Crítica

“Piedade” só no título, estreia no Rio com baixos e altos.

Na foto, da esquerda para a direita: Marcos Setta (crítico do site), Paula Almenares (soprano argentina no papel de Ana Cunha), Vicente de Pérsia (crítico de arte) e, ao fundo, maestro Carlos Prazeres (Diretor Artístico da Orquestra Sinfônica da Bahia).

A estreia mundial da ópera “Piedade”, de la pela dominicana João Guilherme Ripper, ocorreu no Vivo Rio dia 21 de abril, às 16 horas. “Piedade” só no título! trata-se de um bairro periférico da zona oeste do Rio de Janeiro, onde se passa a trama em 1909. “Matar para não morrer”, de Mary del Priore, uma das maiores historiadoras do Brasil, mostra neste tema, todos os problemas envolvidos na obra de Euclides da Cunha (1866-1909)

Ao entrarmos na sala de espetáculos observamos: para que aquela cama à frente da orquestra? Desfiles de pistolas nas mãos dos três personagens (tudo desnecessário) ! Muito barroco mesmo. As sequências cênicas já demonstrariam, por si só, tudo o que se sucederia ao jogo dramático. É só André Heller-Lopes. O óbvio está explícito.

Da parte da orquestração de Ripper tudo correu bem; leitura e regência impecáveis do máximo maestro Isaac Karabtchevsky, diretor artístico e regente titular da Orquestra Petrobras Sinfônica, nesta que foi encomendada pela OPES ao seu compositor, em homenagem aos 110 anos de lançamento  do livro “Os Sertões”.

A partitura de Ripper é de construção rica. A escala octatônica é usada para refletir a atmosfera de grande tensão, como nos momentos da troca de tiros e a morte de Euclides; bem como o amplo cromatismo, descreve o lirismo das árias e o “serialismo” marca com a atonalidade, os conflitos e os contrastes dos personagens. Cheia de temas múltiplos, regada com variedades de sonoridades orquestrais, todavia algumas vezes, o rumo se perde na compreensão daqueles que as ouvem. A ausência do coro,  o qual representaria o elemento narrativo, empobrece as variáveis que poderiam ser acrescentadas ao melodrama. A ópera estruturada em quatro cenas introduzidas por prólogos, acompanhados por prelúdios de violão solo são muito bem executados por Paulo Pedrassoli Jr.

Já conhecia Paula Almerares de sua resplandecente e linda interpretação de “Manon”, de J. Massenet no Teatro Colon de Buenos Aires, em 2010 quando da reabertura daquele célebre teatro e, do seu debut no Municipal do Rio de Janeiro, na “Lucia de Lammermoor”, (2011) com grande êxito entre nós. Soprano lírico “leggero”, dotada de notável escola de canto na Argentina, somada a elogiável e marcante domínio cênico, compôs nesta estreia,  a mulher que trai seu marido (Ana Cunha), aqui uma variável  do personagem, que na realidade, bastante volúvel, se transformou numa mulher delicada, submissa, mas que não consegue livrar-se da traição em seu compromisso conjugal.

Dominando por completo o elenco artístico, cantou as suas árias , nas cenas 2 e 4, com uma sensível e apreciável interpretação no registro lírico de sua grandiosidade vocal,  em agudos rutilantes em timbrística personalizada. Soube, ademais, extrair as inflexões que se propôs exibir. O público reconheceu a sua qualidade artística, ovacionando-a em cena aberta. Tudo muito romântico,  certamente contraditória às características verdadeiras da esposa traidora; tanto é que Ana Cunha e Dilermano de Assis, acabam se casando, após a morte de Euclides. E, curiosamente, o filho do casal autêntico, ao se deparar com Dilermano, para se vingar da morte do pai, acaba, também assassinado pelo seu padrasto.

Marcos Paulo que já havia decepcionado o público paulistano, no seu Duque de Mantova em “Rigoletto”, no centenário do Theatro Municipal de São Paulo (2011), uma vez mais se apresentou precariamente em sua parte vocal, a  de Dilermano de Assis. A voz é forçada, os agudos sofridos e esganiçados, e o timbre nada agradável, em que pese uma relevante presença cênica. De fato,  bastante deficiente é a sua atuação.

O barítono Homero Velho incumbiu-se do papel principal de Euclides da Cunha: voz que corre fluentemente, sonora, lírica e bela. A música que lhe foi escrita, não o ajudou, tendo em vista haver muitos recitativos. Desencumbiu-se muito bem  ainda assim vocalmente e com uma bela presença de palco.
Marco Antônio Seta, em 22 de abril de 2012.