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Resumo da ópera 2020

O ano de 2020 ficará marcado na vida de todos ou quase todos os habitantes do planeta pela pandemia de Covid-19, doença causada pelo chamado “novo coronavírus” (SARS-CoV-2). Transmitido pelo ar, o vírus com índice de letalidade capaz de, literalmente, parar o mundo, pelo menos durante alguns meses acendeu o sinal vermelho para a toda a população mundial.

Depois da paralisação e do choque iniciais, os países começaram, aos poucos, a tentar retomar as suas atividades. Aqui no Brasil, claro, tudo virou bagunça como de costume: o álcool em gel, as máscaras e o distanciamento social deram lugar ao desleixo sanitário e às aglomerações, tudo em nome da economia e do individualismo. Governado em geral por gente despreparada (e não falo aqui apenas do governo federal), nosso país possui alguns dos maiores números absolutos do mundo, seja em contágio, seja em letalidade.

As artes como um todo, e especialmente aquelas de caráter performático, como a ópera, sofreram muito. As atividades foram quase totalmente paralisadas: artistas ficaram sem trabalho no palco; teatros interromperam suas temporadas (alguns sequer deram início à sua programação artística); falou-se muito em “novo normal” e também em “reinvenção”; lives, transmissões de produções passadas via redes sociais, conversas e debates on-line tomaram o lugar das montagens líricas e dos concertos. Nunca antes na história da ópera no Brasil se conversou tanto! Se essas conversas levarão a algum lugar, ainda não se sabe.

Assim, este tradicional balanço do Movimento.com sobre a temporada lírica brasileira ganha um formato diferente neste ano: começa com os breves comentários do autor sobre as muitas conversas mencionadas no parágrafo anterior; em seguida, lista em forma de tópicos e divididos por trimestre os principais acontecimentos envolvendo a ópera em nosso país neste ano que termina (os tópicos incluem breves análises quando pertinente); e, por fim, apresenta o que já foi anunciado oficialmente para 2021.

É importante também esclarecer que, excepcionalmente, o Movimento.com não apresenta as suas indicações dos melhores do ano de 2020, em virtude de a pandemia de Covid-19 ter impedido a apreciação in loco dos poucos espetáculos líricos que foram realizados.

 

Soluções ou parolagem?

Como registrado três parágrafos acima, “nunca antes na história da ópera no Brasil se conversou tanto! Se essas conversas levarão a algum lugar, ainda não se sabe”.

Não é de hoje que as cabeças pensantes (algumas nem tão pensantes assim…) da ópera no Brasil dialogam. Já foram organizados, ao longo dos anos (talvez décadas), reuniões, debates, etc…, etc… entre os representantes dos principais teatros brasileiros. Essas conversas nunca chegaram realmente a algum lugar, no máximo resultaram em colaborações pontuais que logo eram descontinuadas. Excesso de vaidade, brigas políticas e divergências artísticas, dentre outros fatores, sempre dificultaram uma parceria real e contínua entre dois ou mais teatros de ópera brasileiros.

Em um ano como 2020, no qual já foi possível antever as dificuldades da futura retomada das produções líricas no pós-pandemia, essas conversas passaram a ocorrer de forma mais frequente, muitas vezes abertas ao público através de transmissões nas redes sociais e outras plataformas. E, pelo menos em algumas às quais assisti, foi possível perceber um real interesse dos debatedores em promover uma união mais consistente entre os teatros brasileiros e a classe lírica como um todo. A própria criação do Fórum Brasileiro de Ópera, Balé e Música de Concerto confirma essa percepção.

Do interesse à realidade, no entanto, há uma distância, e nem sempre ela é curta. É preciso saber fazer o discurso se tornar prática contínua. E nesse percurso, é preciso tomar cuidado com os “falsos profetas” – aqueles que costumam defender, por exemplo, o intercâmbio de produções, desde que as produções escolhidas para circular sejam as deles.

