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Resumo da ópera 2019

Um balanço da temporada e a indicação dos melhores do ano em nível nacional. Melhor produção de ópera é do Theatro São Pedro pelo segundo ano consecutivo.

 

Depois de um 2017 sombrio e de um 2018 ligeiramente melhor, 2019 até que foi positivo para a ópera no Brasil. No ano que agora termina, houve teatro que voltou a apresentar uma temporada digna, como o Municipal do Rio, assim como o Festival Amazonas ensaiou uma retomada de títulos interessantes. Os demais teatros que produzem ópera regularmente no Brasil (Municipal e São Pedro, ambos de São Paulo, da Paz, de Belém, e Palácio das Artes, de Belo Horizonte), de modo geral, mantiveram o patamar de anos anteriores.

O Movimento.com apresenta o seu já tradicional balanço da temporada nacional de óperas, resumindo o que aconteceu nas cinco cidades que são as principais produtoras líricas do país. E, como também já se tornou tradição, o autor deste balanço aponta os melhores do ano, dentre tudo o que viu e ouviu nas 13 produções líricas completas e outras em forma de concerto ou concerto cênico que pôde conferir em 2019 no Brasil.

 

São Paulo

Por mais uma temporada, o principal teatro de ópera de São Paulo foi o Theatro São Pedro, que apresentou pelo segundo ano consecutivo a temporada mais consistente e melhor planejada da cidade. Além disso, nunca poderá haver ópera de qualidade sem regentes que entendam verdadeiramente a ópera e saibam como conduzi-la e interpretá-la adequadamente. A interpretação musical de uma ópera começa e termina no regente. E é interessante e ao mesmo tempo curioso que, mesmo sem um(a) regente titular, o Theatro São Pedro ganha do seu irmão paulistano de goleada neste quesito elementar.

O ano começou sob risco na casa da Barra Funda, com a ameaça de cortes orçamentários que poderiam inviabilizar a temporada. Depois que a ameaça foi espantada (relembre aqui), a Santa Marcelina Cultura, organização social que administra o São Pedro, anunciou a sua temporada completa, formada por quatro títulos que receberam montagens profissionais e mais dois com alunos da Academia de Ópera ligada ao teatro: La Clemenza di Tito, de Mozart; O Caso Makropulos, de Janáček; L’Italiana in Algeri, de Rossini; Ritos de Perpassagem, de Flo Menezes (obra que pode proporcionar uma boa discussão sobre se é mesmo uma ópera ou não); A Estrela, de Chabrier; e O Peru de Natal, de Leonardo Martinelli (esta última, uma coprodução com a Cia. Ópera São Paulo).

Em outubro, uma notícia preocupante acompanhou a divulgação da temporada 2020 do Theatro São Pedro. Por imposição da secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado de São Paulo, o São Pedro passaria a mesclar óperas e musicais em sua programação, sem, no entanto, receber aumento orçamentário. Isso, evidentemente, pode significar a redução do espaço para a ópera e para os cantores líricos na programação da casa. Relembre aqui um artigo específico sobre o caso.

Para 2020, a Santa Marcelina ainda conseguiu tangenciar essa imposição da secretaria com duas obras que o público da ópera aceitará sem maiores questionamentos: o musical West Side Story, de Bernstein; e a ópera Porgy and Bess, de Gershwin, que muita gente classifica, a meu ver equivocadamente, como musical. Também integrarão a programação do próximo ano na Barra Funda as óperas Ariadne em Naxos, de Strauss; e Os Capuletos e os Montéquios, de Bellini. A temporada lírica 2020 do Theatro São Pedro é complementada por dois títulos que serão apresentados pelos alunos da Academia de Ópera da casa: O Mundo da Lua, ópera-bufa de Haydn; e Moscou, Cheryomushki, opereta de Shostakovich.

