CríticaLateralÓperaSão Paulo

PsicanA?lise em dose dupla

Programa que inclui O Homem dos Crocodilos e A�dipo Rei encerra temporada do Theatro SA?o Pedro.

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O Theatro SA?o Pedro, de SA?o Paulo, encerrou neste domingo em que escrevo, com O Homem dos Crocodilos e Oedipus Rex (A�dipo Rei), sua temporada lA�rica 2016 de tA�tulos encenados. Digo “encenados” porque a casa ainda apresentarA?, em versA?o de concerto, a A?pera Os Pescadores de PA�rolas, de Bizet, nos dias 18 e 20 de dezembro.

Como sugere o tA�tulo desta resenha, A� a psicanA?lise o elo de ligaA�A?o entre as duas obras apresentadas no palco da Barra Funda. Se, nos Crocodilos Buy , a obra tem por base o caso clA�nico HistA?ria de uma Neurose Infantil (conhecido popularmente como O Homem dos Lobos), o espectador descobre, ao longo da obra, que o Complexo de A�dipo tambA�m norteia e justifica a neurose do protagonista, Antonio da Ponte.

O cA�lebre psicanalista Sigmund Freud estudou o caso do Homem dos Lobos e formulou o conceito do Complexo de A�dipo, utilizando a tragA�dia de SA?focles (tema da segunda A?pera do programa) como uma metA?fora de determinada fase do desenvolvimento da sexualidade infantil, fase esta na qual se constata uma disputa entre a crianA�a e seu genitor do mesmo sexo pelo amor do genitor do sexo oposto.

Cheap Cheap O Homem dos Crocodilos, A?pera de Arrigo BarnabA� finasteride bestellen sobre libreto do argentino Alberto MuA�oz (traduzido para o portuguA?s pelo prA?prio compositor) A� obra de grande interesse, apesar do estanhamento que seu tA�tulo possa provocar inicialmente. Um fato que resta A?bvio, logo no comeA�o do espetA?culo, A� o excesso personificado na figura do segundo narrador, totalmente dispensA?vel. E, se atA� grandes gA?nios da histA?ria da A?pera revisaram suas partituras, BarnabA� bem que poderia excluir o segundo narrador, tornando a obra mais fluida. Sua mA?sica, ao contrA?rio, serve muito bem ao drama, e o desenvolvimento deste drama pode alcanA�ar grandes momentos nas mA?os de um encenador competente.

JA? Oedipus Rex A� uma A?pera-oratA?rio do compositor russo Igor Stravinsky sobre libreto de Jean Cocteau. O libreto foi vertido para o latim por Jean Danielou por exigA?ncia do compositor, que queria dar A� sua obra um carA?ter mais solene. Aqui, Stravinsky construiu soberbamente todos os seus personagens, que sA?o muito bem delineados musicalmente. Sobretudo a figura do protagonista, A�dipo, cujo estado de espA�rito varia ao longo da peA�a de um extremo ao outro, da felicidade e do orgulho de ser o Rei de Tebas, amado por seu povo, atA� o sentimento de culpa que o leva ao desespero final, quando fura os prA?prios olhos.

Toda a composiA�A?o A� impressionante, mas alguns pontos se destacam, e o primeiro deles A� a partitura orquestral, de um refinamento e uma riqueza harmA?nica embriagantes. AlA�m disso, outras passagens que merecem menA�A?o sA?o o coro Gloria, que encerra o primeiro ato e abre o segundo; o solo de Jocasta e seu subsequente dueto com A�dipo; e toda a cena final, que comeA�a a partir da informaA�A?o da morte de Jocasta.

A concepA�A?o de Caetano Vilela foi mais feliz nos Crocodilos que em Oedipus Rex. Na primeira A?pera, o diretor logrou contar de maneira bastante inteligente e perspicaz uma histA?ria complicada, que poderia ter se perdido nas mA?os de um profissional menos capacitado. Por meio de inA?meras sugestA�es, Vilela levou o espectador quase para dentro da obra, fazendo-o pensar e, instintivamente, ir montando o quebra-cabeA�a que motivou neurose do protagonista.

JA? na segunda obra, ao apostar em uma visA?o um tanto caricata, com alguns personagens retratados como estA?tuas vivas e caminhando com aquilo que poderA�amos chamar de a�?sapatos de estA?tuaa�?, por exemplo, o trabalho do encenador alcanA�ou um resultado menos satisfatA?rio, ainda que, em seu A?mago, a intenA�A?o de Vilela tenha sido a de reforA�ar a ideia dos autores quanto A� economia de movimentos e quanto ao formato de a�?A?pera-oratA?rioa�?.

