CríticaLateralMusicalRio de Janeiro

Santo remédio para males d’alma

Música cura tudo em montagem carioca de O Grande Circo Místico.

 

Posologia e modo de usar: basta uma dose única de 165 minutos (com 15 de intervalo) – mas pode repetir, por garantia, quantas vezes quiser, sem restrições de superdosagem. Não há contraindicações ao uso adulto, mas foram observadas, entre as reações adversas, emoções profundas, muitas vezes levando às lágrimas; sorrisos nostálgicos; aplausos acalorados. As principais indicações terapêuticas e medicamentosas incluem a cura certeira de gripes, mal-estares, doenças crônicas, quebrantos, olhos gordos, indisposições nervosas, encostos, tristezas, corações partidos, frustrações e desencantos em geral. O musical O Grande Circo Místico é remédio tiro-e-queda.

Dirigida pelo onipresente João Fonseca (Cassia Eller, o Musical; Cazuza, Pro Dia Nascer Feliz – O Musical e Tim Maia – Vale Tudo, o Musical, para citar algumas biografias recentemente levadas aos palcos) e em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, a peça é uma criação original dos dramaturgos Newton Moreno e Alessandro Toller com base no espetáculo levado à cena em 1982 pelo Balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, com dramaturgia de Naum Alves de Souza (a partir do poema do livro A Túnica Inconsútil Pills , escrito em 1938 por Jorge de Lima) e música dos gigantes septuagenários Edu Lobo e Order Chico Buarque cystone buy online .

Dois ingredientes principais dessa fórmula balsâmica são facilmente identificáveis – mas nem de longe simples de alcançar. A começar pela beleza ímpar das canções de Edu e Chico, já velhas conhecidas, como Beatriz e Ciranda da Bailarina. Casamento perfeito entre melodias de grande riqueza e letras cheias de poesia – Beatriz, por si só, renderia páginas e páginas de estudo, tamanha sua complexidade musical.

O universo mágico e fascinante do circo é outro componente desse elixir miraculoso. Estão em cena ilusionistas, acrobatas, malabares, equilibristas, palhaços, domadores e tantos personagens que fazem brilhar nossos olhos e iluminar recônditos escondidos de nossas lembranças mais lúdicas.

Faça amor, não faça guerra

Moreno (autor de, entre outros textos, As Centenárias e Maria do Caritó) e Toller costuraram esses dois elementos em um melodrama de trama simples, mas de história tocante, que trata de questões delicadas. Frederico, um jovem médico aristocrata, apaixona-se, à primeira vista, por Beatriz, bailarina do circo, e é correspondido. Charlote, sua noiva, ardendo em ciúmes, cria uma artimanha para que ele seja enviado à guerra e tenha de separar-se da sua amada. Nesse ínterim, o circo precisa lutar para evitar sua extinção e, assim, assegurar a vitória da alegria e do sonho sobre a barbárie sem sentido.

A direção de Fonseca, sem trocadilhos, levanta um circo para levantar a história, aglutinando talentos diversos para apresentar um espetáculo de grande impacto visual e à altura das criações dos renomados compositores. No bojo da direção de arte, são harmônicos e funcionais os figurinos de Cheap Carol Lobato, complementados pelos expressivo visagismo de Leopoldo Pacheco mambo 36 tadalafil , e ambos se inserem muito bem nos cenários de Nello Marrese, com praticáveis, bonitos elementos aéreos e painéis nos fundos, tudo lindamente iluminado por Luiz Paulo Nenen buy atarax online .

No âmbito da movimentação, é grande a contribuição de Leonardo Senna (também no elenco) na direção de movimentos circenses, trazendo grande naturalidade e desenvoltura aos atores, que também executam muito bem os bonitos passos das coreografias de Tania Nardini.

A direção musical de Ernani Maletta traz à cena as belas canções com arranjos elegantes. Para isso, colaboram também o maestro Order João Bittencourt e os músicos Yuri Villar, Jonas Corrêa, Luciano Camara e Georgia Camara.

Rrrrrrrrrrespeitável público!

Mesmo que grande parte do mérito do encantamento de O Grande Circo Místico venha da direção precisa de Fonseca, que soube, como um alquimista, misturar os ingredientes corretos nas doses exatas para esse bálsamo, os artistas do elenco em muito contribuem para o fascínio do espetáculo. Gente ungida, mambembe, ilusionista, que rala, exige e encanta com um levantar de sobrancelhas (depois de suar a camisa por anos a fio até conseguir tamanho poder).

A dupla de protagonistas é composta pelos jovens Letícia Colin (Beatriz) e Gabriel Stauffer (Frederico). Ela, moça de enorme graça, tem uma tristeza nos olhos que dá outra dimensão à sua personagem. Ele, elegante rapaz, cria seu galã com delicadeza e entoa com grande dignidade a canção mais célebre do espetáculo (Beatriz, imortalizada na voz única de Milton Nascimento).

Fernando Eiras vive, com impressionante entrega, o Administrador do circo. Ator iluminado pelos deuses do tablado, emite luz própria e tem domínio do palco. Sua atuação é magnética. Ao seu lado, dois atores da nova geração fazem belos trabalhos. Ana Baird é a Mulher Barbada, à qual empresta bastante humor, além da melodiosa voz. Cabe a ela uma forte cena, ao lado de Marcelo Nogueira (Banqueiro), cantando A Bela e a Fera. Compondo o trio central, Reiner Tenente faz um Palhaço ora patético, ora trágico, ora cômico, mas sempre impecável.

No antagonismo, Isabel Lobo (também produtora associada) tem atuação um pouco mais linear como Charlote, alcançando alguma variação apenas no momento de cantar Sobre Todas as Coisas. Momento mezzo trash-mezzo glamour é o que vive Paula Flainbann em sua boa cena como Lily Braun, a dona do cabaré desejada por tantos homens. No geral, têm ótimas atuações todos do elenco, formado ainda por Felipe Habib, Renan Mattos, Thadeu Torres (que chama a atenção em emocionante cena de garoto mutilado de guerra), Juliana Medella, Leo Abel (ótimo trabalho corporal), Natasha Jascalevich (encantadora como Anjo), Douglas Ramalho, Luciana Pandolfo e Beatriz Lucci.

Contra fel, moléstia, crime, não há doutor que não prescreva O Grande Circo Místic online o. Para o ressurgimento da alegria, do amor, do encantamento, da magia e do sonho, o santo remédio é um só: música nos corações.

 

O Grande Circo Místico

Texto: Newton Moreno e Alessandro Toller
Direção: João Fonseca
Elenco: Letícia Colin, Gabriel Stauffer, Fernando Eiras, Ana Baird e outros.

 

Theatro Net Rio – R. Siqueira Campos, 143, sobreloja, Copacabana, Rio de Janeiro/RJ. Tel.: (21) 2148-8060

 

Qui e sex às 21h | sáb às 21h30 | dom às 20h
R$ 100 (mezanino) | R$ 150 (plateia)

 

Classificação: não recomendado para menores de 12 anos

Duração: 165 minutos (com 15 de intervalo)
Até 27/7/2014