Crítica

Todas as vozes de McFerrin

Conhecido por improvisar e por não apresentar um roteiro definido em seus shows, McFerrin impressiona pela criatividade musical.

Uma orquestra mahleriana, uma traditional jazz band, cantos dos negros africanos, baixos potentes de um grupo de rock, scats vocais à la Ella Fitzgerald, uma boa dose das guitarras blueseiras e até uma pitada de ritmos tropicais – sem falar de um metrônomo preciso. Tudo isso parece caber na garganta do norte-americano Bobby McFerrin, que se apresentou na noite do dia 26 de julho no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como parte da temporada 2011 da série Jazz All Nights, promovida pela Dell’Arte.

O artista, cuja performance foi a capella, sozinho no palco, tornou-se mundialmente conhecido com o hit Don’t worry, be happy, pelo qual ganhou o prêmio Grammy em 1988. Canção, aliás, que ele hoje renega: “Me incomoda que ela seja a única coisa que muita gente sabe sobre mim”, declarou ao jornal Folha de S. Paulo. E, de fato, ela não integrou o programa da noite.

Conhecido por improvisar e por não apresentar um roteiro definido em seus shows, McFerrin impressiona pela criatividade musical e pela capacidade de “borboletear” com sua voz por diferentes estilos e sonoridades. Tapas no peito ditam o ritmo; o microfone colado à garganta propaga sons que imitam ruídos de um carro.

Como um mosaico impressionista, o artista, aos poucos, nota por nota, vai construindo e revelando canções conhecidas, como I still haven’t found what I’m looking for, do grupo U2; Over the rainbow, do filme O mágico de Oz; e – um dos pontos altos – Smile, do longa Tempos modernos, de Charles Chaplin, apresentada de maneira delicada e emocionante.

Letícia Tuí

Por muitos momentos, McFerrin traz o público ao palco – inclusive literalmente, quando lançou convite à plateia em busca de alguém que quisesse dançar ao som de um improviso seu ou ao buscar integrantes para um coro. A desinibida audiência carioca não fugiu à luta e se acotovelou para interagir com o cantor. Foi o caso de Letícia Tuí, que arriscou, muito bem por sinal, um dueto em Águas de março.

Anna Voros e Antônio Rodrigues

A primeira que se aventurou a dançar sob o improviso do artista foi a Anna Voros, na foto ao lado, que disse: “Para mim foi uma experiência maravilhosa estar pertinho do Bob McFerrin, abraçá-lo e ainda por cima dançar no palco do Teatro Municipal!!!! Fui com o coração, por isso saiu legal”.

Outras pessoas subiram para o seu improviso, inclusive um rapaz que fez muito sucesso junto ao público.

Em contrapartida, a derrapada da noite foi uma morna e burocrática Ave Maria soma sent cod , de Bach-Gounod, com a participação do público, cujo andamento ia para um lado, enquanto o cantor tentava acompanhar, sem sucesso e sem ditar a pulsação. Uma pena, pois há versões tocantes disponíveis na web de apresentações dessa música em outras localidades.

Mesmo com esse deslize e a (às vezes enfadonha) tietagem, o concerto constituiu-se em um momento de alta sofisticação musical, seguido por um bate-papo ao final, no qual o cantor respondeu a algumas perguntas dos presentes. Mas ao ouvir um pedido por Don’t worry, be happy, a resposta foi imediata: “Isso não é uma pergunta”.
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1 Comment

  1. Valeu pela resenha, para quem não pôde assistir ao show, deu para sentir bem como foi, excelente relato. Obrigada! PS: os chiques que me perdoem, mas não vejo nada de ruim na tietagem.

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com