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Qual o legado de André Heller-Lopes para a temporada 2049 do TMRJ?

A notícia chegou há cerca de duas semanas: o encenador André Heller-Lopes estava deixando a diretoria artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro por motivos burocráticos. Devido ao fato de Heller-Lopes ser servidor de carreira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sua cessão ao TMRJ causava ônus duplo ao governo do estado do Rio, ao qual o Municipal é subordinado.

Tal ônus deriva da Lei que regulamenta a cessão de servidores a outros órgãos – segundo a qual, além de arcar com o salário do profissional, o ente público que o recebe deve ressarcir a instituição federal que cede o servidor. Devido ao Regime de Recuperação Fiscal, o governo fluminense vinha encontrando dificuldades para justificar esse gasto extra.

Essa foi a segunda passagem de André Heller-Lopes pela diretoria artística do Municipal do Rio, e, embora tenha durado um pouco mais que a primeira experiência, também não parece ter deixado um legado à instituição. Não é à toa que utilizo esta palavra, “legado”: o próprio Heller-Lopes a utilizou em mais de uma declaração pública durante a sua curta gestão, referindo-se às temporadas futuras.

Por exemplo, em uma live de meados de maio com a mezzosoprano Carolina Faria, ele chegou a dizer: “(…) A gente tem que pensar no legado, o que que a gente vai deixar pra próxima geração? A temporada 2020 não existiu, a 2021 vai ser uma reconstrução. Agora eu quero saber qual é a 2049. Qual é a temporada 2049? (…)”.

Mais adiante na mesma live, meio brincando, meio falando sério, Heller-Lopes afirmou a respeito do Fórum Brasileiro de Ópera, Balé e Música de Concerto: “(…) eu tava (SIC) brincando outro dia que dentro desse Fórum tinha que ter a categoria ‘diretores de ópera’, né. Então, eu e os meus colegas, todos nos odiamos, todos sabemos e é verdade, todos queremos matar o outro, mas a gente vai ter que fazer uma trégua. (…) É tão amador se odiar, é tão fruto de só ter uma temporada pequena, porque cada teatro faz a sua ‘Carmen’ (…) é ridículo (…)”, e prosseguiu dizendo coisas pertinentes, mas, neste pequeno artigo, ater-me-ei ao que foi transcrito neste parágrafo e no anterior. Os interessados encontram o vídeo completo aqui.

Pois bem, essa última afirmação do encenador, especialmente, é bastante curiosa. Relembremos rapidamente as suas duas passagens pela direção artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no que diz respeito às produções de ópera da casa: durante a sua primeira gestão, que durou cerca de nove meses em 2017, foram apresentadas as óperas Jenůfa, Tosca e Norma. Esta última foi apresentada em forma de concerto, enquanto as duas primeiras receberam encenação do próprio diretor artístico (Heller-Lopes).

Na segunda passagem, do início de 2019 até poucos dias atrás, e já descontando esse ano atípico de 2020, o diretor conseguiu apresentar cinco títulos líricos, sendo um em forma de concerto (Côndor), um em forma de concerto semiencenado (Os Contos de Hoffmann) e três encenados (Fausto, Orphée e Ievguêni Oniéguin). Dos quatro títulos que receberam algum tipo de encenação no ano passado, três deles (Hoffmann, Fausto e Oniéguin) foram assinados novamente pelo próprio diretor artístico. Apenas a direção de Orphée foi entregue a um profissional diferente de Heller-Lopes (no caso, Felipe Hirsch, que é muito mais conhecido por seu trabalho no teatro de prosa, e dirige óperas apenas esporadicamente).

Em resumo, em duas temporadas líricas (2017 e 2019) sob a gestão de André Heller-Lopes, o TMRJ apresentou seis óperas encenadas ou semiencenadas, dentre as quais cinco (83,3%) foram dirigidas pelo próprio diretor artístico da casa.

Nota-se que a prática passada não ratifica o discurso para o futuro: enquanto teve nas mãos o poder de oferecer ao público do Theatro Municipal do Rio de Janeiro linguagens e visões de diferentes encenadores, André Heller-Lopes se autoescalou para dirigir quase tudo. E, na única exceção existente (o mencionado trabalho de Felipe Hirsch), optou por um diretor que não é exatamente conhecido pelo seu trabalho com a ópera.

Cabe mencionar que, na referida live com a mezzo Carolina Faria, Heller-Lopes apresentou a sua justificativa para as autoescalações da temporada 2017, que pode ser consultada no link já citado anteriormente. Ainda assim, cabe perguntar: qual o legado que o ex-diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro deixou para a temporada de 2049?

Além de ter conseguido aumentar em 2019 a quantidade de títulos líricos apresentados em relação à paupérrima temporada de 2018, o que aconteceu de mais positivo nessa segunda passagem de Heller-Lopes pela direção artística do Municipal do Rio foi a série Grandes Vozes no Rio de Janeiro, que trouxe ao Rio importantes nomes do canto lírico internacional.

É bem verdade que a ideia da série não partiu de dentro do Municipal, mas sim da dupla formada pelo empresário austríaco Stefan Ganglberger e pelo diretor de elenco da Ópera de Paris, Ilias Tzempetonidis. Ambos encontraram apoio na direção da casa para incluir o ciclo de concertos na sua programação lírica oficial, com a participação da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. Se a bela série chegará a 2049, não se sabe.

 

O que esperar do sucessor

Por ora, o maestro Ira Levin, regente titular da OSTM, responderá pela direção artística do Municipal, mas é difícil prever o que virá pela frente, sobretudo considerando o recente afastamento do governador do estado, Wilson Witzel, por ordem do Superior Tribunal de Justiça.

O vice-governador, Cláudio Castro, assumiu o posto provisoriamente, mas ele mesmo também é investigado, e é muito provável que mudanças políticas estejam no radar, sobretudo se o afastamento de Witzel se tornar definitivo, seja por impeachment ou por determinação judicial. Se isso acontecer, não será difícil que ocorram também mudanças na secretaria de Cultura e em suas entidades subordinadas, como o TMRJ.

De qualquer modo, o mínimo que se pode esperar do novo diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no pós-pandemia de Covid-19, seja ele quem for, é que a casa ofereça ao seu público em suas temporadas líricas o que faltou durante a gestão de Heller-Lopes: linguagens artísticas diversas, através do trabalho de diferentes diretores cênicos. Sem ódio.

 

Nota do Editor: o autor não considera “ópera” o espetáculo La Tragédie de Carmen, apresentado na temporada 2017 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e, por isso, não o menciona em seu artigo, que trata especificamente de produções de óperas.

 

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com