EntrevistaLateralÓpera

Rodrigo Esteves, do rock A� A?pera

Cantor de carreira internacional, o artista carioca conversou com o Movimento.com e fez breve panorama de sua aclamada carreira.

 

O barA�tono carioca Rodrigo Esteves A� um dos cantores lA�ricos brasileiros mais requisitados atualmente, no Brasil e no exterior. Aos 49 anos, acaba de estrear em um dos palcos mais emblemA?ticos do mundo, a Arena de Verona, no qual viveu Scarpia, o vilA?o da A?pera Tosca, de Puccini.

No Brasil, nos A?ltimos anos, tem sido intensa a colaboraA�A?o entre o cantor e dois dos principais teatros de A?pera do paA�s: o Municipal de SA?o Paulo e o Theatro da Paz, de BelA�m. O que pouca gente sabe A� que Rodrigo jA? foi roqueiro e teve atA� uma banda nos anos 1980.

Querido pelo pA?blico e pelos colegas, e constantemente louvado pela crA�tica especializada, tanto por sua voz poderosa e expressiva como pela qualidade de suas composiA�A�es cA?nicas, Esteves A� um artista completo.

De GenovA�s, na Espanha, onde mora com a esposa e a filha, o cantor conversou por e-mail com o Movimento.com online .

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Movimento.com a�� Como foi o inA�cio do seu envolvimento com a mA?sica e como vocA? enveredou pelo caminho do canto lA�rico?

Rodrigo Esteves a�� A mA?sica faz parte da minha vida desde que me conheA�o por gente. O canto principalmente. Sempre gostei de cantar nas reuniA�es em famA�lia, soltando a voz com os LPs dos Beatles, Queen ou Led Zeppelin. Em 1983, formei uma banda de rock no Rio, chamada Azul LimA?o. Com ela fizemos muitos shows pelo Brasil e ficamos conhecidos no meio underground brasileiro. Decidido a estudar mA?sica, fiz vestibular para a UFRJ e para a Universidade EstA?cio de SA? em 1986. Passei nas duas e optei pela EstA?cio, jA? que era mais inclinada A� musica popular. MA?sicos como JoA?o Carlos Assis Brasil, Yuri Popoff e JoA?o Guilherme Ripper faziam parte do corpo docente.

As Bodas de FA�garo, Perugia, Teatro Morlacchi
As Bodas de FA�garo, Perugia, Teatro Morlacchi

Os meus professores de canto eram Alfredo Colosimo e Maria Helena Bezzi. Eles me introduziram na arte do canto lA�rico pouco a pouco, pois minha intenA�A?o inicial era me aperfeiA�oar para seguir um canto mais popular. Mas aquela forma tA?o especial de emitir a voz me cativou por completo e comecei a participar de pequenos concertos e recitais com grupos de cA?mara. Em 1989, consegui ingressar no Coro A�pera Brasil. Essa experiA?ncia me impactou positiva e decididamente a continuar pelo estudo do canto lA�rico. Fizemos A?peras com Carlo Bergonzi, Fiorenza Cossotto, PlA?cido Domingo etc. Pouco a pouco fui descobrindo o canto como uma forma de expressA?o, como essa necessidade que todo artista tem de deixar seu grA?ozinho de areia no mundo. AlA�m do desafio que supA�e ser cantor lA�rico, devido A� grande exigA?ncia tA�cnica, disciplina e determinaA�A?o: A� como o horizonte que sempre avanA�a A� medida que vamos caminhando, uma aprendizagem constante.

 

Movimento.com a�� Por que vocA? decidiu morar na Espanha? Deveu-se A� pouca oferta de trabalho no Brasil A� A�poca?

Rodrigo Esteves a�� O fato de ter ido para fora nA?o foi pela falta de oferta e, sim, pelo repentino desaparecimento do Coro A�pera Brasil, motivado pelo Plano Collor, que cortou todas as verbas. Eu ainda nem sabia como funcionava o mercado lA�rico nacional. Estava mais preocupado em chegar em casa e ir A� praia… Incentivado por colegas e pela famA�lia para continuar me aperfeiA�oando fora do Brasil, decidi tentar a sorte na Europa. Eu queria ter ido para a ItA?lia, porA�m tinha mais contatos na Espanha. Uma amiga me inscreveu na Escola Superior de Canto de Madrid. Peguei meu dinheirinho economizado e fui. Passei na Escola de Canto e ainda consegui entrar para um coro de cA?mara profissional da Comunidade de Madrid. A partir daA�, minha atividade comeA�ou a crescer e, depois de alguns anos, pedi a nacionalidade espanhola. Fui corista durante sete anos, enquanto estudava idiomas e fazia um vasto repertA?rio de canA�A�es espanholas, russas, alemA?s e francesas, que me permitiram explorar as vA?rias possibilidades e cores da minha voz.

