Crítica

“Rigoletto” no Municipal de SP

how to buy ortho tri-cyclen lo A produção de “Rigoletto”, de Verdi, em diferentes visões e excessos de simbolismos  cênico-artísticos.

“Rigoletto”, de Giuseppe Verdi, foi a ópera escolhida,  após cem anos de inauguração do Theatro Municipal de São Paulo, a mesma de uma série apresentada pela “tournée” de Titta Ruffo, quando da temporada  entre 12/9/ e 1º de Outubro de 1911, para ser montada em nosso Municipal. Estreou na noite de 12 de Setembro, esta obra que foi uma das mais representadas nesse mesmo teatro de São Paulo, ao longo de seu dourado centenário.

Entre os grandes barítonos que o  viveram,  figuram Victor Maurel, Carlo Tagliabue, Carlo Galeffi, Leonard  Warren e Piero Cappuccilli em décadas já longínquas. No Theatro Municipal registraram-se as presenças de Tito Gobbi, Gino Becchi, ambos em 1951; Aldo Protti em 1960; Walter Monachesi (em 1966 e 1968); Paulo Fortes (1957 e 1963); Benito di Bella e Fernando Teixeira (1980) e Juan Pons, o último Rigoletto deste Municipal, ocorrido com grande êxito em 1999, sob a direção musical do Mtrº Isaac Karabtchevsky.

A figura do protagonista realça-se sobre os demais: é um dos grandes papéis de barítono verdiano (dramático). Ao longo da obra, a personagem transforma-se teatral e musicalmente, convertendo-se em humano. Entre o ser desapiedado com os cortesãos das primeiras cenas da ópera, Rigoletto mostra-nos estados de alma contraditórios (de alma malevolente à zombaria, à ira e à dor paterna ludibriada pelso cortesãos) os quais dotam o personagem de grandes possibilidades de expressões interpretativas.

Ouvimo-lo na voz de Rodolfo Giugliani (em 14 de Setembro); o enfurecido pai de Gilda, que buscando vingança contrata Sparafucile, um notório assassino, para limpar a honra da família. O cantor paulista saiu-se plenamente satisfatório na interpretação do malevolente bobo da corte. Na meditação “Pari siamo” já deu mostras do comprometimento com o seu personagem: voz bem timbrada, em técnica apurada, valeu-se de belas notas musicais para demonstrar seu potencial. Deu mostras de quanto o artista nacional pode realizar: cantou com emoção o “Cortigiani, vil razza dannata” findando-a estirado ao solo,  num  ato de total submissão e humildade,  o que lhe valeu uma salva de palmas do “caliente” público que lá estava.

Venceu assim o papel duríssimo verdiano e promete em outras óperas um bom desempenho, desde que lhe seja atribuído um personagem de acordo ao seu registro vocal. Cenicamente foi um pai amoroso, zeloso e vingativo como reza o libreto. Bruno Caproni, na noite posterior de 15 de Setembro, revelou-se um barítono mais leve e impróprio para o seu personagem. Cantou e representou com seriedade, mas não preencheu como se esperava do protagonista.

Da orquestra do Theatro Municipal regida por Abel Rocha, pode-se dizer que precisa se reestruturar, após três anos de esparsas atividades líricas e também sinfônicas, esta que esteve nesse período em mãos de Rodrigo de Carvalho, entre outros maestros, não poderia fazer milagres nesta obra verdiana tão importante da história  da ópera, estreada  no Teatro La Fenice em Veneza a 11.3.1851.  Os desencontros entre a orquestra e a articulação dos solistas denotam a falta de exercício no gênero,  diligência esta, há  tempos em recesso em nossa cidade,  fato lastimável numa megalópole ímpar chamada São Paulo.

A atribuição do papel de Gilda diversificou-se através das décadas desta mulher que descobre o fascínio do amor, a felicidade e o consequente sofrimento e morte. Sua maturação pessoal reflete-se na música que canta. Inúmeras foram as suas intérpretes e brilharam intensamente neste Theatro Municipal: Bidu Sayão, Agnes Ayres, Niza de Castro Tank, Virgínia Zeani, Teresa Godoy e Sumi Jo no decorrer de sua história.

O soprano russo Alexandra Lubchansky decepcionou. Voz de soprano lírico-ligeiro de recursos limitados,  não conseguiu atingir os agudos em muitas passagens e resolve muitos de seus ornamentos canoros de maneira favorável a si própria. Não convenceu ninguém e também não nos enganou. Cantou sem entusiasmar o público. Importar cantores assim,  sem grandes qualidades e a preços de Euros,  para que? E pensar que Andrea Ferreira pode cantar essa Gilda  muito melhor… e com mais experiência de palco.

Do elenco B,  Lina Mendes (de apenas 24 anos), é um soprano lírico de agilidade e doce timbre, de pequeno volume, todavia venceu com seu esforço os duetos e árias que deve a Verdi: “Gualtier Maldè…Caro nome” e “Tutte le feste al tempio”, deram-se  com delicadas passagens e uma coloratura de boa técnica adquirida; prevê-se então uma carreira longa ainda a palmilhar,  considerando-se a jovem iniciante da arte lírica.

O tenor ítalo-americano fez um Duque de Mântua desigual: usa umas passagens,  por conta própria e de estranha escola de canto,  cantando aos arrancos certas notas e apogiaturas, transportando e solucionando dificuldades técnicas de maneira muito esquisita. Portanto, não houve aplausos após sua ária “La donna è mobile”  prova da sua ineficiente personificação do nobre mantuano. Pouco diferente foi Marcos  Paulo – com uma voz que vacilou na afinação em diversos momentos de árias e duetos –  sua atuação vocal oscilou muito no decorrer de toda a récita inaugural do elenco B.

