Artigo

Títulos infelizes, programações e desabamentos

É muito infeliz o título que declara que Karabtchevsky e Neschling assumem “as óperas” no Rio e em São Paulo.

Há no mundo musical gente que só enxerga ópera, gente que só enxerga Chopin e uns malucos que só gostam de canto gregoriano e vão às quatro da madrugada aos conventos escutarem monges em uníssono entoando cantochões do século XIII.

É nocivo à arte musical só enxergar óperas, a ponto de dizer que aqueles dois regentes de orquestra assumem “as óperas” e não as direções artísticas, dos TMRJ e TMSP. Direções artísticas que englobam música sinfônica e de câmera, apresentação de instrumentistas e cantores em recitais, ballets, artistas da música e da dança de todo o tipo e tudo mais. Nada disso. Isaac e John vão cuidar só das óperas, segundo o mencionado título. Chega-se ao ponto de definir o TMRJ de “um teatro de ópera” , um teatro que apresentou Nijinsky,Pavlova,Richard Strauss,Toscanini,Rubinstein,Stravinsky,Weingartner,Heifetz, Menuhim, Hofmann, Gieseking, Erich Kleiber, Arrau, Alonso, Markova, Fonteyn, Nureiev, Rampal, Rostropovich, Freire, Eleazar de Carvalho, Bernstein, Mehta, Muti,  muitíssimos grandes nomes da dança, da música sinfônica, dos instrumentos e quase todas as grandes orquestras internacionais. Para que se tenha uma idéia de que o TMRJ não é levitra expre delivery “um teatro de ópera” só em 1954 a OSB nele  deu 43 (!!) concertos sinfônicos.

Menciono os fatos acima porque são os aficcionados e maníacos da ópera e associados que reclamam amargamente da escassez de óperas na temporada de 2012 do TMRJ, como se TODA a programação de 2012 fosse boa ou ruim segundo o número de óperas apresentadas, quando essa programação NO SEU TODO  não foi tão escassa, e quando  houve percalços  que justificam certas lacunas.

Em primeiro lugar, em resquícios de obras mal executadas, durante um espetáculo em maio de 2012 UMA PEÇA DE FERRO DE 30 QUILOS  DA ILUMINAÇÃO SOLTOU-SE E CAIU EM CIMA DE UMA ESPECTADORA, com risco de morte, o que obrigou a paralizações. Em segundo lugar, houve MESMO um desabamento de prédio bem próximo ao teatro, o que causou interrupção temporária no funcionamento do mesmo. Em terceiro lugar, houve problemas financeiros. Em quarto lugar, subsistiram restos de então recentes problemas com coro e orquestra.

Todos os grandes teatros passam por períodos de dificuldades. O próprio TMRJ em 1930 só apresentou duas récitas de ópera e todos sabem qual era o momento político. Mas a temporada de 2012, sob direção artística do Maestro Silvio Viegas, não foi nada escassa e insignificante. Vejamos:
1 –    Dia 27/04 – Apresentação de artistas do Corpo de Baile;
2 –    Dias 31/05 e 10/06 – A criação, de Haydn, em forma de ballet;
3 –    Dia 21/06, Concerto Chico Rei,com obras de Mignone e Villa-Lobos, orquestra e coro do TMRJ;
4 –    Entre 08 e 15/07, Rigoletto, de Verdi;
5 –    Dia 14/07, comemoração dos 103 anos do TMRJ, com corpo de baile, coro e orquestra do TMRJ e convidados;
6 –    Entre dias 04 e 12/08, Onegin, ballet, música de Tchaicowsky;
7 –    Dias 24 e 26/08, Missa de Requiem, de Verdi,
8 –    Dias 30/09 e 02 e 04/10, Alexander Nevsky, de Prokofiev, na série Música e Imagem;
9 –    Dias 20 e 22/09, Cavalleria Rusticana, de Mascagni, em forma de concerto;
10 – Dia 12/10, Pedro e o Lobo, de Prokofiev;
11 – Entre 27/10 e 07/11, ballet Coppélia, música de Delibes;
12 – Entre 28/11 e 09/12, A viúva alegre, de Franz Lehar;
13 – Entre 15/12 e 06/01, ballet O quebra-nozes, música de Tchaicovsky.

Muitas outras manifestações subiram ao palco do TMRJ no período, como óperas em forma de concerto com a OSB Ópera&Repertório, como “Il re pastore”, de Mozart, “Orfeu e Eurídice”, de Glück, a raríssima “Griselda”, de Vivaldi, “Ariadne auf Naxos”, de Strauss, “Il pirata”, de Bellini, “A filha do regimento”, de Donizetti.

Isto também é programação, não importa se essas óperas em  forma de concerto foram produzidas ou não pelo TMRJ. Tudo que vai a seu palco faz parte de sua programação. E, além dos elementos da arte da dança apresentados nos ballets, faz parte deles música da melhor qualidade, como as de “A criação”, de Haydn, “Coppélia”, de Delibes, e “Onegin” e “O quebra-nozes”, de Tchaicovsky.

Este artigo não nega em absoluto a importância da ópera na história da música e aí estão o “Orfeu”, de Glück; “As bodas de Fígaro”, de Mozart; “O barbeiro de Sevilha”, de Rossini; o trio popular de Verdi; o “Tristão e Isolda”, de Wagner, para provar a importância do gênero. Mas vamos olhar para o lado e ali estarão também umas cantatazinhas e paixões de Bach, umas sinfoniazinhas e concertos de Bethoven e Brahms e umas obrinhas de Villa-Lobos.

E muito mais, se olharem com cuidado…

LOBET GOTT IN SEINEN REICHEN ( JSB ,BWV 11)
MARCUS GÓES – FEV 2013