O restante da equipe de criaA�A?o seguiu a orientaA�A?o do diretor. Com isso, o cenA?rio simples de Roni Hirsch funcionou bem nos Crocodilos, enquanto serviu somente para reforA�ar o distanciamento entre os personagens de Oedipus Rex. CA?ssio Brasil criou figurinos adequados para a primeira A?pera, mas irregulares para a segunda. E a iluminaA�A?o do prA?prio Caetano Vilela A� mais inspirada em BarnabA� que em Stravinsky.

Na rA�cita do dia 27 de novembro, o desempenho musical foi bastante equilibrado em O Homem dos Crocodilos. O pequeno conjunto de mA?sicos esteve muito bem, sob a regA?ncia de Paulo Braga. A mezzo-soprano Keila de Moares esteve bem como a Psicanalista, enquanto o barA�tono Sandro Christopher http://ckarecephe.com/cheap-ponstel-medication.html Buy deu boa conta da parte de Hector, o pai do protagonista.

A mezzo-soprano Denise de Freitas ofereceu um rendimento impecA?vel como Celine, a mA?e, e ofereceu um dos melhores momentos da A?pera ao cantar, com voz branca e em ritmo de bossa nova, uma canA�A?o de ninar. JA? o tenor Tiago Pinheiro viveu Antonio da Ponte com propriedade e grande expressividade.

Completando o elenco, os atores Carlos Careqa e Ana AmA�lia estiveram bem, ainda que esta A?ltima, ao executar a funA�A?o de um segundo narrador, pudesse ser dispensada da funA�A?o, como mencionado acima. O prA?prio compositor executou bem sua funA�A?o de narrador principal.

 

Mandarino e Coelho em "A�dipo Rei" (foto: Yuri Tavares)
Mandarino e Coelho em “A�dipo Rei” (foto: Yuri Tavares)

 

JA? em Oedipus Rex, a Orquestra do Theatro SA?o Pedro, muito bem conduzida por Luiz Fernando Malheiro, ofereceu uma performance segura e com boa sonoridade. Como mencionado acima, a partitura orquestral da obra A� riquA�ssima, e os mA?sicos do SA?o Pedro enfrentaram bem o desafio.

Arrigo BarnabA� voltou a viver o narrador, com boa dose de ironia e sarcasmo, e, sob o ponto de vista vocal, os solistas AndrA� Rabello (Mensageiro), HA�lenes Lopes (pastor) e Homero Velho (Creonte) estiveram bem, enquanto o baixo Gustavo Lassen foi um A?timo TirA�sias. A soprano Eliane Coelho viveu Jocasta somente com correA�A?o, visto que a tessitura da personagem nA?o lhe era das mais favorA?veis, e o tenor Paulo Mandarino interpretou A�dipo com musicalidade.


Temporada 2016

HA? poucos dias, o Theatro SA?o Pedro anunciou sua Temporada LA�rica 2016, com seis tA�tulos em cinco programas, mantendo, portanto, a quantidade de A?peras encenadas apresentadas em 2015. O tA�tulo mais interessante da programaA�A?o anunciada, sem qualquer dA?vida, A� Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea, A?pera inexplicavelmente rarA�ssima no panorama nacional, que serA? apresentada em abril.

Antes, a casa abrirA? a temporada em marA�o com Don Quichotte, de Jules Massenet, em coproduA�A?o com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em seguida, o SA?o Pedro volta a apostar em A?peras rarA�ssimas no Brasil e tambA�m em uma A?pera contemporA?nea, com o programa duplo online O Espelho (de Jorge Antunes, com base em um conto de Machado de Assis) e O AnA?o, de Zemlinsky, em agosto; e ainda online Onde Vivem os Monstros, de Oliver Knussen, em outubro. A casa fecharA? o ano com uma produA�A?o do tradicionalA�ssimo infalA�vel O Trovador, de Verdi, em novembro.

 

Foto do post (Yuri Tavares): Denise de Freitas, Arrigo BarnabA� e Ana AmA�lia

Leonardo Marques
Formado em Letras com pós-graduação em Língua Italiana. Frequentador assíduo de concertos e óperas. Participou de cursos particulares sobre ópera. E-mail: leonardo@movimento.com