CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Sem tesA?o nA?o hA? soluA�A?o

Apesar da criatividade do encenador e de bons cantores, montagem da A?pera Orfeu e EurA�dice em cartaz no Theatro Municipal do RJ estA? longe de arrebatar a plateia.

 

No final da dA�cada de 1980, o psiquiatra Roberto Freire lanA�ou um livro que logo se tornou um best-seller: Sem tesA?o nA?o hA? soluA�A?o. Na obra, o autor fala de um desejo que extrapola o sexual e busca a alegria da vida. Diz o autor: “Para mim, esse tesA?o nA?o habita dicionA?rios oficiais; entretanto, A� o que anima e encanta os poetas tropicais. TesA?o sem passado, apenas contemporA?neo e vertical, ele A� produto semA?ntico e romA?ntico dos que sentem desejo pelo desejo, alegria pela alegria e beleza pela beleza. Mas pode ser ainda tesA?o de quem sente desejo pela alegria, beleza pelo desejo e alegria pela beleza. Sem tesA?o nA?o hA? soluA�A?o” online . A ideia do desejo como forA�a motivadora tinha (tem) tanta forA�a que a expressA?o que dA? tA�tulo ao livro ainda sobrevive.

TesA?o A� ainda um dos motores que arrebata o mitolA?gico casal Orfeu e EurA�dice. Ela, picada por uma serpente, morre logo apA?s as bodas e ele, poeta e mA?sico de talento irresistA�vel, desce com sua lira ao Reino de Hades em seu resgate. O estratagema sA? nA?o funciona porque ele nA?o consegue resistir A�s sA?plicas e apelos dela para que a olhe a�� exatamente o que lhe era proibido por JA?piter atA� que cruzassem de volta o rio Estige. Segundo o estudioso britA?nico Edward J. Dent, professor de MA?sica da Universidade de Cambridge de 1926 a 1941, “EurA�dice A� (…) mulher de sexualidade exacerbada que exige a imediata realizaA�A?o de seus direitos conjugais”A�(KobbA� a�� O Livro Completo da A�pera, p. 66).

Seja o tesA?o, seja o amor romA?ntico, o fato A� que o mito do poeta Orfeu, filho do deus Apolo e da ninfa CalA�ope, e de sua amada ninfa EurA�dice A� poderoso. Na A?pera, a lenda inspirou inA?meros compositores, desde a gA?nese do gA?nero: L’Euridice (1600), de Peri; Euridice (1602), de Caccini; e Purchase L’Orfeo (1607), de Monteverdi; La Morte d’Orfeo (1619), de Landi; Orfeo (1647), de Rossi; Orfeo (1672), de Sartorio; e La Descente d’OrphA�e aux Enfers (1686), de Charpentier. Nos sA�culos seguintes, inspirou composiA�A�es de Telemann (Orpheus a�� 1726) e Offenbach (OrphA�e aux Enfers a�� 1858), chegando aos nossos dias em obras de Krenek (Orpheus und Eurydike a�� 1921), Malipiero (L’Orfeide a�� 1925), Birtwistle (The Mask of Orpheus a�� 1986) e Glass (OrphA�e a�� 1983). Mas nenhuma delas tem lugar tA?o alto no panteA?o lA�rico como a revolucionA?ria A?pera escrita pelo alemA?o Christoph Willibald von GlA?ck, com libreto do poeta italiano Raniero de Calzabigi: Orfeu e EurA�dice Order Cheap , cuja versA?o original (apresentada pela primeira vezA�em Viena em 1762, em italiano) estreou no dia 7 de julho, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, apA?s adiamento decorrente de paralisaA�A?o dos corpos artA�sticos devido ao atraso no pagamento dos salA?rios pelo Governo do Estado (saiba mais 24 h pharmacy ).

Com direA�A?o de Caetano Vilela, a montagem tem no elenco a mezzosoprano Denise de Freitas (Orfeu), a soprano Lina Mendes (EurA�dice) e a jovem soprano Luisa Suarez (Amor). No entanto, apesar de toda visA�vel boa intenA�A?o dos realizadores, a encenaA�A?o A� morna. Faltou justamente… tesA?o.

 

A forA�a de uma paixA?o

Ao subir o pano, destaca-se a bela e funcional cenografia de Duda Arruk. Uma estrutura cA?bica vazada com sA?bria aparA?ncia de pedra serve-se para os vA?rios ambientesA�nos quais a aA�A?o ocorre; ao fundo, uma passarela de altura variA?vel dA? diferentes dimensA�es ao palco. Resplandece de beleza uma flutuante ilha verdejante de capim e grama a�� tudo viceja onde o amor reina; o resto A� rocha.

A Orquestra SinfA?nica do Theatro Municipal, regida pelo maestro Abel Rocha, ataca com precisA?o e delicadeza a barroca abertura a�� do comeA�o ao fim da obra, o conjunto canta com competA?ncia e musicalidade. Com criatividade, o diretor pA�e no palco, como um prA?logo, uma pueril cena envolvendo Orfeu, EurA�dice e jovens amigos, que brincam e jogam atA� a fatA�dica morte da ninfa. Com arrebatamento, entramos na trama: o poeta pranteia a morte de sua amada, diante de sua fria tumba.

