CríticaLateralÓperaSão Paulo

Todo o poder da mA?sica de Carlos Gomes

Coro, Orquestra e boas vozes garantem alto nA�vel de Fosca no TMSP. EncenaA�A?o tem altos e baixos.

 

Paolo, um nobre veneziano, A� capturado por piratas da A?stria (territA?rio que atualmente se divide entre a CroA?cia, a EslovA?nia e um pequenino pedaA�o da ItA?lia), e o chefe dos corsA?rios, Gajolo (lA?-se “GaiA?lo”), pretende cobrar um resgate por ele. A tambA�m pirata Fosca (lA?-se com o “o” fechado: “FA?sca”), irmA? de Gajolo, apaixonou-se pelo veneziano e se opA�e A� sua libertaA�A?o. O lA�der do bando, porA�m, estA? irredutA�vel, pois diz que a palavra de um corsA?rio deve ser mantida, e ele a empenhou garantindo a libertaA�A?o de Paolo mediante o pagamento que o velho Michele Giotta se propA?s a fazer pelo filho. Por sua vez, Paolo nA?o cede ao assA�dio de Fosca, pois estA? apaixonado por Delia, uma jovem veneziana. E Cambro, escravo de Gajolo, ambiciona tomar Fosca por esposa e trair seu senhor para tomar-lhe o posto de chefe dos corsA?rios.

A� assim que comeA�a Fosca, A?pera em quatro atos e seis cenas de AntA?nio Carlos Gomes sobre libreto de Antonio Ghislanzoni (o mesmo que escreveu para Verdi o libreto de Aida), com base na novela La Festa delle Marie (A Festa das Marias), de Luigi Capranica, e que encerra a temporada lA�rica 2016 do Theatro Municipal de SA?o Paulo, com rA�citas atA� 17 de dezembro.

Para muitos estudiosos a melhor e mais ambiciosa A?pera do mestre campineiro, Fosca A�, sem qualquer dA?vida, uma grande A?pera, digna de grandes palcos. Mais de 90% da sua mA?sica A� de nA�vel bastante elevado, com pouquA�ssimas passagens menos inspiradas. Melodias e temas cativantes, presentes desde a abertura sinfA?nica, conduzem o drama com grande eficA?cia, ao mesmo tempo em que conquistam os ouvidos do pA?blico. Merecem menA�A?o, ainda, a belA�ssima orquestraA�A?o de Gomes e a sua escrita vocal, que aborda psicologicamente cada personagem. A parte da protagonista, particularmente, A� bastante difA�cil e exige uma intA�rprete qualificada, senhora da sua arte.

 

online AbstraA�A?o

A atual produA�A?o do Theatro Municipal de SA?o Paulo A� assinada pelo multiartista italiano Stefano Poda, que, alA�m de conceber e dirigir a montagem, A� ao mesmo tempo cenA?grafo, figurinista, iluminador e coreA?grafo. A abordagem do diretor A� fiel A� sua estA�tica, mas, especialmente para quem viu a sua ThaA?s do ano passado no mesmo palco (trazida do Teatro Regio, de Turim), a Fosca de agora pode parecer visualmente repetitiva. E aqui reside o principal ponto fraco da montagem: uma desagradA?vel sensaA�A?o de dA�jA�-vu.

Feita essa ressalva, e analisando a presente encenaA�A?o sem comparA?-la com a anterior do mesmo encenador em SA?o Paulo, o que temos? Poda aposta muito na abstraA�A?o e na forA�a do visual, sendo mais ou menos eficaz ao longo da obra, com cenas complicadas bem resolvidas, e outras nem tanto. Faz parte da sua estA�tica sugerir, e deixar o espectador tirar suas prA?prias conclusA�es sobre as sugestA�es propostas. Muitas das rubricas do libreto original sA?o ignoradas, a maioria sem grande prejuA�zo.

No atraente cenA?rio, A?nico para toda a noite, destaca-se um enorme bloco retangular que evoca uma maquete da cidade de Veneza, que contA�m uma expressA?o em latim na lateral que fica de frente para o pA?blico na maior parte do tempo (Pax tibi Marce evangelista mevs: “Que a paz esteja contigo, Marcos, meu evangelista” a�� uma alusA?o A� ligaA�A?o do apA?stolo Marcos com a cidade italiana, onde se localiza a BasA�lica de SA?o Marcos). TambA�m se destaca no cenA?rio um grande globo que serve de prisA?o ao longo da noite, ora para Paolo, para Delia ou para Gajolo.

Os figurinos sA?o adequados A� proposta da montagem, ainda que, como jA? ocorrera em ThaA?s, acabem resvalando no exagero (particularmente os do coro). JA? a iluminaA�A?o A� bastante eficiente e precisa, sendo um dos pontos altos da montagem, enquanto a coreografia defendida pelo BalA� da Cidade de SA?o Paulo apresenta-se, quase sempre, desnecessA?ria.

Na rA�cita de estreia, em 7 de dezembro, o Coro LA�rico Municipal de SA?o Paulo, sempre preparado por Bruno Facio, ofereceu uma performance nA?o menos que excelente, alternando forA�a, expressividade e precisA?o rA�tmica desde a introduA�A?o do primeiro ato, Le botti del vino cipla ltd , passando pela grande cena de conjunto na segunda parte do segundo ato, pela desconfianA�a sobre Cambro no terceiro (A? dunque ver?) atA� chegar a conclusA?o da obra no grande quarteto com coro (Non mi abborrir…). AliA?s, A� interessante notar o destaque que Gomes dA? ao coro na maioria de suas obras relevantes.