Atentemos para o que disseram quatro debatedores da Temporada de Ópera on-line da Fundação Clóvis Salgado (certamente o evento mais completo que debateu a ópera em 2020, com temas muito pertinentes). Silvio Viegas, regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, colocou o dedo na ferida na mesa Patrimônio e contemporaneidade:

“Nós vivemos num país de dimensões continentais. É claro que tirar um espetáculo de Belo Horizonte e levar para Manaus, ou do Rio de Janeiro e levar para Manaus é uma distância muito grande. Seja de caminhão ou de avião, isso vai custar muito dinheiro. No entanto Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro são centros produtores de ópera e que poderiam, sim, ter um intercâmbio constante, como nós tivemos, por exemplo, em 2011 e 2012. Nós produzimos ópera em conjunto (…). O problema todo é que a coisa funciona se: o diretor do teatro de São Paulo é amigo do diretor do teatro do Rio, então funciona; mas é inimigo do diretor do teatro de Belo Horizonte, então não funciona com BH. E é isso que é muito ruim, porque no final das contas nós fazemos ópera com o dinheiro do povo, é o povo que paga pela ópera. Então deveria ter uma forma de obrigar que esse dinheiro que é público seja melhor investido. Então não me interessa se eu não gosto do diretor A ou B (diretor, que eu falo, administrador), ele pode definir quem vai dirigir, quem vai reger, quem vai cantar, não tem problema nenhum, mas se fosse obrigado a circular um título que fosse, já teríamos três títulos garantidos em cada uma dessas casas. Se a gente ampliar isso, vai ter um número muito maior. São Paulo tem duas casas de ópera, já seriam quatro títulos. E por que não fazer? (…)”

Já na mesa Intercâmbio de montagens e trabalho em rede, Evandro Matté, diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, defendeu que as parcerias sejam criadas no início do processo, e não depois que uma produção já esteja pronta e realizada. Ele crê que a parceria realizada antes da produção, com divisão de custos, facilitaria uma circulação mais efetiva.

Nessa mesma linha, Tarcísio Santório, presidente da Companhia de Ópera do Espírito Santo e diretor geral do Festival de Música Erudita do mesmo estado, defendeu que, no início, quando um teatro compra uma concepção de ópera de um encenador, cenógrafo, etc., já deveria haver um diálogo no sentido de possibilitar a circulação do espetáculo. Ele pergunta, por exemplo: se determinada montagem circulasse, seria necessária a presença do encenador e do figurinista que criaram o espetáculo (o que certamente tornaria mais cara a circulação), ou bastaria que a remontagem passasse pela avaliação desses criadores originais? Segundo Santório, é preciso, ao mesmo tempo, respeitar os criadores dos espetáculos e criar condições, desde o contrato original, para que não haja entraves para a circulação.

Ainda na mesma mesa, uma das mais ricas sobre esse assunto, o regente André Cardoso, vice-presidente da Academia Brasileira de Música, professor da Escola de Música da UFRJ e ex-diretor artístico do TMRJ (na época da elogiada gestão Ripper), tocou em um ponto nevrálgico: “(…) Depende de nós. Depende muito menos de níveis de gestão acima de nós, do que nós, enquanto setor, nos organizarmos e chegarmos com propostas – coisa que nós nunca fizemos. Nunca houve no Brasil uma política nacional de desenvolvimento para a ópera porque o setor ‘ópera’ nunca foi capaz de formular uma política e apresentar essa política. Ou seja, nós não podemos esperar que quem não é do setor, que quem não é o profissional da área vá, do nada, estabelecer uma política de desenvolvimento para a ópera. Somos nós que precisamos propor essa política (…)”.

Assim, pegando o gancho de André Cardoso, encerro os breves comentários iniciais deste balanço da temporada 2020 questionando: o setor “ópera” está realmente disposto a propor essa política? O setor “ópera” está realmente engajado na busca de verdadeiras soluções que atendam à grande maioria dos artistas e profissionais que o integram, ou se limitará à parolagem de sempre? O que vem por aí entre 2021 e 2022 pode começar a responder a essas questões.

Por ora, relembremos o que aconteceu em 2020.