As questões que ficam são: como ficará a programação do Theatro São Pedro para 2021 se a casa for mesmo obrigada a apresentar mais musicais? O espaço para a ópera será mesmo reduzido? Leia aqui entrevista exclusiva com Paulo Zuben, diretor artístico-pedagógico da Santa Marcelina Cultura, sobre este e outros assuntos ligados ao São Pedro.

Por sua vez, o Theatro Municipal de São Paulo, administrado há pouco mais de dois anos pelo Instituto Odeon, abriu a sua temporada com apenas uma ópera oficialmente anunciada, O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Apenas em abril a casa confirmou que o segundo título do ano seria um Rigoletto, de Verdi, proveniente do Teatro Colón, de Buenos Aires (apesar de a produção ter sido apresenta inicialmente na Argentina, seus cenários e figurinos precisaram ser totalmente refeitos no Brasil). E somente em meados de julho o TMSP viria a anunciar que a sua temporada lírica de 2019 seria complementada pela ópera Prism, de Ellen Reid, e pela opereta A Viúva Alegre, de Lehár (críticas aqui e aqui).

Ainda no fim de fevereiro, o palhaço, ator e diretor Hugo Possolo foi nomeado diretor artístico do TMSP, e passou a ocupar o cargo que ficara vago na instituição por cerca de um ano e meio. Como Possolo demorou muito a anunciar a programação lírica da casa, mas foi ligeiro em programar penduricalhos, como peças de teatro e até eventos ligados ao circo, sob a desculpa um tanto vaga de que a programação da casa deveria ser pautada no “multiculturalismo”, a direção do TMSP foi bastante criticada ao longo do ano, até mesmo nas redes sociais (relembre aqui e aqui).

Para 2020, com a primeira temporada totalmente programada pelo seu novo diretor artístico, o TMSP finalmente anunciou uma programação lírica mais robusta, com sete títulos em seis produções diferentes: Aida, de Verdi; uma dobradinha de Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli, e Homens de Papel, de Elodie Bouny (novas óperas baseadas em peças de Plínio Marcos); Don Giovanni, de Mozart; Benjamin, de Peter Ruzicka; Fidelio, de Beethoven; e a opereta O Morcego, de Johann Strauss Filho.

Mesmo essa temporada mais robusta não escapou de algumas críticas, pois Aida e Don Giovanni foram apresentadas há relativamente pouco tempo no TMSP, durante a gestão artística de John Neschling, e as produções dessas obras em 2020 não serão remontagens, mas sim produções novas. Com tantas óperas que não são apresentadas em São Paulo há mais tempo, por que reapresentar esses dois títulos agora? E por que não aproveitar as montagens já existentes, preferindo-se gastar dinheiro público em produções novas? Quaisquer respostas a essas perguntas dificilmente serão satisfatórias.

No apagar das luzes de 2019, uma notícia de que a secretaria municipal de Cultura de São Paulo decidiu alterar o modelo de gestão do TMSP – o que poderá levar até mesmo à substituição do Instituto Odeon na gestão da casa –, cria novas interrogações sobre como será o ano do Municipal paulistano. Essa, a propósito, tem sido a tônica de toda a gestão do Instituo Odeon até aqui: muitas perguntas e quase nenhuma resposta satisfatória.

Para além dos dois teatros de ópera de São Paulo, outras duas instituições tradicionais da cidade apresentaram programas com grandes cantoras líricas em 2019. O Mozarteum Brasileiro apresentou um excelente concerto da mezzosoprano letã Elīna Garanča. Já a Cultura Artística ofereceu um concerto não menos importante com a mezzosoprano norte-americana Joyce DiDonato e a orquestra de câmara Il Pomo d’Oro.

Em 2020, estão previstas novas apresentações líricas nas duas instituições: o Mozarteum Brasileiro trará a São Paulo a soprano Latonia Moore (em 27 de maio); enquanto a Cultura Artística contará com apresentações do contratenor Philippe Jaroussky (em 27 de outubro) e do aclamado tenor Piotr Beczala (em 10 de novembro). Beczala também se apresentará no Rio de Janeiro pela temporada da Dell’Arte (em 5 de novembro).

