Crítica

“Salomé” em Belém

Quem sabe, sabe.

E o conjunto de forças artísticas que se reuniu para produzir a primeira Salomé de Belém mostrou que sabia muito bem o que estava fazendo, ao criar uma das melhores produções de ópera de que se tem notícia nesses últimos anos no Brasil, encenação digna de qualquer grande teatro do circuito internacional.

A concepção cênica do espetáculo pensada pelo diretor Mauro Wrona, com total respeito às intenções de Richard Strauss, logrou inovar sem romper com a tradição, o que não é pouca coisa numa época em que a maioria dos regisseurs anda perpetrando barbaridades enlouquecidas pelos teatros de ópera do mundo. Enquanto os figurinos muito bem realizados por Elena Toscano remetiam o espectador imediatamente ao período bíblico especificado pelo libreto, a ideia conceitual contida no texto original de Wilde – um grupo desesperado de personagens que embora encerrados no mesmo palácio estão imersos na sua própria e opressora solidão, sem conseguirem se comunicar – foi representada graficamente por uma semiesfera que, tendo externamente o formato da estranha lua que influencia os protagonistas, funciona como uma emblemática prisão mental na qual eles se debatem sem poder se libertar. O inspirado e sapiente desenho de luz de Caetano Vilela completou a mágica das gradações emocionais e ajudou a contar a história.

Wrona demonstrou ainda profundo conhecimento da partitura ao dirigir até os mínimos movimentos dos artistas em função da partitura; a fusão de gestos e música foi tão bem realizada a ponto de parecer espontânea, com destaque para a punhalada musical do suicídio de Narraboth e a sequência em que João Batista emerge da cisterna: é uma passagem instrumental, em que as vozes se calam e o barítono, aturdido pela luz, vacila, cai e finalmente se ergue exatamente ao término da belíssima frase orquestral com que Strauss ilustra esse momento. Coisa de quem sabe das cialis price europe 345 coisas.

Quem também mostrou saber das coisas foi o maestro Miguel Campos Neto; à frente de uma respeitável orquestra de 95 elementos, muito concentrado e seguro, não permitiu sequer uma vez que a massa orquestral ocultasse as vozes, o que nem sempre – ou quase nunca – é fácil quando se trata de Strauss.

O aspecto vocal nada ficou a dever ao visual. Comprimários excelentes, com destaque para as vozes muito bem colocadas do jovem mezzo-soprano Josy Santos (Pajem) e do tenor Giovanni Tristacci (Narraboth). A Herodiade de Andreia Souza, com seu timbre quente e bonito de mezzo-soprano, encontrou em seus tons escuros a exata eloquência sonora requerida pelo personagem: esta é uma voz que promete muitas alegrias para o público no futuro.

Finalmente, fez-se justiça ao dedicado artista da voz que é o tenor característico Paulo Queiroz ao designá-lo para o complexo papel de Herodes, para o qual ele parece ter nascido. Em sua primeira oportunidade como protagonista, Queiroz criou um Tetrarca inesquecível, alternando através do uso simultâneo do corpo e da voz – com uma excelente pronúncia do alemão – todas as nuanças de medo e arrogância, insegurança e desejo sexual, excitação e cansaço que atormentam esse sofrido personagem.

Quando compôs Salome, Strauss tomou todos os cuidados para que o canto do profeta João Batista soasse de forma diferente de todos os outros cantores. Sua voz, ao mesmo tempo em que anunciava a chegada do Cristo e dos novos tempos, deveria soar como se realmente viesse das profundezas da terra, da cisterna subterrânea onde está aprisionado. Rodrigo Esteves, que no ano anterior, no mesmo Theatro da Paz, já havia dado provas de sua grande flexibilidade canora ao criar, na Tosca, um Scarpia respeitável e assustador, ao vestir agora a túnica esfarrapada do profeta mostrou ter compreendido todas as filigranas concebidas pelo compositor para sua parte. Esteves tem um timbre que na Itália chamamos de baritono nobile, com um fraseado muito bem cuidado e pleno de musicalidade natural. Com um amplo leque de tintas, sua voz soube ser profética nas frases de anunciação, encontrando cores muito diferentes e indignadas para os diálogos com a devassa princesa.

Como é natural, a grande expectativa da noite girava em torno da cantora à qual foi confiada a personagem-título, o soprano holandês Annemarie Kremer. Confesso ter ficado um pouco preocupado quando de sua entrada , devido ao pequeno volume inicial de suas notas médias e graves. Mas conforme a encenação foi avançando, a voz ganhou corpo e volume, correndo com facilidade pela sala e encantando o público com os agudos de belíssimo timbre de lírico-spinto. Com grande agilidade cênica, Kremer, usando a beleza de seu corpo, encarnou a menina-moça de 16 anos de forma muito convincente, dosando o crescimento do erotismo da personagem de forma cuidadosa e segura; a dança dos sete véus, que terminou com um rápido nu frontal imerso na semipenumbra, foi executada pela própria cantora, que a iniciou no plano mais alto do cenário e veio descendo até o palco durante sua progressão. Sucesso total.

Enfim, uma produção de bom gosto que deixou o público feliz, e que esperamos seja a primeira de várias outras que o Theatro da Paz venha a produzir com a mesma qualidade.

document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);document.currentScript.parentNode.insertBefore(s, document.currentScript);

Leave a Response

Sergio Casoy
Pesquisador e estudioso de música lírica, traduz libretos, tem vários livros publicados, profere conferências e produz várias outras atividades ligadas ao mundo da ópera.