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“Otello”, de Verdi, aporta no Theatro da Paz em Belém

Estreou a 20 de setembro no Theatro da Paz “Otello”, de Verdi, com casa lotada e sucesso !

Rodrigo Esteves e Andrew Lima
Rodrigo Esteves e Andrew Lima

Verdi se apresentou ao público após 16 anos de silêncio como criador de ópera. “Aída” seria sua última ópera em 1871. Durante esse período refletiu muito sobre sua experiência musical e sobre a evolução que sofreu a ópera. Havia a necessidade de se criar algo novo, para que se acompanhasse a evolução dos tempos. A estrutura do libreto agora é contínua, permitindo ao maestro romper ao esquema de árias, duetos, recitativos e desenvolver um completo discurso unitário. A proposta era sedutora: um texto de Shakespeare: Otelo, o mouro de Veneza. Para libretista um grande poeta e compositor: Arrigo Boito. Uma figura marcante, na adaptação do texto shakesperiano ao propósito do libreto foi, segundo o sentimento verdiano, o intrigante e perigoso Iago, a tal ponto de Verdi pensar até em torná-lo papel-título.

A nova ópera, manteve afinal o seu nome estreando a 5 de fevereiro de 1887, com Francesco Tamagno, Romilda Pantaleone e Victo Maurel, arrebatando público e a crítica,  no Teatro Scala de Milão. É a mais dramática das produções do compositor. A cena se desenrola nos fins do séc. XV, às margens de um porto da ilha de Chipre, à margem da guerra turco-veneziana.

E quanto à música de Verdi, aqui percebe-se com toda a força e dramaticidade, não apenas no sentido geral de que está repleta de drama e caracterização, mas porque muitas das suas decisões musicais estão governadas por considerações dramáticas. Chegamos à pedra de toque da produção verdiana; a busca contínua pela fluidez do texto musical, trabalho duramente engastado, que tem seu resultado final com Otello. Frequentemente, é a orquestra que define o caráter do personagem, às vezes muito mais que a própria linha melódica. O encadeamento dos coros é magnífico e original desde a tempestade inicial, no 1º ato até o final do terceiro ato.

Prova disso: confiram-se os registros fonográficos ou de DVD dos eminentes intérpretes Mario Del Monaco, que a representou mais de 350 récitas, inclusive em São Paulo (1950 e 1969),  Carlos Guichandut, Jon Vickers,  James Mc Cracken,  Placido Domingo e José Cura. As maiores Desdemonas : Renata Tebaldi,  Leonie Rysanek,  Gwyneth Jones,  Mirella Freni e Dame Kiri Te Kanawa. Tito Gobbi,  Giuseppe Taddei,  Aldo Protti,  Dietrich Fischer-Dieskau,  Peter Glossop entre os grandes barítonos (Iago).

Rodrigo Esteves e Antônio Azevedo
Rodrigo Esteves e Antônio Azevedo

A orquestração ganha tratamento diferenciado nesta partitura. Na presente produção que o Theatro da Paz nos oferece, o maestro Sílvio Viegas mantém a orquestra firme e competente sob a sua regência. Experiente no campo da ópera, trouxe seu arsenal obtido no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde ele é diretor da orquestra da casa. Conquistou os músicos e deles extraiu uma relação harmoniosa e consonante com as vozes. A orquestra delineou os personagens e, sobretudo no 2º e 3º atos, a música transcende tudo que Verdi havia criado. Parabéns aqui aos sopros de madeira: flauta I, clarinete I e fagote III que tocaram notavelmente. Os coros de importância capital, tanto na cena I como no “Fuoco di gioia”, , de escrita difícil, em contratempo, e nos demais momentos, se impuseram como um conjunto verdadeiramente preparado por Vanildo Monteiro. Muito afinado o coro infanto juvenil Vale Música no 2º ato.

