CríticaLateralMúsica sinfônicaRio de Janeiro

(Re)descoberta de uma preciosidade

Sinfonia n. 2, de Lorenzo Fernandez, é destaque de concerto da OSN UFF na Sala Cecília Meireles.


Na terça-feira, 11 de julho, um concerto da série Brasilianas: 72 anos da Academia Brasileira de Música, realizado na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, marcou a (re)descoberta de uma verdadeira preciosidade da música de concerto brasileira: a Sinfonia n. 2, dita Caçador de Esmeraldas, de Oscar Lorenzo Fernandez. Coloco o prefixo “re” entre parênteses de propósito, pois certamente quase todos os presentes na sala de concertos da Lapa tiveram ali o seu primeiríssimo contato com esta verdadeira joia.

Sobre a peça, escreve o musicólogo Sylvio Lago, em seu livro Música Erudita Brasileira: “Oscar Lorenzo Fernandez tem na Sinfonia n. 2 – O Caçador de Esmeraldas a obra de sua maturidade composicional (1946-1947). Trata-se de uma criação de intenções programáticas tendo como fonte de inspiração o célebre poema de Olavo Bilac, com os versos iniciais de cada parte da poesia previstos na partitura como referência de cada movimento. Na estrutura o compositor não se afasta das fórmulas convencionais dos quatro movimentos, revelando-se um melodista original e demonstrando habilidade em converter o idioma nacional numa alta expressão artística de caráter universal”. Além das qualidades citadas por Lago, acrescento que a orquestração da obra também merece os mais entusiasmados elogios, pela sua riqueza e colorido indiscutível.

Na Cecília Meireles, coube à Orquestra Sinfônica Nacional da UFF e ao regente convidado Silvio Viegas praticamente criar a interpretação de uma obra que, segundo o próprio maestro, não era apresentada no país há mais de três décadas. E o resultado foi muito gratificante. Regente e músicos souberam explorar muito bem os predicados da peça desde o intenso primeiro movimento, Allegro moderato e pesante, passando pelo dramático Molto allegro e misterioso, e pelo expressivo terceiro movimento, Lento e lamentoso, para desembocar no Allegro mosso e agitato que conclui a obra.

Os violinos e os violoncelos se destacaram em importantes passagens da sinfonia, assim como os solistas do conjunto. Por sua vez, a dinâmica empregada pelo regente valorizou a tensão e os contrastes, revelando todos os intérpretes uma obra densa, rica e belíssima. A tal ponto que chega a impressionar como uma sinfonia desta envergadura tenha ficado esquecida durante tanto tempo. Como bem disse o maestro Viegas ao se dirigir ao público falando sobre o programa da noite, formado totalmente por música brasileira: “Se nós não fizermos, a Filarmônica de Berlim não vai fazer”.

Antes deste Lorenzo Fernandez, a noite começou com a Abertura Brasileira, de Edino Krieger, com o compositor na plateia. A interessante peça serviu de “esquenta” para o que viria a seguir. E encerrou a noite a Sinfonia Tropical, de Francisco Mignone. Segundo o compositor e professor Guilherme Nascimento, em texto para um programa da OFMG, esta peça de Mignone “se desenvolve em vários quadros curtos, quase como uma fantasia, com coloridos singulares e atmosferas contrastantes. A temática brasileira se apresenta na escolha do tema principal, de caráter nordestino, que volta e meia reaparece em diferente orquestração, como forma de ligação entre as diversas seções. Uma música exuberante, com orquestração requintada, na qual podemos perceber a mistura de arroubos sinfônicos à maneira de Villa-Lobos com o refinamento orquestral de Ottorino Respighi e certo primitivismo stravinskyano”.

Uma vez mais, a OSN e o regente mostraram-se atentos e expressivos, encerrando bem uma noite que já tinha sido ganha na peça central do programa.

Por fim, vale registrar a presença na plateia, além do já citado Edino Krieger, da viúva de Mignone, dona Maria Josephina, e da filha de Lorenzo Fernandez, dona Marina.

O maestro Silvio Viegas e o compositor Edino Krieger

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com