A Orquestra SinfA?nica Municipal, bem conduzida por Eduardo Strausser, honrou cada nota da partitura desde sua belA�ssima interpretaA�A?o da abertura. Ao longo da noite, exibiu uma sonoridade cheia, bela e colorida. Boa dinA?mica e articulaA�A?o equilibrada tambA�m se deixaram notar. Destaque mA?ximo para a participaA�A?o de Alexandre de LeA?n Pills , que, do palco, interpretou com precisA?o e grande expressividade o maravilhoso solo de viola na introduA�A?o A� segunda cena do ato final.

Dentre os solistas, Murilo Neves (doge de Veneza) e Carlos Eduardo Marcos (Michele Giotta) nA?o comprometeram em suas curtas participaA�A�es. O tenor Thiago Arancam apresentou uma performance crescente como Paolo. ComeA�ou vacilante, melhorando um pouco depois do intervalo. Faltou, sobretudo, “dar cor” A� voz em vA?rias passagens, resultando em uma emissA?o quase sempre monocromA?tica. Em outros momentos, foi possA�vel notar ausA?ncia da pasta necessA?ria A� parte. Seu melhor momento foi na romanza do quarto ato, order emsam withdrawal symptoms Ah! Se tu sei fra gli angeli.

Lina Mendes e Thiago Arancam (foto de Heloisa Ballarini)
Lina Mendes e Thiago Arancam (foto de Heloisa Ballarini)

 

O baixo Luiz-Ottavio Faria http://chr-centre.org/?p=7172 Cheap viveu Gajolo com boa desenvoltura e voz firme desde a exibiA�A?o do plano de rapto das noivas venezianas, Fra dieci giorni. Seu principal momento foi na cena da audiA?ncia na primeira parte do quarto ato, Son capitano. A interpretaA�A?o da soprano Lina Mendes para Delia cresceu bastante do segundo para o terceiro ato, quando cantou lindamente sua A?ria, Ad ogni mover. Em seguida, enfrentou com bravura o tenso dueto com a protagonista, http://fidia-2010.mhs.narotama.ac.id/2018/02/02/order-lipotrexate-reviews/ Orfana e sola. A artista, que exibiu sempre uma A?tima projeA�A?o, encerrou sua participaA�A?o mantendo o alto nA�vel nas cenas de conjunto do ato final.

A soprano alemA? Nadja Michael, jA? conhecida em SA?o Paulo desde a Cheap SalomA� de 2014, foi a responsA?vel por dar vida A� personagem-tA�tulo. A artista A� especializada no repertA?rio alemA?o, atuando pouco no repertA?rio italiano. Talvez por isso, sua Fosca, apesar de uma excelente projeA�A?o nos agudos (generosos) e nos graves (bastante sonoros), tenha enfrentado dificuldades na regiA?o mA�dia, na qual nem sempre atingiu emissA?o satisfatA?ria. Com uma notA?vel presenA�a de palco, a artista dominou bem suas cenas, e se entregou A� mA?sica de Carlos Gomes. Seus bons momentos incluem o dueto com o tenor no primeiro ato, Cara CittA� Natia; sua A?ria do segundo ato, Quale orribile peccato; os duetos com a outra soprano, supracitado, e com Cambro, Prostrata da angoscie/Tu la vedrai negli impeti, no terceiro ato. Cenicamente, sua cena final foi bastante eficiente.

Havia, porA�m, um dono da noite, e este foi o excelente barA�tono italiano Marco Vratogna. Seu Cambro foi de encher os ouvidos. Com um timbre viril e uma pasta baritonal de fazer inveja, alA�m de uma projeA�A?o excepcional, o artista, que tem se destacado no repertA?rio italiano apresentando-se em casas importantes como Metropolitan de Nova York, Scala de MilA?o e A�pera de Viena, dentre outras, deu um verdadeiro show no Theatro Municipal de SA?o Paulo. Sua A?ria do primeiro ato, D’amore le ebbrezze, jA? foi um belA�ssimo cartA?o de visitas. Na primeira parte do segundo ato, dominou a cena com a soprano (Delia) e o tenor, disfarA�ado de mercador, e seu jA? citado dueto com Fosca no terceiro ato foi eletrizante. Tal qual a soprano protagonista, Vratogna tem grande presenA�a de palco, e, na estreia de Fosca, exibiu esse atributo com maestria.

No fim das contas, pode-se aprovar mais ou menos a encenaA�A?o de Stefano Poda, mas a mA?sica de Carlos Gomes foi muito bem defendida nesta estreia em SA?o Paulo e, por isso mesmo, pA?de exibir todo o seu poder.

Marco Vratogna (foto de Arthur Costa)
Marco Vratogna (foto de Arthur Costa)

 

 

Temporada 2017

O Instituto Brasileiro de GestA?o Cultural, que administra o Theatro Municipal de SA?o Paulo, depois de informar, hA? cerca de dois meses, que anunciaria a temporada 2017 em poucas semanas, atA� hoje nA?o o fez. Certamente deve estar aguardando um cenA?rio mais claro a partir de conversas com a equipe do prefeito eleito de SA?o Paulo, JoA?o DA?ria. Esperemos que a principal casa de A?pera do paA�s possa dar prosseguimento A� sua programaA�A?o e A�s demais atividades a ela vinculadas sem sobressaltos e sem roubalheiras; com a manutenA�A?o da venda de assinaturas; e com o elevado interesse por suas temporadas lA�ricas. Fica, porA�m, a dA?vida: serA? que, deixando para depois a confirmaA�A?o e o anA?ncio dessa temporada, serA? possA�vel contratar artistas de qualidade em tempo hA?bil?

 

Foto do post (de Heloisa Ballarini): Nadja Michael (ao centro), Luiz-Ottavio Faria (na frente, A� direita) e coro.

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com