CríticaLateralMúsica antigaRio de Janeiro

Toda honra e toda glória

Ainda existe pouco consenso sobre a chamada “interpretação historicamente orientada” da música do passado. Resumidamente, isso se refere à falta de unanimidade quanto ao valor de uma interpretação da música antiga – do Renascimento ao Classicismo – que pretenda ser mais autêntica, particularmente nos aspectos culturais, estéticos e estilísticos, acerca dos supostos anseios dos compositores desses períodos.

Essa proposta surgiu na década de 1950, capitaneada por músicos e estudiosos como Nikolaus Harnoncourt, Sigiswald Kuijken, Gustav Leonhardt e Frans Brüggen, dentre outros, em oposição a um estilo romantizado de peças barrocas – que ocorreu, principalmente, porque muitas delas foram resgatadas do ostracismo em seus dias e revalorizadas apenas no século 19 e início do 20. Vale mencionar que a primeira execução integral, desde a morte de J. S. Bach (em 1750), de A Paixão segundo São Mateus se deu em 1828, sob a direção de F. Mendelssohn.

Para muitos, a opção pela “interpretação historicamente orientada” da música antiga, atentando a aspectos como acentuação musical, afinação e intenção, entre outros, soluciona problemas da partitura e liberta autores como Claudio Monteverdi do jugo do olhar romântico. Segundo Harnoncourt (em O discurso dos sons: caminhos para uma nova compreensão musical, Ed. Zahar, 1990),

(…) caso a música de outras épocas ainda seja atual para o presente, num sentido mais amplo e profundo, caso sua mensagem deva ser transmitida – ou pelo menos parte desta, como acontece hoje em dia, na maioria dos casos – é necessário que a compreensão desta música seja reaprendida a partir de suas próprias leis e regras. Precisamos saber o que a música quer dizer, para compreender o que nós queremos dizer através dela. O saber deve agora preceder o puro sentimento e a intuição. Sem este conhecimento histórico, é impossível transmitir a música antiga, a chamada ‘música séria’, de maneira adequada.”

Ou como diz o violinista Rodolfo Richter, diretor artístico da área de música antiga da Oficina de Música de Curitiba: “Pense numa pintura de 200 anos atrás. É como se a música antiga retirasse toda a poeira e sujeira acumuladas e lhe devolvesse as cores originais”.

Um dos expoentes desse movimento passou pelo Brasil para concertos no Rio de Janeiro, em Curitiba e em São Paulo: foi Sir John Eliot Gardiner, que se apresentou com os grupos English Baroque Soloists e Monteverdi Choir. Na capital fluminense, a récita ocorreu em 7 de novembro, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, encerrando a temporada 2019 da série O Globo/Dell’Arte Concertos Internacionais.

Sir John Eliot Gardiner à frente de seus grupos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pelos séculos e séculos

Fundado em 1978 por Gardiner, o grupo English Baroque Soloists é uma das principais orquestras de câmara do mundo e sua especialidade são obras de Monteverdi a Haydn. O conjunto subiu ao palco com contrabaixo, violoncelo, tiorba, harpa, órgão e cravo.

O Monteverdi Choir surgiu na década anterior, em 1964, por sir Gardiner para uma interpretação do Vespro della Beata Vergine, na capela da Capela do King’s College, em Cambridge. Vinte cantores vieram ao Brasil para as apresentações.

A música sacra, se alguma forma, está na essência da trajetória dos grupos e de seu maestro. “Música sempre foi, para mim, incrivelmente ligada à fé”, declarou o maestro em entrevista ao jornal O Globo (7/11). No concerto carioca, obras religiosas dos compositores barrocos Henry Purcell (1659-1695), Giacomo Carissimi (1605-1674), Domenico Scarlatti (1685-1757) e Claudio Monteverdi (1567-1643).

É notável a capacidade técnica dos músicos regidos por Gardiner. Ao longo das interpretações, as obras desabrocham multicoloridas, plenas de significado e de delicadas sutilezas, carregadas de luz e sombra. Nos cantores, sustentação e emissão irretocáveis; nos instrumentistas, ataques precisos e intensidade de execução. Revelam a dor e a glória da existência humana sob o prisma do divino.

O ponto alto do concerto carioca foi a interpretação arrebatadora da Messa a 4 voci da cappella, SV. 190, de Monteverdi. Publicada oito anos após a morte do compositor, é tida por muitos estudiosos como uma das mais belas obras do italiano. A peça começa com um sublime Kyrie, no qual as vozes ascendem aos céus, em espirais. Tantas emoções e intenções feitas em música: o júbilo das notas curtas em Christe Eleison; o clamor sussurrado em Et in terra pax hominibus. No Gloria, contrapontos e fugas cheios de alegria e pulsação, e, no Credo, vozes plenas de vigor e graça. Em Et resurrexit, a alegria encarnada espalha-se pelo coro, encaminhando-se a Agnus Dei arrepiante, com um Dona nobis pacem longamente sustentado, como uma súplica emanada do fundo da alma.

Merece destaque também a belíssima peça de Scarlatti, Stabat Mater, que traz em si a dor de Maria diante da cruz de seu Filho. Cantores e músicos, sob a firme condução do maestro de gestos contidos, vão desenrolando o grandioso novelo da música com segurança, desenvoltura e fervor. Com afinação impecável, articulação cristalina e técnica impressionante. Tudo preciso (em todos os sentidos), e nada parece causar esforço ou estar fora do lugar. Há, no palco, uma profunda harmonia que se desenvolve até a complexa fuga final.

Completaram o bem elaborado programa duas peças de Purcell (Jehova, quam multi sunt hostes, Z.135 e Hear my prayer, o Lord, Z.15) e o belo (e teatral) oratório Jephté, de Carissimi.

Vozes tão suaves e músicos tão delicados expressam, em cena, tamanha força e poder de encantamento. É como se houvesse um canal direto com o divino, de pura beleza e adoração. O tempo passa mais devagar enquanto os talentosos artistas emprestam seu ofício à honra e à glória da divina música.

Sir John Eliot Gardiner

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fotos: Renato Mangolin

 

Saiba como foi o concerto dos grupos em São Paulo

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com