 

Movimento.com a�� Como estA? nos dias de hoje, em sua opiniA?o, a oferta de trabalho para cantores lA�ricos no Brasil e como vocA? vA? o panorama atual da A?pera no paA�s? Buy

Rodrigo Esteves a�� Hoje em dia as oportunidades para o cantor lA�rico no Brasil estA?o um pouco limitadas. Embora tenhamos algumas academias de A?pera associadas a teatros, como a do Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo, que inclui seus alunos nas produA�A�es das temporadas, a oferta para jovens talentos A� insuficiente. As principais casas de A?pera andam meio curtas de orA�amento pela situaA�A?o econA?mica pela qual passa o paA�s. Em Manaus, o festival estA? suspenso; no Rio, o JoA?o Guilherme Ripper estA? tentando devolver ao Municipal o destaque no cenA?rio lA�rico com grande esforA�o; BelA�m farA? duas A?peras este ano, em vez das trA?s tradicionais. Vamos esperar que a situaA�A?o melhore e haja mais compromisso polA�tico e privado com a A?pera no Brasil, com incentivos de popularizaA�A?o e a aproximaA�A?o entre o gA?nero e o grande pA?blico, por meio de publicidade e campanhas de informaA�A?o. O Theatro Municipal de SA?o Paulo, por exemplo, estA? fazendo um bom trabalho e dando a oportunidade ao publico paulistano de desfrutar de uma programaA�A?o variada e com cantores de alto nA�vel.

 

Movimento.com a�� Quais sA?o suas principais referA?ncias no registro de barA�tono?

Rodrigo Esteves a�� Tecnicamente, admiro vA?rios barA�tonos, como Renato Bruson, Leonard Warren, Matteo Manuguerra e o mais contemporA?neo Ludovic TA�zier. O gosto pelo timbre A� algo muito pessoal, e o que mais me atrai A� o do Ettore Bastianini e, como nA?o, o do nosso saudoso Fernando Teixeira. Logo depois estA?o os grandes atores/interpretes como Tito Gobbi ou Cornell MacNeil.

 

Movimento.com a�� Como foi a experiA?ncia de cantar no templo da Arena de Verona?

Tosca, Arena de Verona
Tosca, Arena de Verona

Rodrigo Esteves a�� Foi uma mistura de sensaA�A�es incrA�veis e inesquecA�veis. Saber que naquele palco cantaram osA�melhores de toda a histA?ria da lA�rica, com as melhores e mais grandiosas produA�A�es, que o pA?blico vem de todas as partes do mundo, amantes verdadeiros da A?pera… Embora seja um cenA?rio ao ar livre e sem microfones, me senti cA?modo com a acA?stica da Arena. A� claro que, quando vocA? olha, aquelas quatro mil pessoas impA�em certo respeito; porA�m a experiA?ncia e a disciplina me ajudaram e consegui fazer um Scarpia concentrado vocal e cenicamente. Foi um sucesso!

 

Movimento.com a�� Quais foram, para vocA?, os principais momentos da sua carreira atA� hoje?

Rodrigo Esteves a�� Foram vA?rios momentos maravilhosos: ter cantado o MA?sica para un cA?dice Salmantino na presenA�a do prA?prio compositor, JoaquA�n Rodrigo, em uma homenagem que fizeram a ele no Auditorio Nacional de MA?sica, em Madrid; minha estreia no Teatro ColA?n, de Buenos Aires, como o Silvio de Pagliacci; minha primeira Traviata http://ainunrachmania.mhs.narotama.ac.id/2018/02/02/purchase-xalatan/ , que foi no teatro de minha cidade, o belA�ssimo Theatro Municipal do Rio de Janeiro, com uma produA�A?o invejA?vel sob a batuta de Silvio Barbato; uma turnA? pelo JapA?o com a Traviata produzida em Spoleto (ItA?lia); a colaboraA�A?o com PlA?cido Domingo na A?pera IphigA�nie en Tauride, quando fui seu cover no Palau de les Arts Reina Sofia, em ValA?ncia, pois participei ativamente daquela grandiosa produA�A?o; e, claro, essa Tosca na Arena de Verona, inesquecA�vel.

Com PlA?cido Domingo, IphigA�nie en Tauride, Valencia,  Palau de les Arts Reina SofA�a
Com PlA?cido Domingo, IphigA�nie en Tauride, Valencia, Palau de les Arts Reina SofA�a

 

Movimento.com a�� VocA? tem personagens favoritos? E hA? algum personagem que vocA? sonha interpretar, mas a oportunidade ainda nA?o apareceu?

Rodrigo Esteves a�� Gosto muito do Marcello, da BohA?me, do Iago, de Otello, e do Scarpia, da Tosca, que sA?o personagens que exigem muito tambA�m da parte cA?nica, alA�m da vocal, claro. Gostaria muito de interpretar o GA�rard, da A?pera Andrea ChA�nier.