Elenco da ópera “O Cônsul”, apresentada em Guarulhos sem público e transmitida on-line (foto de Rodrigo Marcelo)

 

Primeiro trimestre

– Em janeiro, quando ninguém ainda fazia ideia do que viria pela frente, a Fundação Theatro Municipal de São Paulo decidiu rescindir o contrato com o Instituto Odeon, que gerenciava o TMSP desde 2017. Os desdobramentos dessa decisão viriam mais adiante ao longo do ano. Em março, Hugo Possolo deixou a direção artística da casa para assumir a Secretaria de Cultura do município de São Paulo. Prometeu-se, na ocasião, que um novo diretor artístico seria designado para o Municipal paulistano, mas, notou-se depois, ninguém no Instituto Odeon, na Fundação TMSP ou na secretaria de Cultura moveu uma palha para que isso acontecesse.

– No começo de fevereiro, o Theatro São Pedro-SP apresentou um concerto com obras do bel canto (com peças de Rossini, Bellini e Donizetti) com a orquestra da casa, regente e solistas convidados.

– Ainda em fevereiro, surgiram as primeiras notícias de que a ópera O Guarany, de Carlos Gomes, seria produzida em Campinas, cidade natal do compositor, em comemoração aos 150 anos da sua estreia mundial (a confirmação oficial se daria no começo de março). A montagem aconteceria dentro da temporada da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, mas, devido à pandemia, não pôde ser realizada. O que mais chamou a atenção deste autor, no entanto, foi o fato de a ópera mais famosa de Gomes não ter sido agendada em seu sesquicentenário por nenhum (simplesmente nenhum!) dentre os principais teatros de ópera brasileiros que já haviam anunciado, até então, as suas temporadas.

– No começo de março, depois de muita delonga, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro finalmente anunciou a sua temporada para 2020, também sem O Guarany do sesquicentenário, é claro, porque a casa tinha planos, digamos, mais personalistas: montar Yerma, de Villa-Lobos, um projeto acalentado já há algum tempo pelo seu então diretor artístico.

– A temporada própria do TMRJ sequer teve tempo de começar: em meados de março, com a pandemia de Covid-19 assolando a Europa (e especialmente a Itália), e com as primeiras notícias de infecções no Brasil, prefeitos e governadores começaram a decretar a paralisação ou a limitação de inúmeras atividades. Com isso, praticamente todos os eventos líricos agendados pelo país começaram a ser suspensos e, com o tempo, muitas dessas suspensões evoluíram para cancelamentos (inevitáveis, é preciso registrar).

 

Segundo trimestre

– Várias instituições passaram a disponibilizar o seu acervo on-line. Em abril, o Theatro São Pedro-SP começou a publicar em suas redes sociais vídeos das suas produções de ópera, dentre as quais L’Italiana in Algeri, Sonho de uma Noite de Verão (indicadas pelo Movimento.com, respectivamente, como as melhores produções de ópera de 2019 e de 2018), La Clemenza di Tito, O Peru de Natal e Don Giovanni.

– Através da emissora Rede Minas, foi possível conferir algumas produções da Fundação Clóvis Salgado, de Belo Horizonte, como O Guarany e Norma.

– O Festival Amazonas de Ópera também disponibilizou alguns poucos vídeos (dentre os quais o da ópera Diálogos das Carmelitas), e vários áudios das suas produções. Aqui, é curioso observar que há no Youtube o vídeo de Maria Stuarda, de Donizetti, produção do FAO em 2019, mas este vídeo não foi publicado oficialmente pelo Festival.

– Nas mesmas condições, sou seja, sem publicação oficial, pode-se encontrar na internet um Gianni Schicchi do Festival de Ópera do Theatro da Paz de 2007, assim como a ópera Olga, de Jorge Antunes, apresentada no Theatro Municipal de São Paulo em 2006.

– Alguns cantores, como Daniel Umbelino e Giovanni Tristacci, participaram de lives, enquanto o Theatro Municipal do Rio buscou no passado o que lhe falta no presente: algumas gravações (em áudio) de épocas em que a casa apresentava bem mais óperas do que nas últimas décadas.

