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Segunda Sinfonia de Mahler por Ricardo Chailly

Em 1891, o experiente diretor musical de Hamburgo, Hans von Bülow, declarou que a cidade contava com um regente operístico de alto nível: Gustav Mahler.

Bülow entendia daquilo que estava dizendo: afinal, ele regera a orquestra na estreia da complexa ópera wagneriana Tristão e Isolda. Além disso, fora o solista ao piano na primeira execução do Concerto n° 1 de Tchaikovsky. Encorajado, Gustav decidiu apresentar uma de suas composições a Hans: era a peça orquestral denominada Totenfeier (Rituais Fúnebres).

Segundo Mahler, durante a execução ao piano Bülow mostrou-se tenso. Ao fim, exclamou: “comparada com a sua obra, Tristão e Isolda soa tão simples como uma sinfonia de Haydn! Se isso que você executou é música, então eu não entendo absolutamente nada a respeito de música!”. Reagindo estoicamente, Mahler concluiu que Bülow o considerava um regente habilidoso, mas um compositor sem futuro.

Dado o teor desse encontro, é surpreendente que a amizade de ambos tenha perdurado pelos anos seguintes. De fato, ainda que magoado com a veemente crítica, Mahler nutria grande admiração pelo diretor musical. Tanto é que, em 1894, no funeral de Bülow, Gustav Mahler sentiu-se profundamente impactado ao escutar um coro entoar a ode intitulada Aufersteh’n (Ressurreição), de Friedrich Klopstock.

A experiência foi tão significativa que Mahler imediatamente pôs-se a compor uma obra baseada nesse poema. E, apenas três meses depois, finalizou aquela que seria a sua Segunda Sinfonia, denominada Ressurreição, agrupando a recém-concluída partitura a outros quatro movimentos compostos anteriormente. O primeiro desses movimentos era, ainda que com algumas pequenas modificações, Totenfeier.

Mahler, o compositor, foi um visionário: não criava suas obras visando se enquadrar nas preferências musicais vigentes. Seu objetivo era transmitir ao público sentimentos e ideais que julgava relevantes. Assim, a Segunda Sinfonia deve ser ouvida e analisada com atenção, uma vez que seu significado transcende a literalidade das notas musicais. Foi escrita para uma enorme massa de músicos, incluindo em sua orquestração toda uma gama de instrumentos de percussão, órgão, coro misto e duas vozes solistas (soprano e meio-soprano).

O primeiro movimento (Allegro maestoso) representa o desconforto, o estarrecimento perante a inexorável morte. Qual seria o significado desta vida, se é que há algum? Após uma pausa para reflexão silenciosa, seguem-se três movimentos centrais: a lembrança dos bons momentos em vida (Andante moderato); a incessante correria sem sentido do cotidiano (Scherzo); e, na voz do meio-soprano, um clamor aos céus: trata-se do célebre Urlicht (Luz Primordial), porta de entrada de muitos ouvintes para o universo mahleriano. Aqui, temos um forte indicativo dos sentimentos de Mahler – a frase “Ich bin von Gott und will wieder zu Gott” (“eu venho de Deus e hei de regressar a Deus”). Seria essa a resposta à pergunta colocada no primeiro movimento ?

O último movimento (Im Tempo des Scherzo), que dura cerca de 40 minutos, é uma das mais grandiosas passagens escritas por Mahler. O texto baseia-se na ode de Klopstock, com acréscimos e modificações da lavra do compositor. Trata-se de uma mensagem de esperança para a humanidade: morreremos para viver, não obstante nossa fragilidade e nossos temores. Acerca desse movimento, afirma o jornalista Peter Korfmacher que Mahler não se preocupou em fazer qualquer distinção entre o bem e o mal ou entre os justos e os pecadores – para o compositor, todos os indivíduos são possíveis beneficiários do milagre da ressurreição e da imortalidade da alma.

Uma nova gravação da sinfonia chegou recentemente ao mercado, em DVD e Blu-ray. No palco, a Gewandhausorchester Leipzig sob a regência de Riccardo Chailly. De se destacar a qualidade da imagem e do som, tecnicamente primorosos. No aspecto musical, Chailly opta por uma regência equilibrada, não empregando escolhas interpretativas tão idiossincráticas como as de Leonard Bernstein e Klaus Tennstedt.

Isso não significa que a emoção esteja ausente: em Urlicht, são palpáveis a ternura e a esperança, retratadas de forma contida, mas suficientemente tocante. E mais: do Scherzo final, é pertinente destacar o trecho que se inicia com o dueto das vozes solistas, às quais se agregará o coro (“O Glaube, mein Herz” – texto escrito por Mahler).

O regente desenvolve com competência o trajeto que se inicia em meio a sentimentos de fragilidade e incerteza, mas que culmina em um final apoteótico, no qual a vida triunfará sobre a morte: solistas, coro e orquestra (com destaque para o órgão, os gongos e os sinos) ressoam em um fortissimo, quando a sinfonia chega ao fim.

Em 2011, completaram-se cem anos da morte de Gustav Mahler. Compositor cujo reconhecimento em vida se deu à custa de intenso trabalho e superação de duras críticas, Mahler dizia que seu tempo haveria de chegar. Parafraseando Leonard Bernstein, em tempos marcados por holocaustos e massacres, pela persistente contradição entre o avanço das democracias e a manutenção das guerras e dos regimes ditatoriais e pela intensa resistência ao estabelecimento de uma sociedade igualitária, finalmente é possível ouvir a música de Mahler e entender que ele já antecipara tudo isso. O seu tempo chegou.

 

Mahler – Sinfonia n° 2

Christiane Oelze (soprano), Sarah Connolly (meio-soprano), MDR Rundfunkchor, Berliner Rundfunkchor, GewandhausChor, Gewandhausorchester Leipzig, regência de Riccardo Chailly. Selo Accentus.

Preço médio: R$ 130 (Blu-ray), R$ 90 (DVD).

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Érico de Almeida Mangaravite
Delegado de polícia, formado em Odontologia e em Direito, com pós-graduação em Ciências Penais. Participou de corais, Frequentador de óperas e concertos. Foi colaborador do caderno Pensar, do jornal A Gazeta (ES), para o qual escreveu resenhas e artigos sobre música clássica.