 

Rio de Janeiro

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro teve em 2019 um ano de retomada de atividades, depois de um fraquíssimo 2018. Com a troca política no governo estadual, houve uma mudança de rumo também na secretaria estadual de Cultura, bem como no Theatro Municipal, ainda que os nomes que assumiram a secretaria de Cultura, a presidência e a direção artística do TMRJ também tenham participado, em algum momento e de alguma forma, do governo anterior.

A primeira boa notícia do ano foi a nomeação de Luiz Fernando Malheiro para o cargo de regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. Malheiro, no entanto, durou pouco no cargo, deixando a casa em meio a problemas de contingenciamento orçamentário (relembre aqui). Poucos meses depois, o norte-americano Ira Levin foi nomeado para o posto deixado pelo regente brasileiro. Já a notícia mais triste do ano chegou no fim de maio, com o falecimento do locutor oficial da casa, Neilton Serafim Ferreira.

O Municipal do Rio apresentou cinco títulos líricos em 2019, dentre os quais um em forma de concerto (Côndor, de Carlos Gomes), outro em forma de concerto cênico (Os Contos de Hoffmann, de Offenbach), e três encenados: Fausto, de Gounod; Orphée, de Philip Glass (críticas aqui e aqui); e Ievguêni Oniéguin, de Tchaikovsky. Foi uma temporada digna, que transcorreu bem, ainda que com ressalvas e na medida das possibilidades financeiras do TMRJ, até Orphée, dando um passo atrás na última ópera do ano, quando o título escolhido não foi o mais adequado para o orçamento extremamente enxuto disponível.

Dentre as ressalvas supracitadas, devem ser mencionadas a onipresença do diretor artístico da casa como encenador de três dos quatro títulos com algum tipo de encenação; a qualidade das performances da Orquestra e do Coro do Theatro Municipal, que estiveram aquém de um mínimo aceitável na maior parte do ano; e certa repetição contumaz de solistas secundários e terciários oriundos do Coro do TMRJ, a saber: um baixo, um barítono e um tenor participaram, cada um, de três produções. Além disso, vale registrar também que nada menos que nove solistas dentre principais, secundários e terciários participaram de pelo menos duas produções cada um. Será que essa quantidade de repetição de solistas é realmente necessária, com tantos artistas por aí precisando trabalhar?

Outro problema que a casa precisa enfrentar com urgência é a questão da frequência do público em óperas. Ao contrário do que ocorre em São Paulo, em que todas as récitas de todas as óperas deixam os auditórios cheios, quando não lotados, no Rio, em algumas ocasiões, encher o Municipal é tarefa complicada. O público carioca não é tão aberto a títulos contemporâneos quanto o paulistano, e, quase sempre, vemos na plateia do TMRJ os mesmos rostos de sempre. Até mesmo uma ópera romântica como Ievguêni Oniéguin teve récitas com pouco público.

Essa é uma questão que pode ser difícil de resolver no curto prazo. Anunciar uma programação anual, e não a conta-gotas como se fez em 2019, e se possível detalhada, pode ser um ponto de partida para atrair o interesse de um público maior, ao gerar expectativa sobre o que está por vir ao longo do ano. Para o público de ópera, essa costuma ser uma demonstração essencial de respeito e seriedade.

Esses apontamentos acima registrados visam tão somente demonstrar o que ainda precisa ser enfrentado, equacionado e, se possível, resolvido de forma definitiva pelos gestores do TMRJ, mas eles não devem turvar a visão de que a temporada 2019 da casa foi, no geral, positiva, e bastante superior às duas temporadas anteriores (as de 2017 e 2018).

