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Regência de Orquestra: um dos pontos cardeais da música

Este artigo aborda um dos principais aspectos da atividade musical e se destina mais ao público de música clássica de modo geral, e não aos conhecedores em nível profissional do assunto.

Como há orquestras que tocam sem regente, muitos acham que este é desnecessário. Enganadora ilusão!! O regente é absolutamente imprescindível.

Gustav Mahler disse viagra generic equivalent “a partitura tem tudo, menos o essencial”. .Carlos Gomes,em carta a Francisco Braga, escreveu “música é expressão e expressão não se escreve”. É aquele “essencial” e esta “expressão” que serão decididos, escolhidos e trazidos aos ouvidos de todos pelo regente de orquestra.

O ponto nevrálgico e mais delicado da questão é o regente ser aceito como o ÚNICO a decidir tudo em uma execução: tempos, andamentos, ritardandos e  acelerandos, valorização e ênfase maior ou menor dos ornamentos, legatos e stacatos, duração de notas e acordes, volumes, preponderâncias de naipes e instrumentos, colorido geral da obra: alegre, triste, irônico, melancólico, amoroso, raivoso, marcial, fúnebre…….

Isso tudo no mais das vezes não se resolve de um hora para a outra e aí aparece o grande fantasma assustador de teatros e instrumentistas: os ensaios.

É impossível, por exemplo, um regente levar a público, como ele regente quer, uma sinfonia, uma ópera, um ballet, sem que TUDO tenha sido entendido, cumprido e absorvido em ensaios por todos os membros da orquestra. O exigentíssimo regente Von Karajan simplesmente não regia uma orquestra se tudo não estivesse como ele havia proposto nos ensaios.

É nos ensaios que tudo deve e pode ser resolvido, até a substituição de instrumentistas. Conta-se que um regente famoso em um ensaio com uma orquestra também famosa notou que uma das três clarinetas entrava sempre atrasada em relação às outras duas. Depois de parar o ensaio várias vezes e insistir, sem que o clarinetista entrasse junto com os outros, pediu e obteve imediatamente a substituição do clarinetista renitente.

O grande público se impressiona muitíssimo com a gesticulação do regente e a maioria destes se aproveita disso para exagerar nos gestos de comando, atuando  como no cinema ou no circo.  Não é na teatralidade dos gestos do regente que estará sua competência e sim na precisa indicação do que os instrumentistas devem fazer, quando devem entrar ou sair, quando devem tocar piano ou pianíssimo, quando devem fazer a música ser mais ou menos cantabile, e muito mais. Esses gestos de comando devem ser gestos que se insiram no terreno da música, não no do teatro. Conta-se que certo famoso regente ficava horas em casa ensaiando em frente a um grande espelho quais seriam seus gestos mais impressionantes para o público. Há no Youtube e no mercado DVD´s e vídeos com regentes célebres por sua economia e sobriedade de gestos, como Hans Knapertsbuch, George Szell, Toscanini e alguns poucos  outros.

A demonstração pelo regente  de seu amor à música e a seu trabalho é outro ponto fundamental na “química” indispensável na relação regente/orquestra. O entusiasmo do regente ao ver obtido um efeito sonoro que estava procurando é fato que traz entusiasmo aos instrumentistas, estes certamente também amantes da música.

No Brasil, é mal crônico a falta de suficientes ensaios. Há casos em que não há nenhum ensaio, principalmente quando uma orquestra já tocou muitas vezes a mesma peça com o mesmo regente.

Finalmente, a título de mera ilustração,”maestro” é um nome italiano que quer dizer “mestre”. Na Itália e em vários países,”maestro” na área musical é um título dado a qualquer elemento que se distinga por sua competência, sua fama, suas realizações. Assim, por exemplo, o tenor Pavarotti era sempre chamado de “maestro Pavarotti”, o pianista Michelangeli idem, o violinista Isaac Stern, idem. Regente de orquestra na Itália é “ direttore d´orchestra”, na França é “chef d´orchestre”, na Alemanha é “Dirigent”,  na Inglaterra e USA  é  “conductor”.  No Brasil, chega-se ao cúmulo e extrema impropriedade de chamar todo regente de orquestra de “maestro”, fato consagrado até nos dicionários. Recentemente, um regente  de orquestra brasileiro, ao declarar sua profissão em documento judicial, definiu-se “maestro”, o que despertou riso e mofa. Um regente de orquestra, assim como todos que trabalham na música, é um “musicista” de profissão, e não um “maestro”, nome muito mais pomposo e despertador de  vaidades.

MAGNIFICAT ANIMA MEA DOMINUM – BWV 243

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2 Comments

  1. Parabéns pelo artigo. Como regente, incomoda-me bastante a ação de reger. O referencial visual acaba sendo preponderante sobre o referencial auditivo.
    Da mesma forma que na partitura não está o essencial, a referência visual de uma entrada, ainda que precisa, do gesto de regência não será suficiente se os músicos não estiverem “ouvindo”.
    Devido à falta de ensaios, fruto de uma esculhambação crônica na nossa música de concerto, este referencial visual é cada vez mais necessário para se “resolver rápido”. Assim, os músicos das orquestras brasileiras acabam trocando suas referências auditivas – já enfraquecidas por uma certa ausência em suas vidas da música de câmara, pois têm que tocar em duas ou três orquestras para “viver” – pelo visual de um gestual que, sob o “mágico” pretexto de estar “tocando a orquestra” – como se ela não tivesse ânimo para “tocar-se” – serve para pôr panos quentes em situações indesejadas, onde o regente é o fantoche maior.

  2. Sou estudante de violino no CBM, RJ, e, sempre apreciadora de música clássica, de certo modo a vida toda me envolvi com o assunto, pois anteriormente também cursei piano. Então gostaria de parabenizar não apenas o seu artigo como também o site, que descobri ao acaso ao efetuar a busca de um concerto para este fim de semana. Venho aprendendo muito com a excelência das postagens que encontro por aqui. Minha admiração, agradecimentos, e um grande abraço.

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Marcus Góes
Musicólogo, crítico de música e dança e pesquisador. Tem livros publicados também no exterior. Considerado a maior autoridade mundial sobre Carlos Gomes.