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“Schubertíada” 2015, em Schwarzenberg

Neste ano de 2015, a Schubertíada está comemorando seu quadragésimo aniversário.

Criada pelo saudoso grande barítono Hermann Prey e por Gerd Nachbauer, inicialmente como um Festival Mozart em 1972, em Hohenems, na província austríaca alpina de Vorarlberg, o Festival acabou por se transformar num festival dedicado à obra de Franz Schubert, e foi inaugurado oficialmente em 1975.

A primeira Schubertíada teve lugar em 1976. Aos poucos, ela foi-se expandindo na antiga aldeia de Schwarzenberg, a uma hora de automóvel de Hohenems. Há anos ela é realizada em ambas as localidades, geralmente em cinco turnos anuais, de maio a outubro, variando de quatro a nove dias, alternando-se nas duas salas

Gerd Nachbauer tem sido o Diretor Administrativo desde o início, e agora também o Diretor Artístico Entusiasta, competente e trabalhador. Ele tem conseguido superar todas as dificuldades financeiras, pois que o Festival é primordialmente uma iniciativa privada, e tem conseguido reunir os melhores intérpretes vocais e instrumentais, fazendo da Schubertíada um evento da mais alta qualidade artística. A par das obras de Schubert, obras de outros compositores também integram a programação.

Para celebrar este jubileu, serão apresentados os Lieder completos de Schubert, que são mais que 600 canções de arte, nas temporadas de 2015 e 2016, além de concertos orquestrais e camerísiticos, recitais de piano, masterclasses e palestras. Cada temporada anual tem oferecido quase uma centena de programas

No segmento de 20 a 28 de junho, foram oferecidos quatro concertos de música de câmara, dois concertos orquestrais, quatro recitais de piano, duas palestras e nove recitais de Lieder.

Dada esta oportunidade especial, escolhi assistir a todos os recitais de Lieder, dois recitais de piano e uma palestra.

A soprano anglo-espanhola Sylvia Schwartz, o tenor sueco Mauro Peter, e o barítono alemão Benjamin Appl abriram o Festival com um recital composto de Lieder baseados em poemas de Friederich von Schlegel e A.W.v. Schlegel, e uma segunda parte com Lieder baseados em textos de vários poetas. Parte do programa era para uma voz só, e parte para duas ou três vozes. As três vozes são firmes, afinadas e se harmonizam com naturalidade. Ao piano, dialogando com as vozes, o veterano vienense Helmut Deutsch valorizou altamente o recital. Deutsch é tido atualmente como um dos melhores pianistas para atuar com cantores.

O recital seguinte foi o da soprano alemã Diana Damrau, hoje um nome internacional. Destacou-se no programa “O pastor sobre o rochedo”, uma das criações de maior envergadura da fase final de Schubert. Ela tem belo timbre, bons legatos e é uma intérprete sensível. Essenciais foram as contribuições de Helmut Deutsch e do excelente clarinetista Paul Meyer

O terceiro recital coube a Benjamin Appl, cuja força expressiva de projeção vocal e clareza de dicção valeram-lhe grande sucesso. Destaco “Viola”, sobre o longo poema de Franz von Schober, e “Sehnsucht”, sobre poema de Schiller. O experiente e muito musical pianista escocês Malcolm Martineau foi um parceiro perfeito.

A quarta noitada de Lieder coube ao esplêndido tenor Christoph Prégardien, interpretando uma das grandes obras primas de Schubert, “Winterreise”, sobre poemas de Wilhelm Máller. Essa viagem de inverno tem proporções existenciais, e Prégardien soube transmitir toda a profundidade de sua substância. E Malcolm Matineau ao piano dialogou com o tenor com igual profundidade dramática. Este foi um dos pontos altos do Festival.

A voz da mezzo-soprano austríaca Elisabeth Kulman está hoje num ponto alto, com sua vasta experiência em ópera e recitais, mas dá a impressão de ainda poder ir mais além. Atualmente ela se concentra em recitais e em projetos incomuns. Sua voz forte, cálida e maleável, e sua consciência de estilo produziram um recital bem pessoal e de várias surpresas. Com muita experiência no repertório clássico e no jazz, Eduard Kultrowatz provou também ser um ótimo pianista schubertiano, sutil e flexível. Do rico programa constaram também “A morte e a donzela” (poema de Matthias Claudius) e “O anão” (poema de Collin).