Voltando exatamente aos aspectos positivos da temporada, a série Grandes Vozes no Rio de Janeiro, uma parceira do TMRJ com a empresa Grandes Vozes, trouxe ao Rio quatro cantores internacionais para concertos acompanhados da Sinfônica do Theatro Municipal: Vittorio Grigolo, Michael Fabiano, Lisette Oropesa e Jessica Pratt. Se a apresentação de Grigolo foi decepcionante, os outros três artistas ofereceram ótimas performances, com destaque para a de Lisette Oropesa.

Para 2020, o TMRJ ainda não divulgou a sua programação, e as informações de bastidores são contraditórias. Nos últimos seis meses já ouvi tantos títulos que seria inacreditável termos no Rio de Janeiro uma temporada com todos eles. Os últimos que chegaram aos meus ouvidos foram Yerma, de Villa-Lobos, e A Viúva Alegre, de Lehár (a mesma produção apresentada este ano no TMSP), mas já ouvi falar também em A Raposinha Astuta e em Kátia Kabanová, ambas de Janáček; em O Navio Fantasma, de Wagner; em Don Giovanni, de Mozart; e até em uma dobradinha reunindo A Vida Breve, de Manuel de Falla, e Il Tabarro, de Puccini. A temporada lírica de 2020 do TMRJ deve ficar entre esses títulos, embora não com todos eles.

A programação da série Grandes Vozes, por sua vez, já está definida e deverá contar com os seguintes artistas: Sondra Radvanovsky (soprano), em 15 março; Benjamin Bernheim (tenor), em 03 de maio; Pretty Yende (soprano), em 14 de junho; Anita Rachvelishvili (mezzosoprano), em 16 de agosto; e Maria Agresta (soprano), em 13 de outubro.

 

Os Festivais de Belém e Manaus

O XVIII Festival de Ópera do Theatro da Paz, de Belém, iniciou em 2019 um novo formato depois da mudança política no governo estadual do Pará, com a consequente troca de gestão na secretaria de Cultura e na direção do Festival. Este ano, as produções do Festival foram apresentadas ao longo do segundo semestre, e não mais no espaço de dois meses, como já havia se tornado tradição.

A principal produção belenense de 2019 foi Il Matrimonio Segreto, de Cimarosa, seguida por Suor Angelica, de Puccini, e Amahl e os Visitantes da Noite, de Menotti. Concertos e apresentações de menor porte complementaram a programação. O fato de a ópera de Cimarosa ser o principal título da programação do Festival demonstra certa inconsistência na elaboração da programação.

Em Manaus, o XXII Festival Amazonas de Ópera apresentou quatro títulos, sendo três deles encenados, além de eventos de menor porte. As produções mais interessantes, pela raridade dos títulos, foram as das óperas Alma, de Claudio Santoro, e Maria Stuarda, de Donizetti, com Tosca, de Puccini, e Ernani, de Verdi (esta última em forma de concerto) complementando a programação principal.

Belém, até este momento, ainda não tem programação divulgada para 2020, mas já se sabe que a ideia inicial dos novos gestores do Festival do Theatro da Paz seria apresentar dois títulos por semestre, mudando, na prática, o formado de festival para o de temporada. Para isso, será necessária uma escolha mais consistente dos títulos em relação àqueles apresentados em 2019, mesclando grandes títulos do repertório que ainda não tenham sido apresentados no Festival com outros mais raros.

Já o Festival Amazonas, em uma iniciativa inédita no Brasil, divulgou a sua próxima programação com quase um ano de antecedência. Em 2020, deverão ser apresentados em Manaus cinco títulos: Peter Grimes, de Britten; O Menino Maluquinho, de Ernani Aguiar; Fidelio, de Beethoven; Armide, de Lully; e Attila, de Verdi. As datas divulgadas podem ser conferidas aqui.

Ainda sem o detalhamento dos elencos, o primeiro e o quinto títulos, por sua raridade no Brasil, despontam como as grandes atrações da próxima edição do Festival Amazonas, que parece voltar, assim, a oferecer uma programação formada por títulos bastante atraentes.

