CríticaLateralÓperaRio de Janeiro

Rara poesia

Coprodução entre o Theatro São Pedro e o Theatro Municipal do Rio, ópera Don Quichotte encanta o público carioca.

Quem foi ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro na noite do dia 13 de abril foi testemunha da quebra de uma tradição nada lisonjeira: há décadas a casa não apresentava uma ópera do célebre compositor francês Jules Massenet (uma falha imperdoável) com a assinatura de administrações anteriores, finalmente corrigida. Como se fosse pouco, outra raridade presenciada no nobre palco da Cinelândia foi a apresentação de uma ópera em que o baixo era o grande protagonista (o Don Pasquale do ano passado não conta, uma vez que o papel-título foi interpretado, na ocasião, por um barítono).

Acharam pouco? Tem mais: a montagem, que fica em cartaz na casa até o dia 22 deste mês, é uma coprodução com o Theatro São Pedro, de São Paulo, onde estreou em março passado. O expediente dessa parceria, que contou inclusive com o mesmo elenco em ambos os teatros, possibilitou economia de custos para as instituições, mais trabalho para os artistas e demais profissionais envolvidos, e a bem-vinda ampliação do público alcançado pelo investimento conjunto. Tudo somado, vamos concordar que não é pouco.

Don Quichotte (segundo a grafia original, em francês), comédia heroica em cinco atos de Massenet sobre libreto de Henri Cain, com base na peça teatral Le Chevalier de la Longue Figure, de Jacques le Lorrain, por sua vez baseada na obra-prima universal El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, é a ópera que abriu a Temporada Lírica do Municipal do Rio neste imprevisível e conflagrado ano de 2016.

A trama da ópera representa um minúsculo recorte em relação à obra original de Cervantes, com algumas liberdades, como muito bem nos esclarece o professor Sergio Casoy em texto constante do programa de sala (recomendo a leitura), mas, ainda assim, atinge muito bem o objetivo de retratar alguns dos principais ideais quixotescos. Apaixonado por Dulcineia, Dom Quixote recebe dela uma missão como prova de amor: recuperar um colar roubado por bandidos da região. O nobre cavaleiro parte com seu fiel escudeiro, Sancho Pança, em busca de cumprir a palavra empenhada. As aventuras e desventuras do herói são contadas com rara riqueza poética até a comovente cena final.

Coroando essa noite de raridades, a música de Massenet alcança também em muitos momentos um patamar de poesia elevada, principalmente por meio da linha melódica do canto do personagem-título e de uma orquestração magistral das passagens de contemplação e reflexão, como os interlúdios da obra.

A produção assinada por Jorge Takla logra retratar com eficiência, beleza e encanto o referido recorte da trajetória de Dom Quixote, por meio de uma correta direção de atores, especialmente no que tange a figura do protagonista e a interação deste com seu escudeiro. O diretor é auxiliado sobremaneira pelos simples, mas belos e poéticos cenários de Nicolás Boni.

E faço aqui um aparte para reconhecer como é notável o quanto este profissional argentino, que trabalha com frequência nos teatros de ópera paulistanos, acerta sempre em suas criações cenográficas. O público do Rio de Janeiro, desde o ano passado, com As Bodas de Fígaro, passou finalmente a conhecer a qualidade do trabalho de Boni, e pode agora compará-lo com certas enganações que foi obrigado a “engolir” no palco do Theatro Municipal do Rio em anos recentes.

Os belos figurinos de Fábio Namatame são, em geral, fiéis ao ambiente e à época em que a trama se desenvolve, com exceção daqueles que vestem Dulcineia, que, além de extravagantes, parecem estar bem à frente no tempo em relação aos trajes dos demais personagens. A luz de Ney Bonfante evolui junto com o espetáculo, alcançando momentos mais inspirados depois do único intervalo (entre o segundo e o terceiro atos). A coreografia de Nuria Casteján complementa com correção esta linda produção, que merece circular por outros teatros além daqueles que a produziram conjuntamente.

Na récita de 13 de abril, os bailarinos contratados para a produção desempenharam bem a sua parte, assim como o Coro do Theatro Municipal, que, preparado por Jésus Figueiredo, correspondeu muito bem nas suas intervenções. Já a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal compensou a irregularidade sonora de algumas poucas passagens nos metais com outras de grande coesão, com destaque para suas cordas cálidas. A performance do conjunto particularmente nos interlúdios foi bastante expressiva, com menção especialíssima ao sublime solo de violoncelo de Pablo Uzeda no último desses interlúdios (entre o quarto e o quinto atos), um dos pontos altos de toda a partitura de Massenet. A OSTM foi conduzida por Luiz Fernando Malheiro, que, por meio de uma dinâmica precisa, conferiu unicidade entre o fosso e o palco. Luciano Câmara respondeu pelo violão flamenco.

