tosca, utilizando-se de uma evidência forjada.  A cantora corre até a casa de seu amado, mas é seguida por policiais.  Estes, não encontrando Angelotti, prendem Cavaradossi e o levam para o Palazzo Farnese.

Depois de ser interrogado e torturado, Cavaradossi é condenado à morte e sai de cena.  Scarpia, vil e lascivo, mente para Tosca, fingindo interesse de salvar o pintor em troca de seus favores sexuais.  Reticente num primeiro momento, ela acaba cedendo.  Ao tentar abraçá-la, o Barão experimenta o “beijo de Tosca”, uma punhalada no peito.  Ela ainda consegue correr até seu amado Mario, mas só então descobre a última crueldade de Scarpia: a mentira sobre um falso fuzilamento.

Este é só um breve resumo da ação.  A obra é, obviamente, bem mais rica em detalhes e na caracterização dos personagens.  É também muito eficiente dramaticamente, embora seja perceptível uma queda na intensidade do drama na passagem do segundo ato para o terceiro – uma redução até certo ponto natural, pois seria muito difícil manter tão elevada a tensão depois de um ato de ópera soberbo como o segundo.

Acompanha tudo isso uma música magistralmente escrita por Puccini, que abre a ópera com os acordes do violento tema de Scarpia.  As melodias características do compositor, o precioso colorido orquestral, o solo de clarinete precedendo a grande ária do tenor no último ato, tudo contribui para a eficácia da ação dramática desta que é uma das óperas mais representadas de todos os tempos – e não o é por acaso.

Para que Tosca funcione adequadamente no palco, são necessárias vozes qualificadas e uma encenação convincente.  No Municipal do Rio, onde grandes produções cênicas não dão o ar de sua graça há bastante tempo, a montagem de Carla Camurati, para não fugir à regra, é bastante simples, mas convence bem, exceto pelo último ato.  Considerando sua concepção cenográfica baseada em pinturas em perspectiva de Giovanni Battista Piranesi, os dois primeiros atos são razoavelmente ambientados, apesar de alguns senões que podem desagradar aos mais tradicionais, como por exemplo o fato de a câmara de tortura de Scarpia se situar no patamar inferior e não numa sala contígua; ou então a mesa um tanto discreta para um aposento do Palazzo Farnese; ou quem sabe as ausências em cena da entrada da capela Attavanti e das velas ao lado do corpo de Scarpia no final do segundo ato.

Tudo isso, no entanto, é o tipo da coisa que depende do freguês.  Há quem sentirá falta de uma observação mais acurada das rubricas do libreto, enquanto outros considerarão tais liberdades aceitáveis.

Já a ambientação do terceiro ato não se sustenta tão bem.  Ao contrário das duas partes precedentes, não há um pano de fundo que ajude a situar a ação, apesar da clareza do libreto, segundo o qual o Vaticano e a Basílica de São Pedro seriam vistos ao longe.  E, pior, o anjo do Castel Sant’Angelo é apenas sugerido através de um pequeno pedaço de asa.  A imagem projetada na cortina do palco, durante a introdução orquestral e o pequeno solo do pastor, não ajuda muito, e o que temos é uma clara quebra na proposta inicial, com o terceiro ato parecendo isolado daqueles que o precederam.

Apesar de tais observações, temos mais acertos que equívocos, e a ópera passa bem, com figurinos corretos de Cecília Modesto e iluminação adequada de Lauro Escorel.  Como outros pontos positivos, cito: a correta divisão dos atos, sem junções cansativas; as projeções utilizadas com discrição e que não se sobrepõem à ação dramática; uma razoável movimentação cênica; a convincente queda de Tosca (apesar de a mesma ser interpretada por uma atriz, enquanto a soprano canta da coxia); o acerto na contratação de solistas internacionais qualificados; e o simples fato de que a concepção, embora bastante simples, por outro lado nos faz o favor de não tentar reinventar a pólvora – o que já ajuda bastante nos tempos atuais.  Nem por isso, deixo de perguntar: será que algum dia voltaremos a admirar no Municipal cenários como aqueles da Traviata de 2001?