 

Belo Horizonte

A Fundação Clóvis Salgado (FCS), mesmo com a mudança no governo de Minas Gerais, manteve em 2019 a média de dois títulos que vem apresentando já há alguns anos. Assim, subiram ao palco do Palácio das Artes uma nova produção de O Elixir do Amor, de Donizetti, além da remontagem de La Traviata – sucesso de público e crítica originalmente apresentada em 2018.

Em 2020, a FCS deverá continuar apresentando dois títulos líricos, um por semestre. O segundo ainda está sendo escolhido, mas o primeiro já está totalmente definido: A Flauta Mágica, de Mozart. Considerando o sucesso de público que normalmente brinda as produções mineiras, já passou da hora de a FCS buscar um terceiro título anual.

 

Outras iniciativas

Cena da montagem da ópera “Vanessa”, em Guarulhos (foto de Gal Oppido).

Nem só de montagens e concertos ligados aos principais produtores nacionais sobreviveu a ópera no Brasil em 2019. Produções independentes, ligadas a pequenos produtores ou a orquestras também tiveram destaque na programação nacional e, dentre estas, nenhuma chamou tanto a atenção quanto a montagem primorosa da ópera Vanessa, de Samuel Barber, em estreia brasileira realizada pela Orquestra Jovem Municipal de Guarulhos, sob a regência de Emiliano Patarra. No fim de agosto, no Teatro Adamastor Centro, em Guarulhos, por apenas duas récitas se pôde conferir uma das melhores produções de ópera apresentadas no Brasil em 2019. Quem esteve lá viu uma encenação de cair o queixo, meticulosa, teatral até a medula e ainda muito bem cantada. Foi um dos grandes momentos da ópera no Brasil este ano, e que, para completar, ainda contou com uma plateia repleta de gente jovem.

Antes, em março, a Orquestra Sinfônica de Campinas abriu a sua temporada com uma versão em concerto de Cavalleria Rusticana, de Mascagni, sob a regência de Victor Hugo Toro. Ainda em março, Leonor, de Euclides da Fonseca, foi apresentada no Teatro Santa Isabel, em Recife, com a Orquestra Jovem e o Coro da UFPE sob a condução de Wendell Kettle, mesmo regente que, em maio, apresentou I Pagliacci, de Leoncavallo, no mesmo teatro, com o Coro da Academia de Ópera e Repertório e com a Sinfonieta UFPE.

Também em maio a Associação de Canto Coral apresentou Suor Angelica, de Puccini, na Cidade das Artes, no Rio Janeiro, enquanto o maestro André Brant conduziu a Orquestra Virtuosi em uma apresentação de Bastien und Bastienne, de Mozart, no SESC Palladium de Belo Horizonte. Em junho, a Escola de Música da UFRJ apresentou O Elixir do Amor, de Donizetti – montagem que seguiu para o Teatro Municipal de Niterói no começo de julho.

Agosto, além da já mencionada Vanessa, viu a soprano italiana Maria Pia Piscitelli interpretar as cenas finais da chamada “Trilogia Tudor”, de Donizetti, formada pelas óperas Anna Bolena, Maria Stuarda e Roberto Devereux. O concerto produzido pela Cia. Ópera São Paulo foi apresentado em Santo André, no Teatro Municipal Maestro Flavio Florence, e em São Paulo, no Theatro São Pedro (crítica aqui), com a Orquestra Sinfônica de Santo André, sob a regência de Abel Rocha. O mesmo concerto foi apresentado no Rio de Janeiro, em parceria com o Theatro Municipal do Rio, com a Sinfônica e o Coro da casa regidos por Ira Levin.

Também em agosto, a ópera A Flauta Mágica, de Mozart, foi apresentada pela Orquestra Acadêmica de São Paulo no Teatro Bradesco da capital paulista, sob a regência de Luciano Camargo. E Orfeu e Eurídice, de Gluck, foi levada na capital gaúcha, no Theatro São Pedro, com a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e regência de Evandro Matté. Mês longo para a ópera, agosto testemunhou ainda o I Festival de Ópera de Pernambuco, que contou com três títulos: Leonor, de Euclides da Fonseca; I Pagliacci, de Leoncavallo; e Carmen, de Bizet.