JA? se nota aqui a revoluA�A?o de GlA?ck, que abandona a A?pera como uma sucessA?o de nA?meros musicais desconexos destinados apenas aos gorjeios dos cantores, colocando a mA?sica em funA�A?o da narrativa, com coerA?ncia dramA?tica. O coro Ah! Se intorno a quest’urna funesta, cantado com pungA?ncia pelas belas vozes do Coro do TMRJ, entremeado pelos cortantes lamentos de Orfeu (que, em sua dor, apenas consegue clamarA�”EurA�dice!”), A� comovente quase as lA?grimas.

JA? na A?ria Chiamo il mio ben cosA�, ainda na primeira cena, Denise de Freitas, cantora de talento premiado e reconhecido, nA?o conseguiu mostrar suas potencialidades vocais. O belo timbre estava escondido em uma voz descolocada, turva e sem giro. Sua performance cA?nica esteve a contento, mas, vocalmente, ainda que tenha alcanA�ado resultados melhores no decorrer da rA�cita de estreia, nA?o emplacou a�� sequer na famosA�ssima Che farA? senza Euridice?, no terceiro ato.

Como Amor (Cupido), a soprano Luisa Suarez, aluna da Academia de A�pera Bidu SayA?o, do TMRJ, entrou em cena cheia de tesA?o e mostrando que, em breve, serA? um dos nomes de destaque da cena lA�rica brasileira. Sua primeira A?ria, Gli sguardi trattieni, foi cantada com seguranA�a e projeA�A?o impecA?vel de sua doce voz.

Luisa Suarez como Amor
Luisa Suarez como Amor

 

Seu figurino a�� assinado por CA?ssio Brasil a�� chamou a atenA�A?o: era um Cupido flower power, com flores e borboletas na peruca, colete setentista e calA�a boca de sino multicolorida. Ainda que inventivos, os variados costumes desenhados para a A?pera cometeram o grave pecado de pouco revelar sobre os personagens e/ou sobre a narrativa (caracterA�stica fundamental de roupas de cena) e mais: derraparam na completa ausA?ncia de coerA?ncia interna. O guardarroupa de Orfeu e seus amigos remetia ao sA�culo 18; as vestes de Cupido e do fauno tinham um quA? de anos 1970; e os figurinos das FA?rias, HerA?is e demais habitantes do mundo sobrenatural era um desastre completo: feias e primA?rias. As criaturas do Inferno vestiam fitas prateadas sobre malhas colantes, agitavam galhos secos e, nas cabeA�as, um estilizado abutre de asas negras. Ao final, no Templo do Amor (A?ltima cena do terceiro ato), um figurino carnavalesco, com direito atA� a estandarte, ofuscou a vista e entristeceu o coraA�A?o.

ContribuA�ram para piorar as cenas de conjunto a atuaA�A?o sem verdadeA�do Coro do TMRJ a�� belas vozes, caprichosamente preparadas pelo maestro titular JA�sus Figueiredo, mas interpretaA�A?o nada elaborada e baseada em clichA? (se estA? no Inferno, faA�a cara de mau). Mais pobre ainda foram as coreografias da experiente TA?nia Nardini, primA?rias e mal executadas por bailarinos do Corpo de Baile do TMRJ e alunos da Escola Estadual de DanA�a Maria Olenewa. Faltou o bA?sico aos danA�arinos: noA�A?o espacial, graA�a e um mA�nimo de dramaticidade.

 

Cheap Criatividade

Em meio A�s infelicidades que acometeram nA?o apenas a Orfeu no segundo ato, alguns acertos cA?nicos. Na segunda cena, o diretor teve a feliz ideia de transformar a flautista solista Sofia Ceccato em um fauno e trazA?-la ao palco. Com domA�nio do instrumento e desenvoltura cA?nica, a bela e talentosa musicista adornou ainda mais o delicado momento em um bosque verdejante, com dupla de bailarinos ao fundo, danA�ando as lembranA�as amorosas de Orfeu.

A� frente, Sofia Ceccato (A?squerda) e Denise de Freitas (direita)
A� frente, Sofia Ceccato (A?squerda) e Denise de Freitas (direita)

 

De modo geral, Caetano Vilela usou bastante criatividade na mise-en-scA?ne e, embora nem tudo tenha sido acertado, a profusA?o de soluA�A�es e ideias merece destaque. Outro ponto alto foi a bela iluminaA�A?o do profissional, que deu vida e dramaticidade ao cenA?rio e A�s situaA�A�es.

No papel de EurA�dice, a soprano Lina Mendes online sA? canta efetivamente no terceiro ato, e vale a pena aguardar a participaA�A?o da jovem e talentosa cantora. Sua projeA�A?o A� perfeita e ela faz uso de seu belo timbre com dramaticidade e de forma totalmente coerente com seu personagem. O arioso Qual vita A? questa mai e a subsequente A?ria Che fiero momento! foram entoados com musicalidade… e muito tesA?o.

Talvez a turbulA?ncia (tensA?o, ensaios atribulados ou algo do gA?nero) oriunda das intempA�ries laborais pelas quais o TMRJ passou na A?ltima semana tenha influenciado o resultado deste Orfeu e EurA�dice. O fato A� que, mesmo com notA?veis talentos envolvidos, a montagem resultou um tanto morna, nA?o condizente com o quilate dos artistas participantesA�e o perpA�tuo empenho da TMRJA�por uma programaA�A?o de qualidade. NA?o importa: A� assim mesmo, nem sempre se acerta 100%. O fundamental A� continuar produzindo a�� sem perder o tesA?o. Que venha a prA?xima atraA�A?o.

Fotos: JA?lia RA?nai

Confira entrevista com o diretor Caetano Vilela

Leia crA�tica de Leonardo Marques online

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com