Nas duas primeiras récitas, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Maurílio dos Santos Costa, esteve muito bem no Te Deum que encerra o primeiro ato.  Também esteve bem o Coral Infantil da UFRJ, por sua vez sob os cuidados de Maria José Chevitarese.

Já a Orquestra Sinfônica do Municipal, sob a condução de Silvio Viegas, esteve bastante instável.  Na estreia, interpretava Puccini razoavelmente até que no terceiro ato a coisa desandou, com cordas hesitantes e alguns outros escorregões.  Antes do ato final, o público aprovara o desempenho da orquestra, pois, quando Viegas voltou pela última vez ao pódio, ele e seus músicos foram bem aplaudidos.  Já na segunda récita, o que não estava bom piorou um pouco, e a instabilidade se fez presente durante toda a noite.  Uma orquestra que no período de um ano ofereceu um memorável War Requiem de Britten, uma excelente Giselle de Adam, e leituras consistentes do Romeu e Julieta de Gounod e do Nabucco de Verdi precisa refletir sobre o que ocorreu nesta Tosca.

O barítono Ciro D’Araújo deu para o gasto como Sciarrone, enquanto o baixo Carlos Eduardo Marcos fez um Angelotti correto.  Taluya Góes (Pastor) foi muito bem em seu solo, e o tenor Geilson Santos (Spoletta), que enfrentou parte mais grave que o ideal para sua voz, também esteve bem, em especial na segunda récita.  O barítono Eduardo Amir fez um Sacristão engraçado na medida certa, mas com voz irregular.  Da comparsaria, quem chamou mesmo a atenção foi o baixo Frederico de Oliveira, um Carcereiro de belo timbre e voz muito bem projetada.

Na récita de estreia, em 11 de setembro, o tenor Thiago Arancam começou vacilante como Mario Cavaradossi, e sua primeira ária, buy indomethacin 50mg on line Recondita armonia, não rendeu bem.  Ao longo da récita, oscilou entre momentos melhores e outros nem tanto.  Em sua ária do terceiro ato, E lucevan le stelle, convenceu um pouco mais.  Sua voz certamente tem bons predicados, como um belo timbre e alguns bons agudos, mas o solista muitas vezes “colocou a voz atrás”, o que prejudicou sua projeção em meio às duas feras com quem contracenou.  Thiago desenvolve uma carreira na Europa e nos Estados Unidos, opção bastante acertada e que lhe dá a experiência que jamais teria no Brasil, e ainda pode evoluir bastante.  Aguardemos uma nova oportunidade de ouvi-lo.

A soprano norte-americana Sondra Radvanovsky é dona de uma voz volumosa e muito bem projetada em todas as regiões de sua tessitura, desde graves bem sonoros até agudos retumbantes.  É também uma atriz de primeira linha, e ofereceu no Municipal uma das melhores performances de uma soprano naquele palco nos últimos anos.  Desde o primeiro dueto com Cavaradossi, passando pelas cenas fortes com Scarpia nos dois atos iniciais, até chegar ao dueto final, O dolci mani, sua Tosca encantou o público a tal ponto, que este, depois de aplaudi-la calorosamente, pediu bis para a sua expressiva Vissi d’arte, a grande ária da protagonista.

Através de uma discreta troca de sinais com o maestro, a americana, que a princípio pareceu surpresa com o pedido do público, decidiu quebrar o protocolo e bisou esta pérola de Puccini.  Sua performance geral foi daquelas que devemos guardar na memória por alguns bons anos.  Uma rápida passada de olho em seu currículo mostra que Radvanovsky não canta em qualquer lugar, e, por isso mesmo, a direção do Theatro Municipal marcou um gol de placa ao trazer esta bela artista ao Rio de Janeiro.