O baixo Luiz Molz hesitante em seu canto, também refletiu indecisamente na afinação e nas notas mais graves; ao contrário Savio Sperandio lançou-se muito bem em todo o seu trabalho cênico e,  melhor ainda no seu sonoro e belo Sparafuccille.

O diretor de cena  Felipe Hirsch, que já encenou entre nós “O Castelo do Barba Azul”, em 2008, nos apresenta uma versão “dark” do Rigoletto, com branco e preto ou cores puramente neutras, que nos remetem ao clima essencialmente dramático, numa  ópera em que,  já nos sete minutos iniciais, ocorre a “maldição” ao malevolente protagonista.

Os recursos cenográficos de Felipe Tassara e Daniela Thomás, e do iluminador paranaense Belo Bruel, atingem uma concepção teatral bastante carregada; o recurso do amontoado cênico da cena I (cortesãos em coro); o espelho d’agua do Ato III são originais e inteligentes e despertam a imaginação simbólica do público. O abstracionismo predomina neste Rigoletto, do início ao fim, trazendo um impacto aos espectadores mais acostumados ao normal tradicional. Por outro lado,  os artistas sempre tentam trazer ideias novas, originais para formar um novo homem e uma nova sociedade. Os figurinos de Verônica Julian confirmam o clima pesado e trágico do próprio libreto em três atos de Francesco Maria Piave.

Nos papéis secundários destacam-se o baixo-barítono americano de formação alemã Stephen Bronk,  de voz metálica e poderosa como Monterone; a Giovanna primorosa de Celine Imbert;  as Madddalenas de Luísa Francesconi e Edneia de Oliveira, ambas sensuais e de musicais intervenções. David Marcondes é um excelente, musical e generoso barítono como o Cav° Marullo e Eduardo Trindade um correto Matteo Borsa. Os demais: Cláudio Guimarães, Magda Painno, Daniel Lee e Gilmar Aires,  satisfatórios em pequenas pontas. Coros eficientes e bem marcados cenicamente por Felipe Hirsch.

Escrito por Marco Antônio Seta em 16 Setembro de 2011

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4 Comments

  1. Assisti à récita do dia 17, com o elenco “A.” De fato, o tenor Capalbo recorreu a expedientes vocais um tanto quanto estranhos (bem descritos pelo crítico). Em “Parmi veder le lagrime” cantou tudo “forte” ou “fortissimo”, o que contraria a essência da ária. Além disso, encurtou a duração ou mesmo evitou alguns dos sobreagudos do papel. Infelizmente, semitonou justamente no agudo final de “La donna è mobile” (o que pode ter causado a indiferença do público, que não irrompeu em aplausos – é fato que o maestro prosseguiu rapidamente com a frase musical seguinte, igualmente um fator inibitório). Possui um belo timbre e volume de voz mais do que adequado, destacando-se positivamente no quarteto “Bella figlia dell’amore”. Como ator, convenceu. Bela performance cênica. O barítono Caproni possui bela voz de barítono, pastosa, rica nos graves e brilhante o suficiente nos agudos. Teve o mérito de superar a contento, sem maiores percalços vocais, os desafios do papel – manteve a regularidade desde o início até o fim da récita. Entretanto, foi pouco histriônico, em um papel que aceita bem alguns excessos na interpretação. Talvez tenha sido essa a orientação do diretor. Foi bastante aplaudido ao final, merecidamente. O soprano Lubchansky cantou razoavelmente bem, ainda que nas notas mais agudas seu vibrato soasse largo, tendendo a desafinar. O baixo Molz mostrou-se seguro, com sonoras notas graves. Destaque ainda para o baixo Bronk, de grande presença cênica; a mezzo Francesconi e sua colega Imbert bastante seguras vocalmente, com boas atuações. A orquestra, ao que parece alvo de censura nas récitas anteriores, portou-se bem: destaque para o belíssimo solo de oboé em “Tutte le feste al tempio”. Boa a regência de Abel Rocha, que não encobriu os cantores e escolheu andamentos acertados. Direção de Felipe Hirsch com alguns elementos pouco convencionais (entrada em cena de Maddalena logo no dueto entre o corcunda e o assassino, no 1º ato; quase ausência de cenário no último ato, dominado pela água em cena), mas no cômputo geral convincente. Em suma, um Rigoletto que agradou bem mais do que desagradou.

  2. Chegando há pouco do “Theatro Municipal” restaurado, em todos os sentidos, com cenas de um Rigoletto, onde a apaixonada Gilda fenece no terceiro ato imersa em águas, mas sua voz limpa, sua figura frágil encanta desde a primeira cena.
    Com a vesperal, bem concorrida, escuto ao meu lado no término do espetáculo apupos de indignados ouvintes: Porcaria! Rigoletto de galocha! Fora!
    Não é para tanto. É certo que a ousadia da montagem custou à heroína uma morte de pé, mas nada pode ocultar o brilho de sua voz.
    Mais ópera para esse público que estava saudoso dos espetáculos operísticos !!!!

  3. Essa crítica foi do meu dó menor até a ponta da agulha de minha honorável filha Elizabeth. Um degradê de emoções sucumbiram pelos altos e baixos barrancos da literatura inglesa moderna. Realmente, Seta, nada mais, nada menos do que um dos melhores críticos do movimento artístico que já ousou descartar as parcialidades hexagonais dos presidentes afro-descendentes.

    Irapuan David Lopes.

  4. Agradeço a todos os elogios desta crítica. O reconhecimento das pessoas vem em resposta ao grande envolvimento e ao carinho que tenho com o gênero lírico-dramático, em mais de quarenta anos dedicados à ópera em São Paulo, lembrando-me de inúmeros artistas que pude aqui apreciar.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.