Em outubro, a Cia. Ópera São Paulo produziu uma montagem de Madama Butterfly, de Puccini, com a participação da Orquestra Sinfônica de Santo André e regência de Abel Rocha. As apresentações aconteceram em Santo André, no Teatro Municipal Maestro Flávio Florence, e em São Paulo, no Teatro Sérgio Cardoso. Em novembro, a produção seguiu para a Sala Ariano Suassuna, em Jacareí.

Também em novembro, a Orquestra Acadêmica de São Paulo apresentou a ópera La Bohème, de Puccini, novamente no Teatro Bradesco, sob a regência de Luciano Camargo. A Camerata Sé ofereceu Treemonisha, de Scott Joplin, no Teatro Anne Frank. O 7° Festival de Música Erudita do Espírito Santo, além de concertos e recitais, contou com produções das óperas Carmen, de Bizet, e O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. E a Orquestra Sinfônica da Bahia apresentou a ópera Lídia de Oxum, de Lindembergue Cardoso, no Teatro Castro Alves, sob a regência de Carlos Prazeres. Ainda em novembro, ocorreu o V Festival de Ópera do Paraná, com apresentações das óperas Marília de Dirceu e Sóror Mariana, ambas de Júlio Reis, e Orfeu e Eurídice, de Gluck, além de vários recitais e concertos.

Cabe esclarecer que os concertos e produções aqui listados não encerram todas as apresentações de óperas que aconteceram no Brasil ao longo de 2019. O Movimento.com parabeniza a todos os pequenos produtores e produtores independentes que fazem da ópera uma arte viva, seja nas grandes cidades ou no interior. Contem conosco para divulgar o seu evento em 2020.

E por falar em 2020, já há rumores sobre duas produções que devem dar o que falar no próximo ano: está nos planos da Orquestra Sinfônica de Campinas uma montagem de Il Guarany, de Carlos Gomes, em homenagem aos 150 anos da estreia da ópera em Milão; e a Trupe Barroca pretende apresentar em São Paulo, em local e datas ainda a definir (provavelmente no segundo semestre), a ópera Orlando, de Händel, com a participação do contratenor catalão Víctor Jiménez Díaz, regência de Sérgio Dias e encenação de Caetano Vilela.

 

Melhores do ano

Este balanço se encerra com a indicação dos principais destaques da temporada de óperas pelo Brasil, dentre tudo aquilo que o autor viu e ouviu em 2019, obedecendo às seguintes premissas:

a) para a indicação de melhor produção de ópera e para as indicações individuais da área cênica, são considerados somente espetáculos inéditos produzidos no Brasil, de forma que remontagens, espetáculos produzidos originalmente no exterior, ou trazidos de outros teatros de anos anteriores não são levados em conta;

b) para as indicações individuais de caráter musical são considerados somente artistas brasileiros ou radicados no Brasil, enquanto para as indicações individuais de caráter cênico, além dos profissionais brasileiros ou radicados no Brasil, também são considerados profissionais sul-americanos; e

c) para categorias com mais de um nome indicado, é observada a ordem alfabética do prenome.

Seguem as indicações:

Grande destaque do ano: Produção da ópera Vanessa no Teatro Adamastor Centro, em Guarulhos. “Se dinheiro é importante, boas ideias e talento ainda são essenciais”, registrei na resenha que escrevi para a montagem guarulhense de Vanessa, que recebe o grande destaque de 2019 por dois motivos: por ser uma produção de alto nível (ainda que não indicada a melhor do ano), realizada com esmero, talento e criatividade fora dos principais teatros produtores do país; e por ser um exemplo de que é possível, sim, apresentar ópera com qualidade através de iniciativas independentes ou de pequenos produtores.