Outra contratação bastante acertada e outro artista superlativo é o grande barítono espanhol Juan Pons.  Seu Scarpia carnefice foi simplesmente sublime, de uma expressividade única e com um domínio de palco exemplar, mesmo quando a cena era mais estática.  Um simples gesto com a mão, um olhar cínico e traiçoeiro, cada pequeno movimento de Pons não era desprovido de significado dramático.

Sua presença dominadora e perversa enfeitiçou o público, que o ovacionou quando ele, acertadamente, foi mandado para frente da cortina no final do segundo ato.  Suas principais passagens (Va, Tosca!; Ha più forte sapore; e Già, mi dicon venal) mostraram uma voz luminosa, forte, muito bem projetada e baseada em uma técnica corretíssima.  Esta voz pode não ser a mesma de outros tempos, mas não deixa margem para qualquer comentário negativo.  É uma honra receber Juan Pons no Rio de Janeiro.

Na récita de 13 de setembro, a soprano japonesa Eiko Senda não me convenceu como a protagonista.  Senda enfrentou problemas de projeção na região média de sua tessitura, além de ter exibido alguns agudos gritados.  Fez um Vissi d’arte não mais que razoável.  Já o tenor italiano Riccardo Massi vinha se equiparando ao colega brasileiro que cantara na estreia, até que no último ato disse finalmente a que veio, mostrando-se expressivo em E lucevan le stelle, e projetando muito bem a voz.  Massi, assim como Arancam, tem um bom material que, lapidado, ainda pode crescer bastante.

O que houve de melhor na segunda récita foi sem dúvida o baixo-barítono Lício Bruno, que compôs um Scarpia diferente daquele de Juan Pons.  Mais visceral e lascivo, e com variações de algumas marcações cênicas em relação à performance do colega espanhol, o Scarpia do solista brasileiro atinge um ótimo padrão.  Seu melhor momento foi o monólogo do primeiro ato, Va, Tosca!.  Esta foi a estreia de Lício Bruno na pele do Barão, e ele certamente evoluirá ainda mais a cada nova oportunidade de interpretar esta figura terrível, destinada aos grandes intérpretes.  Não é qualquer cantor que se reveza com Juan Pons e consegue se destacar.

Pode-se perceber, portanto, que esta Tosca está longe de ser perfeita, mas tem ingredientes que valem o ingresso.  Sondra Radvanovsky e Juan Pons são desses cantores líricos de justificado renome que raramente aparecem no Brasil e, quando temos a oportunidade de apreciá-los, não devemos desperdiçá-la.

A próxima e última ópera programada pelo Theatro Municipal para esta temporada é O Castelo do Barba-Azul, obra-prima de Béla Bartók, com récitas a partir de 03 de dezembro.  Se a ópera efetivamente subir ao palco, como se espera, será a primeira vez em uma década que o Municipal cumprirá uma temporada anual de óperas sem nenhum famigerado cancelamento – o que seria um bom sinal.

 d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);}

2 Comments

  1. Prezado Leonardo Marques, assisti às três primeiras récitas de TOSCA no Theatro Municipal e concordo inteiramente com sua crítica referente às duas primeiras.

    Apenas acrescento que na terceira récita, dia 14, percebi sensível melhora no desempenho do tenor Thiago Arancam, que projetou a voz mais satisfatoriamente e teve, agora sim, uma boa atuação. A orquestra também estava um pouco melhor.

    Só lamento pelos dois novos bis. Creio que em ópera, o bis deve ser uma exceção e não uma regra. Na estreia até foi legal, mas nesta terceira apresentação não acho que os dois bis (o segundo foi E lucevan le stelle) deveriam ter sido dados. Enquanto há teatros que se orgulham de contabilizar há quantos anos não dão um bis, o Municipal do Rio deve tomar cuidado para não vulgarizar demais esta prática que, na verdade, quebra a ação dramática da ópera.

Leave a Response

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com