CríticaLateralÓpera

Quando a música supera o libreto

Não é raro na história da ópera: grandes obras foram escritas sobre libretos pouco inspirados ou pra lá de rocambolescos. Um dos exemplos mais perfeitos nesse sentido é a popularíssima Il Trovatore, de Giuseppe Verdi, cujo libreto tem tantas reviravoltas que se assemelha a alguns folhetins mexicanos e até mesmo brasileiros. Muitas vezes em casos assim, é a música, como a que Verdi escreveu para o seu Trovatore, que salva a ópera e a mantém no repertório como uma obra essencial.

Problema semelhante, mas não igual ao da citada obra verdiana, ocorre com O Peru de Natal, ópera em ato único e dois quadros de Leonardo Martinelli sobre libreto de Jorge Coli, baseada em um conto homônimo de Mário de Andrade, que foi apresentada no último fim de semana no Theatro São Pedro.

O grande conflito dramático presente na obra original se dá entre a onipresença da memória do “pai” – um sujeito medíocre, pequeno-burguês, falecido há poucos meses, que paira sobre a sua família enlutada – e o desejo de Joca (Raul na ópera), o narrador/protagonista do conto e filho do falecido, de confrontar essa memória expressando o seu desejo por algo “maior”, por algo a que o pai jamais almejaria, representada no enredo por uma vontade incontrolável de comer um peru no Natal que se aproxima.

O problema do libreto de Coli, a meu ver, é que o autor não consegue transportar com eficácia para a ópera o espírito medíocre do pai que domina boa parte do conto de Mário de Andrade. No original, esse espírito é onipresente, enquanto no libreto ele é reduzido a duas ou três frases e à cena da hilária pantomima do segundo quadro, em que um boneco que faz as vezes do pai luta em uma espécie de ringue com um peru! – representação do que o narrador de Andrade chamou de “luta baixa entre o peru e o vulto de papai”.

Assim, o referido conflito que é tão forte no conto se torna rarefeito na ópera. Ao se preocupar demais em acrescentar à sua adaptação cenas e ideias inexistentes no original, como a referência à Primeira Guerra Mundial e uma espécie de epílogo carnavalizado e um tanto anárquico, talvez buscando torná-la mais abrangente, o libretista acabou se desviando do centro dramático da obra.

Então quer dizer que a ópera não é boa? Nada disso, porque a música de Martinelli, para além da sua qualidade, busca em certa medida compensar essa falha do libreto. Essa música, em seu caráter atonal, pareceu-me expressar muito bem a memória onipresente do pai, estabelecendo de forma mais eficaz o conflito que o libreto deixou um tanto de lado.

Passagens como o breve funk anacrônico no momento em que Tidinha, literalmente, “solta a franga” e o samba do final servem como contraponto à atonalidade de uma obra que, curiosamente, é dividida em números, como antigamente. Assim, o compositor, ao mesmo tempo, escreve música nova e respeita o passado do gênero.

Voltando à história da ópera: o craque citado lá em cima no primeiro parágrafo, o tal do Verdi, revisou algumas de suas óperas, reconhecendo seus problemas e buscando melhorá-las. Foi assim como Macbeth e Simon Boccanegra, por exemplo.

Nada impede que o mesmo ocorra em algum momento com O Peru de Natal, ópera encomendada por Bea e Pepe Esteves e que tem a sua origem ligada a uma trilogia de Jorge Coli baseada nos ideais da Revolução Francesa: Liberdade (O Menino e a Liberdade, de 2013, com música de Ronaldo Miranda), Igualdade (O Espelho, de 2017, com música de Jorge Antunes) e Fraternidade (o presente Peru de Natal).

Por outro lado, nada impede também que o passar dos anos imponha à crítica uma revisão de opinião. Uma “raça” que já afirmou, lá nos idos de 1800 e qualquer coisa, que a Carmen, de Bizet, não sobreviveria, também tem pecados a expurgar.

Tati Helene, Pedro Côrtes e Daiane Scales.

 

Produção eficiente

Para uma produção pensada originalmente para os jovens da Academia de Ópera e da Orquestra Jovem do Theatro São Pedro, a montagem respirou profissionalismo. E isso poucas semanas depois de eu ter visto, no Rio de Janeiro, uma pseudoprodução profissional lastreada no improviso.

Concebida por Mauro Wrona, a encenação levada ao palco da casa da Barra Funda mostrou-se eficiente e bem dirigida, e todos os artistas no palco apresentaram ótimo desempenho cênico. O diretor extraiu das duas principais intérpretes femininas, especialmente, atuações impecáveis.

O cenário de Giorgia Massetani foi, ao mesmo tempo, belo e funcional, ambientando muito bem cada passagem a trama. O centro do palco serviu de mesa e também de ringue, por exemplo. Os figurinos adequados de Laura Françoso e a correta luz de Kuka Batista completaram uma encenação muito gratificante.

Na récita de domingo, 15 de dezembro, com um auditório praticamente lotado, a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro passeou bem pela difícil partitura de Martinelli, conduzida com grande segurança e maleabilidade por Miguel Campos Neto, o regente titular da Sinfônica do Theatro da Paz. Regente e orquestra estavam, como manda o protocolo, a serviço do palco.

A soprano Tatiane Reis (Rose) não comprometeu em sua curta participação durante o carnaval final, com uma linha de canto bastante aguda. O baixo Pedro Côrtes (Raul) apresentou uma voz ainda em formação, em que até o timbre parece não estar totalmente ajustado (o cantor é jovem, e vozes graves costumam mesmo demorar mais para amadurecer).

A soprano Daiane Scales interpretou a tia Tidinha com grande segurança, voz bem timbrada e expressiva, e excelente projeção, alcançando um ótimo rendimento em sua ária, Eu era moça do chifre furado. Um nome, definitivamente, para se prestar atenção.

Artista convidada da produção, a experiente soprano Tati Helene deu vida à mãe Maria Luísa com grande presença e amplos recursos interpretativos. Suas duas árias, Não, Tidinha, não e Só falta seu pai, foram abordadas com grande expressividade e emissão impecável. Eduardo Gutierrez (o pai) e Arthur Medeiros (o peru) completaram o elenco.

Durante os justos aplausos derradeiros, concluí que valeu muito a pena ter ido a São Paulo conferir esta ópera que não chega a uma hora de duração. O problema que apontei em relação ao libreto não foi suficiente para diminuir o meu entusiasmo ao final da apresentação. Esse sucesso só aumenta a expectativa para a próxima ópera de Leonardo Martinelli, Navalha na Carne, baseada em uma célebre peça de Plínio Marcos e que está prevista para ser levada, em meados do próximo ano, no Theatro Municipal de São Paulo.

 

Fotos: Heloísa Bortz. Na foto do post, a cena carnavalizada que encerra a ópera.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com