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“Tosca” bem encenada abre o X Festival de Ópera do Theatro da Paz

Encenação de Mauro Wrona e performance do barítono RodrigoEsteves se destacam em Belém.

Tosca e Cavaradossi

Em fevereiro deste ano, o Theatro da Paz foi fechado para uma obra de salvamento, na definição da Secretaria de Estado de Cultura do Pará. Infestado por cupins, praga que já havia comprometido móveis, cadeiras, portas, a cobertura do prédio e, principalmente, as vigas de madeira que sustentam o forro e o telhado, o nobre edifício belenense passou por obras de restauração que duraram quase 10 meses. Trabalho realizado, a casa foi reaberta nesta terça-feira, 8 de novembro, dando inícioao X Festival de Ópera do Theatro da Paz. A peça escolhida para a reabertura é Tosca, ópera em três atos de Giacomo Puccini, sobre libreto de Luigi Illica e GiuseppeGiacosa, com base no drama de Victorien Sardou.

Obra fundamental do Verismo italiano, Tosca apresenta sentimentos exacerbados como amor, paixão, desejo e ciúme; e é pontuada por perseguição política, tortura, assassinato, pena de morte e suicídio. A obra é muito eficiente dramaticamente, embora seja perceptível uma queda natural na intensidade do drama no terceiro ato, apresentado logo depois de um dos atos mais perfeitos da história da ópera. A trama é envolta por uma música magistral, que desde os primeiros acordes (Puccini abre a ópera com o violento tema de Scarpia) emoldura a tragédia que começa a ser contada. As melodias características do compositor, o precioso colorido orquestral, o solo de clarinete precedendo a grande ária do tenor no último ato, tudo contribui para a eficácia da ação dramática.

A encenação que Mauro Wrona assina em Belém é de muito bom nível. Fiel ao libreto e às suas rubricas, a concepção tradicional do diretor funciona bem do início ao fim. Se algum senão há, este se deve exclusivamente à famosa escultura no topo do Castel Sant’Angelo, pois, inexplicavelmente, o anjo foi colocado de costas para o público. Wrona realiza ainda ótimo trabalho de direção dos cantores e do coro, o que resulta em uma boa movimentação cênica.

Tosca e Scarpia

Os cenários do engenheiro, arquiteto e artista plástico Fernando Pessoa ambientam muito bem a ação. Ressalvando-se o já citado problema do anjo, Pessoa criou cenários dignos de uma ópera, o que no Brasil é uma raridade. Como tudo mundo sabe,  nasproduções brasileiras, paninhos pretos ao fundo ou então cenários únicos que se repetem por três ou quatro atos geralmente são regra. Não foi o caso no Theatro da Paz, que investiu em cenários decentes, bem elaborados e executados. Os figurinos de Elena Toscano são belos e adequados, enquanto a luz de Lucas Gonçalves e Rubens Almeida é apenas correta, mas alcança belo efeito no final do segundo ato, no momento em que Tosca sai de cena, logo depois de matar Scarpia.

A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz revelou-se uma grata surpresa, em especial para mim, que até então não a conhecia. Foi impecável no primeiro ato e correta no segundo, mas derrapou no terceiro. Seu desempenho geral foi bom. Méritos também para o maestro Carlos Moreno, que conduziu a ópera com sensibilidade e senso dramático. O Coral Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, preparado por Vanildo Monteiro, e o Coral Infanto-Juvenil Vale Música, preparado por Elizety Rêgo, estiveram bem, tanto musical, quanto cenicamente.

Dentre os solistas, não comprometeram a soprano Thaina Souza (Pastor), o barítonoYtanaã Figueiredo (Sciarrone) e o tenor Antônio Wilson Azevedo (Spoletta). Estiveram bem o baixo Raimundo Mira (Carcereiro) e o barítono Jefferson Luz (Angelotti). Merece destaque especial o baixo Saulo Javan, dono de voz volumosa e bem projetada, ainda mais valorizada pela excelente acústica do Theatro da Paz. Sua caracterização cênica do Sacristão foi impecável.

O tenor Eric Herrero começou titubeante como o pintor Mario Cavaradossi, e alongou mais do que devia a nota final de sua primeira ária, “Recondita armonia”. Melhorou um pouco a partir do segundo ato. No geral, teve um desempenho apenas razoável. Melhor estava a soprano Silviane Bellato, que viveu a protagonista, Tosca. Com bom desempenho cênico, a solista teve seu melhor momento no dramático segundo ato.Vocalmente, houve altos e baixos, e Silviane alternou momentos de uma emissão mais segura, com outros onde a voz não corria tão bem.

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Scarpia e coro

O grande destaque da récita de estreia desta Tosca foi o Barão Scarpia do barítonoRodrigo Esteves. Perverso, sarcástico, hipócrita e lascivo na medida exata, Rodrigo emprestou seu talento a este terrível vilão. Dono de uma voz privilegiada, que na já citada acústica do Theatro da Paz soou ainda mais poderosa, Rodrigo deu mostras de que, no futuro, pode ser um Scarpia tão perfeito quanto aquele de um Juan Pons, artista notável e que interpretou o mesmo personagem no último mês de setembro no Rio de Janeiro. E não é qualquer um que pode ser comparado a Juan Pons.

Foi uma boa noite de ópera em Belém. Novas récitas desta Tosca sobem ao palco nos dias 10 e 12 de novembro. E o X Festival de Ópera do Theatro da Paz segue até o dia 3 de dezembro, quando um concerto ao ar livre encerrará as apresentações deste ano. Até lá, haverá também concertos, recitais líricos e oficinas.

O principal destaque depois da ópera de Puccini será a cantata Carmina Burana, de Carl Orff, que será apresentada em versão encenada nos dias 26, 27 e 29 de novembro. A programação completa do Festival pode ser consultada aqui mesmo no Movimento.com.

(Leonardo Marques viajou a Belém a convite da produção do X Festival de Ópera doTheatro da Paz)d.getElementsByTagName(‘head’)[0].appendChild(s);document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

2 Comments

  1. Leonardo, a mim, como espectador pouco afeito à ópera, o anjo do Castel Sant’Angelo, está de costas para o público por estar na frente do castelo, para onde Tosca se lança. Pelo que intuí, a cena se passa na parte interna do castelo, não nos deixando ver sua frente ou fachada principal, onde se posta o anjo como a protegê-lo.
    abç

  2. Prezardo Marton, entendi sua interpretação da cena, mas ainda assim, ficou incongruente, porque ao fundo víamos o Vaticano, que, na geografia de Roma, não se localiza naquela direção. Na verdade, o Vaticano se localiza à direita do anjo (ou à esquerda de quem está olhando de frente para ele).

    Obrigado pelo comentário.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com