CríticaLateralMúsica coralRio de Janeiro

“Soli Deo Gloria”

Bachakademie Stuttgart interpretou com excelência obras sacras de J. S. Bach no Rio de Janeiro.

 

Tudo em volta é só tristeza. Nas ruas da Cidade Maravilhosa, imperam a desordem e o descaso. Faltam combustível, vergonha na cara e até a chicória de d. Joana. No interior do templo da música, o silêncio expectante que precede a harmonia. É a noite de 29 de maio e, ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, chega a Internationale Bachakademie Sttutgart.

Hans-Christoph Rademann

Formada por coro e orquestra barroca de Gaechinger Cantorey, sob a regência de Hans-Christoph Rademann, o grupo integra a programação do ano da série O Globo/Dell’Arte Concertos Internacionais. No repertório, obras sacras de um dos pilares da música ocidental: o alemão Johann Sebastian Bach (1685 1750).

Dono de legado monumental, Bach é, ainda hoje, inspiração para músicos e sonhadores em função da beleza de suas obras, e também é referência em harmonia e contraponto. Em meio a suas geniais obras, destacam-se as peças sacras – missas, oratórios e cantatas. Destas, das mais de 300 (a maioria composta para serviço religioso), cerca de 200 chegaram a nossos dias. Entre elas, a cantata Ich hatte viel Bekümmernis (Quando mil preocupações me assaltavam), BWV 21 – que integrou o repertório do concerto, ao lado do Magnificat em ré maior, BWV 243.

Já nos primeiros acordes da Sinfonia da Cantata 21, surgiu o sublime (do latim sublimis, “que se eleva” ou “que se sustenta no ar”). Pequenos descompassos em nada atrapalharam o objetivo de Rademann e seus artistas: interpretar, com aparente simplicidade e excelência técnica, a música religiosa de Bach, dando à emissão das palavras e dos sons uma clareza de intenções cujo destino final é, no plano espiritual, a glória de Deus – ou Soli Deo Gloria, como constava nos manuscritos (SDG) – e, na esfera artística, a reafirmação da majestade de Bach.

Composta para o terceiro domingo após a Trindade de 1714, com partes oriundas de diferentes obras (conforme Dürr), a Cantata 21 divide-se em suas partes distintas: a primeira é angustiada, dominada pela aflição das almas que se sentem abandonadas por Deus; a segunda parte, em modo maior, é marcada pelo júbilo da chegada de Jesus.

Desde a Sinfonia inicial (com o belíssimo oboé d’amore) até o coro final em dó maior, tudo exalou harmonia e beleza: vozes e instrumentos se encaixam como uma engrenagem irretocável, em uma articulação que faz a música parecer a coisa mais natural da Terra, sem esforços, sem arroubos – e como é difícil articular com precisão cantores e instrumentistas! A (falsa) aparência de simplicidade, no fundo, é enorme sofisticação e muita técnica.

A batuta de Rademann é quase mecânica, com mínimos floreios, mas com uma pureza cristalina que contamina orquestra, coro e solistas. A soprano Miriam Feuersinger bailou, com doçura, ao lado do oboé na ária Seufzer, Tränen, Kummer, Not, bem como no recitativo e dueto com o barítono Tobias Berndt, Ach Jesu, meine Ruh / Komm, mein Jesu, und erquicke (em que se realiza uma conversa entre uma alma e Jesus, como também ocorre na Cantata 140, formação comum nos hinos protestantes do século 17). O tenor Patrick Grahl mostrou leveza vocal em suas árias, como Erfreue dich, Seele. Ao fim, o conjunto solista se junta ao coro – que interessante o efeito com o naipe dos tenores ao fundo, em Sei nun wieder zufieden, meine Seele, e no coral final, acrescido de trompetes, em dois segmentos distintos: Des Lamm, das erwürget ist, um canto de louvor ao cordeiro imolado, ao qual se segue a fuga que começa com Lob und Ehre und Preis und Gewalt e termina em um Aleluia no qual tudo se encaixa.

A soprano Miriam Feuersinger e o barítono Tobias Berndt

 

Aumentada com flautas e fagote, a orquestra voltou, após o longo intervalo, para interpretar o Magnificat, BWV 243 – cujo texto provém do canto de louvor a Deus entoado pela Virgem para sua prima Isabel após a Anunciação. A obra de Bach foi composta, originalmente, em 1723 (em mi bemol e alterada para ré maior posteriormente).

Festiva e gloriosa, a peça foi interpretada com graça e inspiração. As participações do coro foram impecáveis e as árias e duetos, cheias de suavidade e singeleza. Em companhia do cravo de Michaela Hasseit, do contrabaixo de Jan-Ole Fabian, do violoncelo de Bianca Riesner e do oboé de Katharina Arfken, a soprano Miriam Feuersinger encantou na ária Quia respexit humilitatem. O timbre mais bonito do grupo de solistas, no entanto, era da mezzosoprano Sophie Harmsen: redondo, encorpado sem peso. Sua interpretação para Esurientes implevit bonis foi arrebatadora – ainda que de forma suave, sem peso, sem arroubos.

Quem dera a música, por mais celestial e sublime que seja, pudesse subir aos céus e derramar bênçãos sobre a cidade. Os artistas da Internationale Bachakademie Sttutgart elevaram sons e vozes somente pela glória de Deus. Miserere nobis.

 

Fotos: Renato Mangolin

 

Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com