– Aqui, cabe um parêntese: é uma vergonha que o TMRJ não tenha disponibilizado sequer um vídeo que fosse de suas produções líricas dos últimos anos. Será que a casa não dispõe dessas gravações? Ou talvez somente as tenha feito de forma não profissional? De qualquer forma, uma vergonha, sobretudo quando comparamos o teatro carioca com seus pares paulistanos, que possuem várias produções gravadas de maneira profissional em parceria com a TV Cultura, e com o Festival de Ópera do Theatro da Paz, que já lançou DVDs comerciais de suas produções.

– Em maio, foi a vez de o Theatro Municipal de São Paulo começar a disponibilizar os vídeos das suas montagens líricas dos últimos anos, assim como a Associação Coral da Cidade de São Paulo.

– Também a partir de maio, aconteceram vários encontros on-line entre diretores dos teatros de ópera brasileiros, alguns com participação da Ópera Latinoamérica (OLA). Foram realizadas entrevistas, conversas, debates, mesas, etc…

– Foi criado o Fórum Brasileiro de Ópera, Balé e Música de Concerto, um “movimento multissetorial, colaborativo e propositivo formado por diferentes atores da área da gestão cultural”, com o intuito de, dentre outros objetivos, unir “esforços entre o poder público, a iniciativa privada e a sociedade civil” para reverter o quadro de crise nas artes e nas instituições causado pela pandemia.

– Em junho, o tradicional Concurso Brasileiro de Canto Maria Callas não deixou de realizar, on-line, a sua 18ª edição. Mais adiante, em setembro, foi promovido um concerto com os vencedores e finalistas do concurso.

– Também em junho, a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, lançou uma iniciativa inovadora para os padrões nacionais: o Projeto Gestores 2020, com o objetivo de capacitar novos gestores e programadores para as salas de concertos. Uma ideia ótima, que deveria ser estendida também para os teatros de ópera. Por dois motivos: 1- o idealizador do projeto, João Guilherme Ripper, foi o responsável por uma gestão muito bem avaliada na sua curta passagem pela presidência do TMRJ (entre meados de 2015 e o comecinho de 2017); e 2- as casas de ópera brasileiras são “administradas” não raramente por apadrinhados políticos e/ou gente que nem sabe direito o que é ópera.

Elenco da ópera “Festim em Tempos de Peste”, apresentada on-line (foto: divulgação)

 

Terceiro trimestre

– No começo de julho, foi lançado o XIX Festival de Ópera do Theatro da Paz, que neste ano se concentrou em palestras e debates on-line sobre vários aspectos ligados à ópera, desde a sua história, até a preparação e a realização das montagens.

– Em agosto, o encenador André Heller-Lopes deixou a direção artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo substituído pelo maestro Ira Levin, que passou a acumular o cargo com o de regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal (veja mais detalhes aqui).

– No mesmo mês, Heller-Lopes e outros seis artistas promoveram junto ao Festival de Inverno on-line, organizado pela Dell’Arte, uma montagem à distância da ópera Festim em Tempos de Peste, do compositor russo Cesar Cui. Pelo tema abordado na obra (pessoas que se reúnem para jantar enquanto, do lado de fora, a peste dizima a população), foi um dos momentos mais inspirados do ano. Cada artista gravou individualmente a sua participação, e depois as partes foram editadas/mixadas, formando assim a obra completa.

– O Theatro São Pedro-SP apresentou um concerto previamente gravado com cantores da Academia do Theatro São Pedro e com a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, tendo no repertório peças de Mozart, Rossini e Bernstein. Aqui também cada participante gravou a sua parte individualmente, e depois o material foi editado/mixado. Pouco depois, em setembro, o São Pedro-SP apresentou um concerto com trechos de óperas de Verdi, Puccini e Bizet, além de zarzuelas de Penella, Sorozábal e Chapí.

– Ainda em agosto, a OSESP apresentou a estreia mundial da ópera Cartas Portuguesas, um monodrama de João Guilherme Ripper, com base em textos deixados pela freira portuguesa Mariana Alcoforado e publicados pela primeira vez em 1669. Pouco depois, em novembro, a ópera também foi apresentada em Lisboa.

