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Os rumos da ópera – a arte das elites

Um depoimento de dezembro de 2000. Infelizmente, parece que pouco se fez na direção apontada pelo Cléber Papa. Muito há que ser feito para atingirmos um nível sequer razoável para a ópera no Brasil.

Vamos ao artigo:

Cléber Papa, com sua experiência, aponta caminhos para o desenvolvimento da ópera no Brasil.

Um caminho fácil é descer do metrô, sair à direita na James St. e chegar à entrada da Royal Opera House de Londres, em Covent Garden. Na bilheteria, com algo em torno de 150 libras (mais ou menos 225 dólares), comprar – com sorte, se houver desistência – um bom lugar para assistir à ópera em cartaz, ou o título diferente do dia seguinte. Com azar, comprar ingresso para daí a dois meses.

Este é, sem dúvida o caminho mais rápido para chegar á ópera. Afinal, basta ter alguns dólares no bolso e um pulinho a Nova Iorque, Londres, Paris, Sidney, Jacarta, Tóquio, Viena, Berlim, Milão ou qualquer das várias centenas de casas de ópera em atividade permanente, todas sempre lotadas, com público de todas as classes sociais e ávido por espetáculos de qualidade.

Têm toda a razão aqueles que dizem ser a ópera um privilégio das elites no Brasil. Claro. Somente as elites têm a possibilidade dos tais dólares para ter acesso a esta magistral forma de expressão que vive, neste começo de milênio, a sua mais importante renovação em todo o mundo. E aí provavelmente reside o grave problema de entendimento: a ópera só é de elite aqui, porque o Brasil ainda produz em pouca quantidade, forma mal os cantores, remunera mal a maioria das orquestras, não aperfeiçoa o corpo técnico, não pratica preços populares e os poucos espetáculos têm poucas apresentações.

Tudo isto sugere uma profunda reflexão sobre o que desejamos para o futuro da ópera, quais os papéis desenhados para cada segmento e sobre como a sociedade deve participar do equacionamento do problema. A primeira questão a ser abordada de frente é a formação artística e mão-de-obra técnica.

O Brasil tem boas vozes? Tem. Potencialmente tem. Aqui e ali encontramos profissionais que por talento, oportunidade e recursos pessoais tiveram condições de estudar, criar seu espaço e entrar no círculo vicioso “canta porque estuda porque canta“. Alguns deles – raros e heroicos – fizeram e fazem carreira fora do Brasil. Outros – uma nova geração de grande talento – destacam-se nas poucas produções nacionais, demonstrando que o caminho é possível.

Recentemente, no Concurso Bidu Sayão, realizado em Belém, tivemos a oportunidade de ouvir uma quantidade enorme de talentos. Cantores que, com um empurrãozinho de nada e orientação responsável, podem estar em qualquer palco. Basta-lhes o essencial: aulas de canto e de teatro. Porque a nova ópera exige bons cantores que também sejam bons atores, além de encenadores familiarizados com a linguagem.

Com as orquestras, o horizonte é mais rapidamente visível. Temos uma tradição de bons músicos e bons grupos orquestrais. Os problemas passam muito mais pela formação de bons regentes, preparadores e questões financeiras, do que por conhecimento ou habilidade.

Talento técnico, também temos de sobra. Esquecendo o teatro, os carnavais, a televisão, os filmes publicitários, basta ver o que também se faz na arquitetura promocional, nos projetos de decoração, na moda e em outras áreas onde o país se projeta internacionalmente.

É um potencial enorme que precisa de qualificação para a linguagem do espetáculo, de aperfeiçoamento com programas de estímulo nas universidades, escolas profissionalizantes, entre outros, através de oficinas, workshops e efetiva integração a atividades reais de produção, para que tenhamos mais bons cenógrafos, designers de luz, figurinistas, aderecistas, cenotécnicos, iluminadores com aproveitamento real no mercado de trabalho.

Uma produção de ópera envolve no mínimo 200 pessoas – duzentos empregos diretos, tendo um importante impacto social, agregando valores em todos os níveis. Os custos de produção podem ser equacionados, utilizando-se os corpos estáveis existentes. Tendo continuidade e volume de trabalho, a exemplo do que ocorre nos centros mais desenvolvidos, é possível reduzir custos profissionais e renovar elencos com intercâmbio intercompanhias. Ainda que pareça distante, pode-se a curto prazo formar companhias estáveis privadas que trabalhem em sintonia com os Estados detentores dos principais equipamentos (Teatros, Coros, Orquestras).

A experiência recente com a exportação de “O Guarany”, que realizamos em Lisboa, sugere mais uma vertente. A ópera pode ser produto de exportação – como também outras atividades da cultura –, integrando o balanço de pagamentos e como tal deve ser encarada. O complexo de produção no Brasil representa um potencial contabilizável e com um fantástico poder de crescimento.

Para obtenção dos recursos financeiros privados para que estas iniciativas se concretizem, já temos meio caminho andado. As empresas, através de suas agências de comunicação, já se utilizam fartamente da ópera. Basta ver os comerciais de televisão, que usam e abusam da ópera em suas trilhas sonoras. As novelas, sempre muito populares, com enorme constância, utilizam árias, trechos de ópera e personagens que encarnam cantores, admiradores etc. Afinal, a ópera está sempre associada à qualidade, à inteligência, ao bom gosto, à respeitabilidade, ao bom humor, à vida saudável, à diversão, ao talento, à elegância e à sensualidade. E estes são os elementos perseguidos por praticamente todas as empresas na sua comunicação.

Mas não basta isto. As empresas querem e precisam, com toda a razão, de regularidade de produção, seriedade e aproveitamento mercadológico dos muitos subprodutos possíveis. Podem e sabem que têm os meios para dar o salto qualitativo na sua comunicação, no relacionamento com seus clientes e prospects através da ópera. O mercado produtor é que deverá dar estas respostas, propondo e trabalhando para conseguir a integração destes interesses. As empresas, por sua vez, devem facilitar o acesso a seus dirigentes abrindo estas portas, tarefa hoje quase impossível para quem busca patrocínio.

Nestas condições, poderemos ter a partir de 2001 as noites de gala das elites, convidadas com todo o charme de direito e, seguramente, belíssimas récitas a preços populares, sempre lotadas. Sem exagero, a ópera operária, feita para todos os públicos com a mesma qualidade dos bons espetáculos internacionais. Aí sim a ópera continuará sendo, fora do Brasil, apenas uma excelente e agradável opção de turismo — e não a única possibilidade de contato enriquecedor com a mais complexa forma de produção artística.

Autor Cléber Papa
em 20/12/2000

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