Ian Bostridge, além de tenor de alto prestígio em ópera e recitais em toda a Europa e mais além, é também historiador e professor em Oxford. Ele acaba de publicar “A Viagem de Inverno de Schubert: anatomia de uma obsessão”. Sua voz vibrátil, metálica é perfeitamente adequada ao programa que escolheu cantar, do qual destaco quatro hinos de Novalis, místicos e sobre o transcendental. Ao piano, Lars Vogt soube dar as inflexões certeiras, e soube sublinhar a palavra poética cantada, fazendo-a ecoar ainda mais.

Michael Volle atingiu o pleno potencial de sua voz cA?lida, vigorosa e lírica. Além de astro da ópera em vários continentes, ele é um recitalista que sabe usar todos os seus recursos vocais e interpretativos. Ofereceu ele o último ciclo de Lieder composto por Schubert sobre poemas de Heine e Rellstab, “Schwannengesang”, “O canto do cisne”, dentre os mais belos que compôs, e reunidos postumamente. Uma apresentação de mestre, muito enriquecida pelo seu interlocutor ao piano, o esplêndido e congenial Helmut Deutsch.

A mezzo-soprano sulafricana Michelle Breedt escolheu uma apresentação dedicada às quatro estações, numa visão programática algo convencional e monótona, pouco inspirada. Sua voz é bonita e operática, mas pouco identificada com o estilo do Lied schubertiano, pelo menos a esta altura de sua carreira. O eficiente pianista Wolfram Rieger tampouco conseguiu amenizar a monotonia do recital.

O último recital da série nAãfoi muito mais feliz que o penúltimo. Precedida de fama como cantora de ópera e recitalista, Schubert não me pareceu o lado forte da mezzo-soprano lituana Violeta Ulman, embora sua voz seja tecnicamente excelente, e agradável seja o seu timbre. O pianista Jan Philip Schulze é muito competente, mas fazer milagres nem sempre é fácil.

 

Apesar dos senões, o brilho geral desta série foi uma grande oportunidade de vivenciar, em muitas dimensões, a insuperável canção de arte de Franz Schubert.

 

Vencedor de vários concursos internacionais de prestígio, o pianista sueco Cédric Pescia apresentou-se num recital de alto interesse, com as três últimas sonatas de Beethoven, as opus 109, 110 e 111. Ele as executou em sequência e sem intervalo. Esta decisão incomum, fez com que cada sonata atuasse como um movimento de uma sonata mais ampla, mais complexa e profunda. O resultado deu ao pensamento musical de Beethoven uma concepção mais rica ainda, e constituiu-se numa verdadeira catedral sonora de estruturas e emoções. Foi uma experiência magica, executada com vigor, inteligência e sensibilidade. Bravo!

Em seu programa, Lars Vogt tocou, na primeira parte, a primeira das três últimas sonatas de Schubert, publicadas postumamente, a D.958, e o fez com clareza estrutural e inflexões diferenciadas, à altura desta obra complexa e substanciosa. A segunda parte do programa ofereceu o Trio para Piano D.929, um dos mais belos e expressivos de toda a literatura camerística, com Lars Vogt, mais a violinista Antje Weithaas e a celista Tanja Tetzlaff. A execução fluiu com harmonia e equilíbrio entre os três instrumentos. Essa integração deu riqueza dinâmica às facetas dramáticas e líricas, atingindo assim as profundezas da obra.

Um dos maiores pianistas dos tempos modernos, Alfred Brendel encerrou sua careira de concertista em 2008, coberto de glória e honrarias ao redor do planeta. Antológicas, entre outras, são suas gravações das sonatas completas de Beethoven e Schubert, mas ele é também poeta, escritor admirado de livros sobre música, professor e conferencista. Desta vez, ele ofereceu um diálogo público sobre “A arte de tocar piano: Schubert e outros mestres,” de parceria com Martin Meyer, autor sueco de nomeada e Diretor do Suplemento Literário do importante jornal de Zurique “Neue Zarcher Zeitung”. Com bom humor e muita argúcia intelectual, o evento, uma grande aula, foi aplaudido em pé.

José Neistein
Washington, D.C.

Setembro de 2015

José Neistein
Formado em Filosofia na USP e em Viena. Conferencista em universidades da Europa e das Américas. É membro das associações nacional e internacional de críticos de arte, com vários livros publicados. É crítico de arte, música, literatura, teatro e ópera.