– Em setembro, foi realizado o Concurso Internacional de Canto Linus Lerner – Edição Brasil, organizado pelo próprio maestro Linus Lerner e pela Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.

– O mês de setembro marcou também as estreias de Penélope-19 (uma ópera doméstica do compositor pernambucano Armando Lôbo – uma espécie de micro-ópera, com cerca de 15 minutos de duração) e da primeira parte de A Peste, opereta com música e libreto do compositor e violonista Cyro Delvizio. Ambas, claro, com apresentações virtuais. A segunda e última parte de A Peste estreou em novembro.

– No fim do mês, a GRU Sinfônica, pouco tempo depois de retomar as suas atividades com concertos on-line, apresentou a ópera Cavalleria Rusticana em forma de concerto, sem público e com transmissão pelas redes sociais.

– Foi também em setembro que a secretaria municipal de Cultura de São Paulo publicou o edital de chamamento para a seleção de uma organização social que deveria substituir o Instituo Odeon na gestão do Theatro Municipal de São Paulo. O Instituto Baccarelli solicitou a impugnação do edital, questionando alguns pontos do documento que limitariam a concorrência. Poucos dias depois, o Tribunal de Contas do Município de São Paulo suspendeu o edital, apontando vários problemas no documento.

 

Quarto trimestre

– Em outubro, a Fundação Clóvis Salgado anunciou uma Temporada de Ópera on-line, que incluiu palestras e debates sobre temas pertinentes ao meio lírico brasileiro; uma Academia de Ópera (com um curso de aperfeiçoamento para cantores líricos); e apresentações de filmes de óperas, dentre outras atividades.

– Foi também em outubro que ocorreu o Festival Internacional Ubuntu Vocalis – FIUV, uma iniciativa do grupo da Representação dos Cantores Negros do Fórum Brasileiro de Ópera, Dança e Música de Concerto, que contou com o apoio do Centro de Integração, Documentação e Difusão Cultural (CIDDIC) da Universidade de Campinas (UNICAMP). Essa primeira edição deu ênfase ao canto, mas também foram abordados outros temas inerentes ao universo da música de concerto e da ópera.

– O Theatro Municipal de São Paulo lançou três documentários sobre óperas canceladas em virtude da pandemia de Covid-19: Quando as Óperas Param, dirigido por Fernanda Maia e Zé Henrique de Paula (que também seriam os encenadores de Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli, e Homens de papel, de Elodie Bouny); Guarani em Chamas, dirigido por Marco Antônio Rodrigues; e Aida, dirigido por Bia Lessa (que também dirigiria a produção da ópera de Verdi prevista para março passado).

– Quase no fim de outubro, a “novela” sobre a gestão do TMSP ganhou mais um capítulo: a secretaria municipal de Cultura anunciou que contratou temporariamente a Santa Marcelina Cultura (que já administra o Theatro São Pedro-SP) para administrar a casa até que a seleção via edital de chamamento possa ser realizada. Isso foi necessário devido ao definitivo distrato entre a Fundação Theatro Municipal de São Paulo e o Instituto Odeon. Até a data de publicação deste texto, não há detalhes sobre a divulgação do edital de chamamento revisado.

– Em cerca de três anos de “gestão”, os representantes do Instituto Odeon nunca demonstraram saber exatamente o que fazer no Theatro Municipal de São Paulo; muitas vezes tiraram o foco central da temporada lírica para direcioná-lo a projetos paralelos; demoraram muito a indicar um diretor artístico; e, quando finalmente o fizeram, escolheram alguém de fora do meio lírico. Definitivamente, não é preciso muito esforço para concluir que o Odeon não fará muita falta ao TMSP.

– No começo de novembro, o Theatro São Pedro-SP voltou a receber público (60% de sua capacidade), com a apresentação da ópera O Telefone, de Gian Carlo Menotti, em forma de concerto cênico. A casa da Barra Funda apresentaria ainda no mesmo mês a ópera-bufa O Mundo da Lua, de Haydn, com a Academia de Ópera e a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro.