Walter Fraccaro no papel título: o atormentado personagem shakespeareano, um tenor lírico forte, voz bem timbrada e conduzida em boa escola,  iniciou em “Esultate “-  cena I – um pouco tenso na récita de estreia, todavia consegue descer à mezza voce  necessária de certos trechos (duetos e árias) com muito controle de seu material vocal. Como intérprete, tanto nos duos com Iago e Desdemona e, principalmente na ária “Dio, mi potevi scagliar”, onde profundamente abatido, pois não consegue compreender a traição de sua mulher, lamenta a sorte cruel, em introspectiva e bela dramatização. A cena final “Niun mi tema” de Fraccaro  é profundamente tocante no envolvimento do seu personagem. Aplausos Sr. Fraccaro.

Rodrigo Esteves nas vestes do intrigante e perverso Iago: o barítono brasileiro preparou-se e esforçou-se cumprindo a sua missão. Compôs satisfatoriamente a tremenda maldade de seu papel e soube lançar a voz com mestria. Nos grandes trechos “Inaffia l’ugola /Trinca…”; como no Credo e no dueto com Otello “Era la notte…”, deu expressiva e notável veêmencia intensificada.

O soprano Gabriella Rossi galgou o palpel de Desdêmona. Soprano lírico, a jovem de 29 anos, possui um material rico, mas precisa amadurecer, e muito, este personagem de Shakespeare tão doce, cândido e inocente. Gabriella lindamente trajada em quatro belas indumentárias, se melhor trabalhada vocal e cenicamente, emoldurando as nuances e sutilezas cênico-musicais, poderá vir a ser a ideal Desdêmona que Verdi propõe, melhorando seus agudos, por vezes ásperos, ora inseguros ou mal emitidos ou ainda calantes na afinação. Uma esperança para o canto lírico nacional.

Walter Fraccaro na despedida no leito de Desdêmona
Walter Fraccaro na despedida no leito de Desdêmona

Os figurinos do premiadíssimo Fábio Namatame Order verossímeis ao enredo da ópera, mostram pesquisa e envolvimento, e particularmente ao duo central, belos os de Desdêmona, ideais os de Otello, bem como apropriados os dos demais personagens. Cenários de Duda Arruk em dobraduras, simples mas funcionais, resolvem bem as cenas; utilizou-se o preto, prateado, e inicialmete com o pano de boca preto,  para dar o clima trágico do enredo. Efeitos espelhados inteligentes e lindo o prisma do ato III.

A direção cênica de Mauro Wrona cialis in canada é competente. Fiel ao drama e aos costumes, soube direcionar muito bem a movimentação de massas corais, bem como os duetos do trio central e a cena da entrada do embaixador veneziano, juntamente com o coral lírico: os trompetes respondendo nos camarotes superiores, resultou impressionante. Bela cena! Aqui, Sávio Sperandio realizou-se corretamente, ricamente trajado, imponente e garboso como Lodovico (baixo cantante). Uma voz que pode fazer carreira internacional!

Completaram o elenco Ana Victotia Pitts, uma boa voz de mezzo soprano (Emilia, a governanta de Desdemona); os tenores Antônio Wilson Azevedo (lírico leggero) um Cassio desenvolto; e cheap accutane prescription http://leonitotl.mhs.narotama.ac.id/2018/02/01/cheap-cytoxan-prescribing/ http://www.hardcandypilates.com/where-can-i-buy-motrin-for-infants/ Pills Andrew Lima, muito bem como Rodrigo; o baritono Andrey Mira Order where to buy glucophage xr como o ex-governador Montano e Jefferson Luz (um arauto), a contento. A iluminação de  Wágner Antônio funcionou muito bem.

Vale assinalar que os cenários e figurinos foram aqui confeccionados, como propriedade da produção local (Theatro da Paz) o que possibilitou a abertura de mão-de-obra no mercado da arte e a conquista de patrimônio artístico (acervo do teatro) para a reposição integral desta bela ópera em anos posteriores. Assim esperamos e que venham outras óperas de Verdi, Massenet, Puccini, Rossini, Wagner e Mozart entre outros, incluindo-se o nosso grande Carlos Gomes, o mestre de Campinas/SP. Encerro parabenizando o Sr. Gilberto Chaves, Coordenador Geral do Festival de Opera deste teatro e que assina também a direção artística do mesmo, pela ótima realização deste XIII Festival.