Ricardo Tuttmann e Ciro D’Araújo aproveitaram bem a curta cena dos lacaios. Marianna Lima (Garcias) e Roseane Soares (Pedro) cumpriram suas partes sem maiores dificuldades. O barítono André Rabello esteve irregular no primeiro ato, evoluindo para uma atuação correta no quarto ato. Dentre os personagens secundários, quem brilhou foi o Rodriguez de Anibal Mancini, artista em franca ascensão no cenário nacional e que foi apontado como uma das revelações de 2015 pelo Movimento.com em seu balanço anual da temporada lírica brasileira (releia aqui). Sua linda voz de tenor correu refrescante por todo o Municipal.

 

Gregory Reinhart e Luiza Francesconi como Quixote e Dulcineia
Gregory Reinhart e Luiza Francesconi como Quixote e Dulcineia

 

A mezzo-soprano Luísa Francesconi viveu Dulcineia com grande presença e voz adequadíssima. Desde sua ária do primeiro ato, Quand la femme a vingt ans, a artista disse a que veio. Seus duetos com Dom Quixote, Vous étes, mon seigneur (primeiro ato) e Oui, je souffre votre tristesse… (quarto ato) foram musicalíssimos, mas seu maior momento em toda a récita foi a delicada, tocante e imaculada interpretação da ária Lorsque le temps d’amour a fui , pouco antes de atacar a canção Alza! Ne pensons qua’au plaisir da’imer. Francesconi ofereceu ao público carioca uma performance que ficará na memória, mas não só ela.

O barítono Eduardo Amir foi um Sancho Pança irrepreensível, talvez em uma das melhores performances de sua carreira (e certamente a melhor prestada diante do autor destas linhas). Cantou suas duas árias, Ce qui m’enchante (segundo ato) e A�a, vous commettez tous un acte A�pouvantable (quarto ato) com grande segurança vocal e última presença, especialmente a primeira. E em seus três duetos com Dom Quixote (GA�ant, GA�ant, monstrueux cavalier, J’entre enfin dans la joie! e O mon maA�tre, A? mon grand!), demonstrou estar à altura de acompanhar o protagonista. O terceiro desses duetos, no ato final, atingiu alto grau de emoção.

Coube ao ótimo baixo norte-americano Gregory Reinhart a missão de dar vida ao personagem-título, Dom Quixote, e o artista encarnou-o com grande propriedade, oferendo ao público uma interpretação irrepreensível. Quem pôde ver e ouvir este baixo de voz poderosa nas óperas A Valquíria (Hunding) e O Crepúsculo dos Deuses (Hagen), apresentadas no Theatro Municipal de São Paulo há poucos anos, já conhecia todo o seu potencial. Como o cavaleiro da triste figura, Reinhart apresentou um trabalho soberbo e, através de sua postura, seus gestos e olhares, hipnotizou a plateia, que restou encantada diante dos ideais quixotescos que o artista soube tão bem expressar.

A voz do baixo ressoou dominante por todo o teatro, exibindo sua projeção espantosa. No primeiro ato, sua serenata para Dulcineia, Quand apparaissent les étoiles, cantada com doçura, foi um belo cartão de visitas. Já na cena com os bandidos no terceiro ato, chegamos a momentos de grande expressividade, especialmente na oração do cavaleiro, Seigneur, reA�ois mon A?me, mas também na subsequente ária Je suis le chevalier errant…, e na benção que encerra o ato, Les manants, les pillards. Outro dos momentos mais tocantes da noite foi o pedido de casamento de Dom Quixote a Dulcineia no quarto ato (Marchez dans mon chemin), seguido pelo já citado dueto entre os dois personagens (Oui, je souffre votre tristesse…). No último ato, sua sensível despedida (Dulcinée! Avec l’astre A�clatant) coroou uma performance marcante.

Por tudo que foi exposto e pela quantidade de passagens citadas da partitura, pode-se notar que o ano lírico começou em alto nível no teatro de ópera do Rio de Janeiro. Visita obrigatória tanto para os amantes do gênero, quanto para os iniciantes que começam a se interessar pela mais completa dentre todas as artes. E quem ainda não garantiu seus ingressos, trate de se apressar, pois a casa já está praticamente lotada para as segunda e terceira récitas.

A próxima ópera da temporada lAírica oficial do Theatro Municipal do Rio de Janeiro será La Bohème, de Puccini, em forma de concerto, com récitas a partir de 22 de maio. Antes, em 30 de abril, um concerto oferece o Requiem de Verdi, e em 13 e 15 de maio, a ópera Serse (ou Xerxes), de Händel, será apresentada também em concerto com solistas do coro da casa e da Academia de ópera Bidu Sayão.

Fotos: Júlia Rónai

Confira também a crítica de Fabiano Gonçalves

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com