CríticaLateralMúsica contemporâneaRio de Janeiro

Pais e filhos

Concerto com Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Lívia Nestrovski reencena Vanguarda Paulistana dos anos 1980 na Sala Cecília Meireles.

 

No início, uma grande expectativa por poder ver e rever os músicos Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Purchase Lívia Nestrovski que, juntos, fariam um concerto na série Sala Jazz, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, em 22 (e 23) de janeiro. Intitulado De Nada Mais a Algo Além, o recital traria as canções (escritas por eles, interpretadas por ela) do CD homônimo lançado em 2013.

A Sala estava tomada por uma energia boa. As várias cabeças brancas, entremeadas por muitos jovens, compunham um público entusiasmado e ansioso para saudar os ídolos. Logo de começo, Arrigo e Luiz entram em cena e anunciam que pouco ocupariam o palco, deixando-o para Lívia, jovem escolhida para interpretar as composições de ambos. Ela ganha a chancela dos mestres e eles passam a participações especiais.

Então surge certo estranhamento. Viemos aqui para ouvir os vanguardistas, mas nos deparamos com um show meio solo de outra artista? Talentosa e em ótima companhia – Mario Manga (guitarra e direção musical), Paulo Braga (piano), Zé Alexandre Carvalho (baixo acústico), Fábio Tagliaferri (viola), Adriana Holtz (violoncelo), Luiz Amato (violino), Edu Ribeiro (bateria) –, mas sem a vivência legítima daquele período perdido no espaço. Tudo parece ter perdido o arrojo daqueles tempos e soar mais digestível e edulcorado. Ainda estão lá a teatralidade, um toque de lirismo e uma ponta de agressividade – era a geração que tinha desistido de mudar o mundo, afinal. Clara Crocodilo parece ter se tornado um pouco Luci Leão, que “ficou mansa” e, hoje, “a fera está quieta”.

Aos poucos, Lívia e a afiada banda vão quebrando o gelo e conquistando a plateia com canções arrojadas como De Cor, de melodia sinuosa e cheia de arestas; e Desamor, digna representante da Vanguarda, na qual a jovem cantora, em voz e performance oitentista, ecoa as musas de outrora, Tetê Espíndola e Vânia Bastos.

A ribalta então se esvazia e surgem Luiz Tatit e seu filho Jonas Tatit, ambos com seus violões, para interpretar Doroti Purchase , à qual se seguiram as inteligentemente divertidas Purchase Verde Louro buying asthma inhalers mexico e Feitiço da Fila cheap acivir injection . Foi então, ao ver em cena o pequeno grande músico e seu violão, ao lado do filho, que tudo fez sentido. Foi naquele momento, ao som da doçura da voz de Tatit, que se revelou a generosidade desses velhos artistas, abrindo caminhos para as novas gerações e contribuindo, com seu talento e experiência, para a pavimentação dos novos rumos. Não porque os jovens precisem particularmente de empurrões – Lívia, filha de Arthur Nestrovski, diretor artístico da Osesp, tem musicalidade e presença cênica de sobra para a bonita carreira que está se formando, como demonstrou, por exemplo, nas duas vezes (uma foi bis) em que interpretou com precisão e delicadeza a pérola Frente a Frente –, mas porque, mesmo que mudem os tempos, os estilos e os ídolos, sempre haverá, em algum lugar, amor e generosidade para mover o mundo.

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Arrigo Barnabé ocupou o piano para dar espaço ao avesso do rock: a valsa. Toda Nudez, composição com Roberto Riberti, veio primeiro. A Valsa do Largo da Ordem, parceria com Zeca Baleiro, foi em seguida ensaiada duas vezes, mas não decolou. Pediu desculpas a plateia e deixou a composição de lado, alegando que a peça demandava muita energia. Tatit entrou no palco e os dois apresentaram a composição Ano Bom, criada por ambos para o período vazio de tempo que existe entre Natal e Réveillon. É dela que veio o verso que dá título ao CD. A canção, levada apenas ao piano e com as duas vozes, parecia ser o rascunho da obra, sua contracapa, sua preparação. Quando Lívia e a banda entraram em cena e a música foi apresentada com o bonito arranjo de Mario Manga é que surgiu a canção passada a limpo, em traje de gala, encantadora.

Ao final, uma derradeira homenagem à Vanguarda Paulistana, aos anos 1980, às lembranças e a nossa história. Na roqueira Babel, Barnabé vem do fundo do palco, sacudindo a cabeleira e agitando um grande osso, com fúria, como um homem pré-histórico de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Enquanto a letra diz que o Order bulk buy motilium “ser humano deu chabu / foi crescendo errado”, fica a impressão de que, por mais que a postura roqueira-agressiva possa apontar na direção da descrença, ainda resta esperança no homem, que pode ser capaz de afeto e generosidade como alicerces para a construção de um futuro melhor e cheio de música.

 

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2 Comments

  1. Lendo a crítica, deu mais vontade ainda de assisti-lo e saborear as letras e melodias de Arrigo Barnabé na voz de Livia. Parabéns!

  2. Mario Manga é outra peça fundamental daqueles tempos. Grande músico e compositor.
    Parabéns pelo texto, Fabi! Très bon!

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Fabiano Gonçalves
Publicitário e roteirista (formado no Maurits Binger Film Institute - Amsterdã). Corroteirista do longa O Amor Está no Ar e de programas de TV (novela Chiquititas - 1998/2000). Redator na revista SuiGeneris, no site Escola24horas e no Departamento Nacional do Senac. Um dos fundadores do movimento.com, escreve também sobre televisão para o site teledossie.com.br. - E-mail: fabiano@movimento.com