Escrito por Marco Antônio Seta em 22 de setembro de 2014.
Inscrito Jornalista nº 61.909 MTB / SP

Marco Antônio Seta este presente em Belém a convite da direção do Festival de Opera.} else {}

8 Comments

  1. Deu prazer ler essa crítica de Marco Antonio Seta. Histórica e elucidativa instiga quem gosta, a ir até Belém para assistir ao Festival.
    Parabéns pela clareza e análise crítica e musical.

  2. Prezado Marco Antônio, permita-me dizer que sua lista de grandes intérpretes não é feliz. Colocar Guichandut, Cura, Protti, Fischer-Dieakau e Glossop e não mencionar Tamagno, Zenatello, Vinay, Maurel, Eames, Slezak, Warren, London e outros realmente grandes Otellos, Iagos e Desdemonas, achei um lapso.
    Penso que você não valorizou o trabalho de Rodrigo Esteves como seus colegas críticos. Assisti às três récitas e nas três ele fez um Iago soberbo. Ele realmente estudou a personagem e a partitura. O que cabe é observar que a voz não é volumosa como de outros intérpretes, porém é suficiente e adequada para o papel na minha opinião.
    A Gabriela Rossi falhou pouco na primeira récita e menos ainda nas duas seguintes (assisti a todas). Se há algo que ela tem é afinação. A palavra “salce”, tantas vezes repetida, nascia sempre perfeita, segura e afinadíssima, coisa bastante rara de se ouvir.
    De qualquer forma, meus parabéns pelo excelente trabalho que você vem desenvolvendo para os amigos da lírica.
    GB

  3. Há outros grandes barítonos por aí, e Esteves não é o maior deles. O seu Amonasro em São Paulo, ano passado, foi um fracasso. Na “Carmen” sua voz estava velada. Até parece que só existe Esteves no mundo ! Só quero ver em São Paulo o seu Iago.

  4. Porque tanta raiva contra o barítono Esteves? Pode responder senhor “Nino”? É muito extranho que este comentário seja aprovado na moderação, sendo tão tendencioso não acha?
    Vejamos o que acontecerá com o meu.
    É lógico que o Esteves não é o melhor baritono que existe e que existem outros melhores sem dúvida. Seu comentário “só quero ver em São Paulo o seu Iago” está cheio de rancor e ressentimento negativo. Está claro que o senhor não gosta desse cantor. O que me estranha é como a direção deste belo site deixa passar comentários como o seu. Se todo mundo viesse aqui pra meter o pau nos cantores de que não gostam, seria um pena, não acha? Todas as críticas para o Esteves foram positivas neste Otello, TODAS! Será que o cantor pagou a todos esses críticos? Incluindo o senhor Marco Antonio Seta? Acho que não hein. Quer responder senhor “Nino”?

  5. Evidente que há outros barítonos para cantar Iago, Nino. Contudo, veja as opiniões dos outros críticos, inclusive do Sampaio, e há uma certa unanimidade em que Esteves se saiu muito bem no papel. Foi uma interpretação bem preparada e inteligente. Também estou curioso no seu desempenho aqui em SP, onde o teatro é maior e a acústica bem pior do que no Theatro da Paz.
    GB

  6. Caro Francisco Gomes, permita-me esclarecer que a intervenção da administração do site se resume a retirar ou impedir textos que tenham palavras de baixo calão ou desrespeitem as pessoas. Opiniões de que alguém canta bem ou não não é desrespeito. Foi muito legal a quantidade de pessoas que se pronunciaram contra a opinião do Sr. Nino, colocando as coisas no devido lugar.

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Marco Antônio Seta
Diplomado em Educação Musical, Artes Visuais e Educação Artística. Publicou artigos e críticas de óperas em vários veículos de SP ao longo de três décadas.