Melhor produção de ópera: L’Italiana in Algeri (A Italiana em Argel), produção do Theatro São Pedro, pela raridade (inexplicável!) do título no Brasil, por sua encenação irretocável, pela ótima escalação de elenco, e pela excelente performance musical geral. É o segundo ano consecutivo que uma produção do Theatro São Pedro é indicada a melhor do ano pelo Movimento.com.

Melhor encenador: Marcelo Gama, por seu trabalho primoroso de concepção e direção em Vanessa (T. Adamastor Centro, Guarulhos), no qual o encenador extraiu do elenco interpretações irrepreensíveis.

Melhor cenógrafo: Renato Theobaldo, por seu magnífico trabalho em O Caso Makropulos (T. São Pedro), no qual os ambientes pareciam se desnudar a cada ato da ópera, da mesma forma que, aos poucos, a protagonista ia se revelando.

Melhor figurinista: Fábio Namatame (indicado pelo segundo ano consecutivo), por seu trabalho de alta qualidade em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro), no qual se destacaram os inspiradíssimos figurinos da protagonista.

Melhor iluminador: Wagner Antônio, por seus ótimos trabalhos tanto em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro), quanto em Vanessa (T. Adamastor Centro, Guarulhos), colaborando para a qualidade final de cada ambientação.

Melhor regente: Valentina Peleggi, por seu trabalho precioso de direção musical em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro), no qual se destacou a busca incansável pelo equilíbrio entre o fosso e o palco, resultando em uma performance musical equilibrada e coesa.

Melhor orquestra: Orquestra do Theatro São Pedro, por sua participação em toda a temporada da casa, e, especialmente, por suas performances consistentes em L’Italiana in Algeri e em O Caso Makropulos.

Melhor cantor: Anibal Mancini, tenor, por sua excelente atuação como Lindoro, em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro).

Melhores cantoras: Ana Lucia Benedetti, mezzosoprano, por sua soberba Isabella em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro); Luisa Francesconi, mezzosoprano (indicada pelo segundo ano consecutivo), por sua brilhante Erika em Vanessa (T. Adamastor Centro, Guarulhos); e Tati Helene, soprano, por sua não menos brilhante Vanessa na ópera homônima.

Revelações: Daniela Gogoni, cenógrafa, por seu trabalho inteligente e criativo em L’Italiana in Algeri; e Giorgia Massetani, também cenógrafa, por seu belo trabalho em O Peru de Natal (ambas produções do T. São Pedro).

Afirmação da carreira: Ludmilla Bauerfeldt, soprano, por suas ótimas contribuições como Antonia em Os Contos de Hoffmann, como Eurydice em Orphée (ambas no TMRJ), e como Elvira em L’Italiana in Algeri (T. São Pedro); Marcelo Ferreira, barítono, por sua atuação consistente como o velho Doutor em Vanessa (T. Adamastor Centro, Guarulhos); e Vinícius Atique, barítono, por suas performances qualificadas como os quatro vilões (Lindorf, Coppélius, Dapertutto e Dr. Miracle) em Os Contos de Hoffmann (no TMRJ) e como o Dr. Kolenatý em O Caso Makropulos (T. São Pedro).

 

Nota do Autor (1): a partir deste ano, as indicações de “Revelações” passam a incluir as revelações de qualquer categoria individual, musical ou cênica, e não mais apenas revelações de cantores. Assim, deixa de existir a indicação específica de “Revelação como regente de ópera”, e, no ano em que houver um(a) regente que mereça a indicação de revelação, este(a) será indicado(a) em “Revelações”.

Nota do Autor (2): escolher apenas uma dentre as três solistas indicadas como melhores cantoras deste ano seria uma decisão injusta para com as outras duas postulantes, já que cada uma das indicadas apresentou ao menos um trabalho notável ao longo do ano. Por isso, o inédito empate triplo neste espaço.

 

Foto do Post (de Heloisa Bortz): “L’Italiana in Algeri”, produção do  Theatro São Pedro.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com