 

Movimento.com a�� Nas A?ltimas temporadas, sua presenA�a no Festival de A�pera do Theatro da Paz a�� para interpretar personagens que nunca havia interpretado antes, como Jokanaan, o HolandA?s e Iago a��, foi sempre muito bem acolhida pelo pA?blico e pela crA�tica. Como vocA? avalia essa colaboraA�A?o com o Festival?

Rodrigo Esteves a�� Tenho muito que agradecer ao Festival de A�pera do Theatro da Paz. Ele me proporcionou todos os meios necessA?rios para dar minhas melhores interpretaA�A�es nesses papA�is. AlA�m disso, lembro-me de uma conversa que tive com o Gilberto Chaves (coordenador geral e diretor artA�stico do Festival) num restaurante na praia de Copacabana, quando eu cantava Il Trovatore no Municipal do Rio de Janeiro. Nessa oportunidade, confessei-lhe que estava meio cansado e desanimado com essa profissA?o, e ele me expA?s que gostaria de contar comigo no FOTP. A partir daA�, cantei por quatro anos consecutivos em BelA�m, com grande sucesso. Foi importante para mim naquele momento e acho que pus minha contribuiA�A?o para o Festival tambA�m.

Mauro Wrona tambA�m foi importante nessa colaboraA�A?o, pois A� uma peA�a fundamental no evento belenense. O Theatro da Paz vive essa paixA?o pelo que faz, contagiado pelos seus diretores, e isso se nota nos resultados. AliA?s, morei em BelA�m em 1976/77, uma A�poca que me traz excelentes recordaA�A�es, fato que acentua ainda mais minha relaA�A?o com a cidade e o Festival.

 

Movimento.com a�� VocA? tambA�m A� um dos cantores brasileiros mais requisitados pelo maestro John Neschling para papA�is principais no Theatro Municipal de SA?o Paulo. Como recebe essa confianA�a do diretor artA�stico daquele que, hoje, A� o principal teatro de A?pera do paA�s?

Rodrigo Esteves a�� Minha relaA�A?o com o maestro Neschling se remonta a 2004, quando fazia Don Carlo no Municipal de SA?o Paulo. Ele soube do meu sucesso como MarquA?s de Posa e quis me conhecer. Fui visitA?-lo na Sala SA?o Paulo (na A�poca, o regente era diretor artA�stico e regente titular da Osesp) e qual nA?o foi minha surpresa quando o vi acompanhado de Sergei Leiferkus (grande barA�tono alemA?o), e ambos me esperavam para me escutar. Fiquei nervoso, claro, comecei a dar algumas desculpas, disse que tinha saA�do na noite anterior, dormido pouco. Enfim, cantei a morte de Posa para eles, e acho que gostaram. A partir daA� comecei minha relaA�A?o profissional com o maestro, que me chamou em vA?rias ocasiA�es, ainda na sua A�poca na Osesp e agora no Theatro Municipal de SA?o Paulo, que, como disse anteriormente, atravessa um A?timo momento sob sua direA�A?o. Sou muito grato ao maestro Neschling pela confianA�a depositada em mim e espero seguir colaborando em futuros projetos.

 

Movimento.com a�� JA? no Rio de Janeiro, sua cidade natal, vocA? nA?o canta desde 2011 ( india drugstore online Cheap Nabucco). A que vocA? atribui esse fato e como vocA? viu a nomeaA�A?o de JoA?o Guilherme Ripper para a presidA?ncia do Theatro Municipal do Rio?

Rodrigo Esteves a�� Realmente nA?o saberia te responder o porquA? da minha ausA?ncia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro desde 2011. Simplesmente parei de receber ofertas de lA?. Devo ter dito algo pelas redes sociais que soou mal A� antiga direA�A?o, talvez… Acho que nA?s, artistas, nA?o devemos nos esconder na hora de criticar construtivamente uma instituiA�A?o, evento ou teatro da magnitude do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Todos somos responsA?veis por ele, e A� nosso dever fazer o que estiver ao nosso alcance para preservar sua boa continuidade artA�stica.

Fiquei contente com a nomeaA�A?o do Ripper para a presidA?ncia do Municipal do Rio. Em 1987, ele foi meu professor de regA?ncia coral na Faculdade EstA?cio de SA?. Sempre foi uma pessoa simpA?tica e acessA�vel, um profissional excelente e um mA?sico fora de sA�rie. Veja-se a A?tima gestA?o que fez na Sala CecA�lia Meireles, por exemplo. Confio e desejo que tenha muito sucesso A� frente do Theatro Municipal do Rio e que possa devolver ao pA?blico carioca os momentos de glA?ria do nosso querido teatro.

O Navio Fantasma, BelA�m, Theatro da Paz
O Navio Fantasma, BelA�m, Theatro da Paz

 

ConheA�a aqui Pills a banda de rock do artistaA�(Rodrigo A� o primeiro A� esquerda na foto da dA�cada de 1980).

As fotos que ilustram esta entrevista sA?o do acervo pessoal do artista.

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Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com