– O Theatro Municipal do Rio de Janeiro apresentou em novembro vídeos de membros do seu Coro (gravados em casa) na série Mestres da Ópera.

– A GRU Sinfônica apresentou mais uma ópera, O Cônsul, de Gian Carlo Menotti, desta vez com encenação, mas novamente sem público, apenas com transmissão pelas suas redes sociais. Assim como em Festim em Tempos de Peste, acima mencionada, O Cônsul também dialoga com esse tempo em que vivemos, ao abordar, dentre outros aspectos, a falta de empatia pelo sofrimento do outro.

– Por fim, mas não menos importante, lembramos alguns dos artistas ligados à música de concerto e à ópera que perdemos este ano para a doença causada pelo novo coronavírus: os regentes Naomi Munakata e Martinho Lutero Galati de Oliveira; o barítono Eladio Pérez-Gonzáles; e o pianista Luiz Senise. Outra importante perda, esta não decorrente de Covid-19, foi a de Iacov Hillel. O encenador, responsável por importantes produções líricas nas últimas décadas, lutava contra um câncer desde 2018.

 

O que há para 2021

Segue abaixo o que há de ópera ou trechos de ópera na programação já anunciada para 2021 por algumas instituições. Evidentemente, os eventos citados podem ser revistos devido à evolução/involução da pandemia:

– O Festival Amazonas de Ópera, que havia divulgado inicialmente que a sua edição de 2020 (suspensa pela pandemia) seria realizada on-line em novembro, acabou cancelando de vez a sua realização e aproveitou para anunciar que a edição de 2021 será virtual, incluindo três óperas de câmara escritas especialmente para o evento: Três Minutos de Sol, com música de Leonardo Martinelli e libreto de João Luiz Sampaio (prevista para 25 de abril); O Corvo, com música e libreto de Eduardo Frigatti, que tem por base obras de Edgar Allan Poe e Machado de Assis (prevista para 02 de maio); e Moto-Contínuo, de Piero Schlochauer, sobre libreto de Beatriz Porto, Isabela Pretti e do próprio compositor (prevista para 09 de maio). As partes orquestrais e vocais serão gravadas separadamente, e depois o material será editado/mixado. A programação inclui ainda concertos, recitais, mesas-redondas e masterclasses.

– A Cultura Artística, de São Paulo, anunciou em sua temporada 2021 a presença do contratenor polonês Jakub Józef Orlinski, acompanhado do grupo Il Pomo D’Oro, com apresentações marcadas para os dias 03 e 04 de agosto.

– A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais incluiu um pouquinho de ópera na sua programação para o próximo ano: Cartas Portuguesas, de Ripper, será apresentada nos dias 10 e 11 de junho; e aberturas e trechos de óperas de Carlos Gomes, que serão gravados para um futuro lançamento pelo selo Naxos, integram os concertos agendados para os dias 15, 16, 22 e 23 de julho.

– A OSESP também já divulgou a sua próxima temporada, que inclui em junho (dias 10, 11 e 12) uma apresentação da ópera A Voz Humana, de Poulenc, com a soprano Anna Caterina Antonacci.

– A GRU Sinfônica anunciou para 2021 uma programação que inclui, em junho, a apresentação encenada de O Turco na Itália, de Rossini, dentro da série No Mundo da Ópera, e, ainda, o 1º Festival de Ópera de Guarulhos, previsto para acontecer entre 23 de setembro e 24 de outubro. O Festival apresentará Rusalka, do tcheco Antonín Dvořák, nos 180 anos do seu nascimento (a obra, originalmente prevista para ser encenada em 2020, ficou para o ano que vem devido à pandemia); a reprise de O Cônsul, do ítalo-americano Gian Carlo Menotti, apresentado originalmente este ano; e ainda uma Gala Lírica em homenagem a Giuseppe Verdi.

– Cabe ainda mencionar que, em meados de dezembro, já sob a gestão temporária da Santa Marcelina Cultura, o Theatro Municipal de São Paulo lançou uma programação para o finzinho de 2020 e para os primeiros quatro meses de 2021 que não contempla a ópera.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com